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Os anos 80 estão de volta. Boa música? Brasil dominando a Fórmula 1? Mullets? Humor de qualidade sem policiamento ideológico/identitário? Hiperinflação? Não, nada disso: o revival é de ordenações episcopais sem mandato pontifício pelos tradicionalistas radicais da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (SSPX). Em 1988, Marcel Lefebvre e Antônio de Castro Mayer ordenaram quatro bispos sem permissão do papa, e todos os envolvidos foram automaticamente excomungados; dias atrás, o superior da SSPX, padre Davide Pagliarani, confirmou que a instituição repetirá a dose em 1.º de julho.
No comunicado, com data de 2 de fevereiro, a SSPX afirma que a decisão foi tomada “depois de [a Fraternidade] ter recebido da Santa Sé, nos últimos dias, uma carta que não responde de modo algum às nossas solicitações” – sabe-se que os lefebvristas haviam manifestado ao papa “explicitamente a necessidade específica da Fraternidade de assegurar a continuação do ministério dos seus bispos”, ou seja, havia solicitado ao papa que designasse novos bispos para a SSPX; se houve outras solicitações além dessa, não sabemos, como também não sabemos os motivos alegados pelo Vaticano para negar, ao menos por enquanto, as nomeações episcopais.
Mesmo assim, não seria muito difícil de adivinhar as razões do papa. Como conceder novos bispos a uma instituição que nem sequer tem status canônico regular dentro da Igreja? Que mina constantemente a autoridade da Igreja, deslegitimando uma liturgia promulgada de forma legítima pelo papa, com a autoridade das chaves, a ponto de afirmar que a missa nova não cumpre o preceito dominical e que os católicos não têm a obrigação de ir à missa se não houver missa tridentina por perto? O mínimo que se se esperaria, antes que o papa resolvesse dar novos bispos à SSPX, seria uma mudança fundamental na postura dos lefebvristas. Mas não: em uma entrevista ao site da própria SSPX, o padre Pagliarani chegou ao ponto de dizer que “em uma paróquia comum, os fiéis já não encontram os meios necessários para garantir sua salvação eterna”. Como assim? Dizer uma coisa dessas e ao mesmo tempo esperar um gesto tão magnânimo da parte do papa é ilusão pura (na melhor das hipóteses).
O mínimo que se se esperaria, antes que o papa resolvesse dar novos bispos à SSPX, seria uma mudança fundamental na postura dos lefebvristas. Mas isso jamais ocorreu
Sedevacantismo prático
Um padre da Fraternidade de São Pedro, grupo também tradicionalista, mas em comunhão plena com a Igreja (como o Instituto Cristo Rei e o Instituto Bom Pastor), publicou uma crítica certeira – que não achei no original, mas foi traduzida e publicada pelo padre José Eduardo – à decisão dos lefebvristas, apontando a contradição dos que dizem reconhecer o papa e rezar por ele, mas lhe negam a submissão quando um papa concreto toma uma decisão concreta que lhes desagrada: “para eles [a SSPX], a hierarquia eclesiástica termina na casa geral de Menzingen [onde fica a sede da SSPX]”, diz o padre Martin Ramm, da FSSP. Diz o padre Pagliarani na entrevista que procurou Leão XIV em “reconhecimento à autoridade do Santo Padre”. Mas, pelo jeito, esse “reconhecimento da autoridade” só dura até o primeiro “não”. Para os lefebvristas, é my way or the highway.
A lei suprema
Além da carta do padre Ramm, eu recomendo vivamente que os meus leitores confiram também o que diz Ed Condon, cofundador e editor do excelente site The Pillar e especialista em Direito Canônico, com passagem pela Santa Sé. Como Pagliarani argumenta que a lei da Igreja prevê situações em que o desrespeito aberto a uma decisão papal seria legítimo caso estivesse em jogo o bem das almas, Condon explica em detalhe o que o princípio salus animarum suprema lex (“a lei suprema é a salvação das almas”) significa, e por que ele nem de longe se aplica às ordenações que a SSPX pretende fazer, até porque levar gente ao cisma não é bem uma forma de beneficiar essas almas. “A instrução que ele [o princípio] dá é a de que no fim das contas nosso julgamento tem de dar lugar à autoridade da Igreja, porque é a Igreja que recebeu a promessa de Cristo, e a missão e o mandato de salvar almas. Salus animarum não é uma permissão para negar ou desafiar a Igreja por causa do que alguém pensa sobre o que é necessário para salvar almas”, diz Condon.
Um único argumento minimamente razoável – mas falso
Além de repetir todas as falácias que justificaram as ordenações de 1988, como o tal do “estado de necessidade”, a SSPX agora tem um argumento novo: os “sinodais” alemães também não desafