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Não sei se é coisa do algoritmo das minhas redes sociais ou se é um fenômeno real, mas esse descarrilamento das conversas entre a Fraternidade Sacerdotal São Pio X e o Vaticano fez com que eu começasse a ver sedevacantistas. Com que frequência? O tempo todo! Sedevacantistas, como diz o nome, são aqueles para quem não existe papa reinante atualmente, ou seja, a Sé Apostólica estaria vacante – para a maioria dos sedevacantistas, estamos assim desde 1958, quando foi eleito São João XXIII, o papa que convocou o Concílio Vaticano II, que para esse povo é a fonte de todo o mal na Igreja.
Primeiro, foi a nota da Arquidiocese de Olinda e Recife, alertando para batizados irregulares celebrados por “uma pessoa que se apresenta como bispo, sem possuir, contudo, vínculo canônico com a Igreja Católica Apostólica Romana”. A pessoa, no caso, é Rodrigo Henrique Ribeiro da Silva, e a ACI Digital reconstituiu sua trajetória. Nascido em 1991, ele estava no seminário de Olinda e Recife quando, em 2012, pulou fora para se juntar a um mosteiro beneditino tradicionalista no Rio de Janeiro, que à época estava na órbita da SSPX. Posteriormente, esse mosteiro se afastou dos lefebvristas, radicalizando-se cada vez mais ao lado do bispo Richard Williamson, um dos quatro que haviam sido ordenados em 1988 e que tiveram sua excomunhão revogada por Bento XVI em 2007. No mesmo ano em que Ribeiro da Silva trocava o seminário pernambucano pelo mosteiro fluminense, Williamson foi expulso da SSPX; cinco anos depois, em 2017, Williamson ordenou Ribeiro da Silva ao sacerdócio.
Com um ano de sacerdote, Ribeiro da Silva se tornou sedevacantista, e isso foi demais até para a turma da dita “Resistência” (o grupo ligado ao bispo Williamson). O padre Rodrigo, então, se aproximou de um bispo norte-americano sedevacantista chamado Daniel Dolan, outro egresso da SSPX (temos um padrão aí?) que se radicalizou, foi expulso e ajudou a criar a Sociedade São Pio V (SSPV). Dolan, que tinha sido ordenado padre pelo próprio Marcel Lefebvre, foi ordenado bispo em 1993 por Mark Pivarunas, outro sedevacantista. Em 2021, Dolan ordenou o padre Rodrigo ao episcopado; o novo bispo, então, abriu um seminário em São José dos Campos (SP).
Validade de sacramentos não serve de desculpa para se ir atrás de alguém tão rebelde a ponto de negar legitimidade aos sucessores de Pedro
E por que não uso aspas em bispo, nem em padre, para me referir a Rodrigo Ribeiro da Silva? Porque, mesmo celebrados ilicitamente, esses sacramentos são válidos. É possível traçar a sucessão apostólica do brasileiro: ele foi ordenado por Dolan, que foi ordenado por Pivarunas, que foi ordenado pelo mexicano Moisés Cardona, que foi ordenado pelo vietnamita Ngô Đình Thục (até aqui, tudo sem permissão papal, ou seja, ordenações ilícitas, embora não inválidas), que foi ordenado em 1938 por Antonin Drapier, delegado apostólico para a Indochina. Thục foi excomungado em 1976 por São Paulo VI ao ordenar bispos sem a autorização do papa, mas se reconciliou com a Igreja e abandonou o sedevacantismo em 1984 – o estrago, no entanto, estava feito, e dura até hoje. Um bispo ou padre sedevacantista pode batizar ou celebrar missa validamente, no sentido de que a pessoa está de fato batizada e que o pão e vinho de fato se tornam o Corpo e o Sangue de Cristo; mas isso não serve de desculpa para ir atrás de alguém tão rebelde a ponto de negar legitimidade aos sucessores de Pedro.
Fundador do LifeSite News dobra a aposta sobre ilegitimidade de Francisco e Leão XIV
No fim de novembro, contei que John-Henry Westen, o CEO e fundador do LifeSite News, havia publicado uma entrevista com um escritor cuja tese central era a de que, analisando aparições aprovadas pela Igreja e outras supostas revelações, era possível concluir que a Igreja teria dois antipapas seguidos. No YouTube, a descrição do vídeo dizia que “documentos vaticanos ocultos por muito tempo e testemunhos de videntes se encaixam com o caos litúrgico e ambiguidade doutrinal atuais”, e nas mídias sociais a imagem usada para divulgar a entrevista era uma foto de Bento XVI com a legenda “profecia afirma que Bento XVI foi o último papa – com dois antipapas seguidos”. Uma insanidade completa.
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Pois agora Westen foi ainda mais longe. Em 26 de fevereiro, escreveu no X: “Alguém quer se juntar a mim nessa petição aos cardeais? Pedir-lhes que por favor considerem a possibilidade de Francisco e Leão serem antipapas”. Seu argumento? Documentos como Amoris laetitia, Fiducia supplicans,Traditionis custodes, Mater populi fidelis e a mudança no Catecismo sobre a pena de morte. Tudo temperado com a adição posterior (e condenada pela Igreja) às aparições de La Salette sobre Roma “perder a fé” e se tornar “a sede do Anticristo”. A coisa toda é muito absurda, até porque um leigo dizendo aos cardeais o que eles deveriam fazer é o tipo de coisa que eu esperaria de um “sinodal” alemão, não de um católico que se diz ortodoxo.
Onde as histórias se cruzam
O LifeSite – que tem aproveitado o episódio da SSPX para dar ainda mais palanque a outro sedevacantista, o arcebispo Carlo Maria Viganò – noticiou, no dia 27 de fevereiro, o aviso da Arquidiocese de Maceió sobre missas tridentinas celebradas sem autorização do bispo local; era uma referência às andanças do bispo Rodrigo pelo Nordeste, embora seu nome não fosse mencionado. Para comentar o alerta sobre a desobediência cismática, e a consequente excomunhão envolvida, o LifeSite chamou um canonista italiano que, mesmo dizendo “não conhecer o contexto concreto” da nota da arquidiocese, não hesitou em falar de “terrorismo midiático”. Aí é muita malandragem, não? Se bem que, pelo andar da carruagem, se o LifeSite soubesse que se tratava de um bispo sedevacantista, seria capaz de o site começar a promovê-lo...
Mas a ideia é tão ridícula assim? Já não houve antipapas no passado?
Sim, houve. Mas ninguém precisa ser especialista em História da Igreja para saber que os períodos de maior confusão sobre quem ocupava a Sé Apostólica foram marcados por enorme interferência política, com cardeais e até santos em lados opostos. Os últimos antipapas dessa época datam do século 15 – e, em todo esse tempo, sempre houve um papa legítimo, ao contrário do que afirmam os sedevacantistas de hoje, muitos dos quais dizem que a Igreja está sem seu pastor supremo desde 1958. Acreditar nisso equivaleria a afirmar que a Igreja está abandonada por Deus há quase 70 anos (o que, aliás, criaria uma situação impossível de resolver, já que também não haveria mais cardeais legítimos), e isso certamente vai contra a promessa do próprio Cristo; alguns grupos, para contornar esse problema óbvio, resolveram eleger seus próprios “papas” (entre aspas mesmo) usando todo tipo de gambiarra canônica; mas, ao contrário dos antipapas de períodos como o Cisma do Ocidente, esses são irrelevantes, verdadeiras esquisitices modernas (ou antimodernas, sei lá).
Há quem abrace a rebelião sedevacantista conscientemente, mas há muitos outros católicos que não percebem o engodo diante de um bispo ou padre que nega a validade de um papa
E por que dar divulgação para esse povo?
Essa é a pergunta de um milhão de dólares, e não vale só para sedevacantistas, mas para qualquer bobagem que gostaríamos de combater. Não estaríamos divulgando indiretamente essas loucuras? Sim, há o risco de que haja quem se deixe levar pelo canto da sereia e acabe se juntando a essa turma. Mas, por outro lado, é preciso fazer o alerta, porque há muitos incautos – tudo depende da maneira como se fala. Muitos anos atrás, fui fazer uma reportagem sobre uma igreja de garagem na Região Metropolitana de Curitiba chamada Igreja Católica Apostólica Carismática. Havia gente lá que acreditava estar em uma missa totalmente regular, que só era celebrada numa garagem porque a comunidade ainda não tinha conseguido lugar ou dinheiro pra erguer uma igreja... ou seja, há quem abrace a rebelião conscientemente, mas há muitos que não percebem o engodo.
Há uma pessoa rodando o Nordeste, com todos os paramentos episcopais, celebrando missas católicas, administrando sacramentos católicos... e sabe Deus quantos irão imaginar que se trata de um bispo em plena comunhão com o papa, sem saber que estão diante de alguém que, embora tenha sim o poder episcopal, rebelou-se contra a Sé Apostólica. Há um site que já foi referência mundial em questões de defesa da vida, mas que hoje, a pretexto de brigar pela clareza doutrinal, está questionando a legitimidade dos sucessores de Pedro e botando minhoca na cabeça de muito bom católico, que começa a olhar para Roma com desconfiança, e não com devoção filial. É preciso alertar, sim.












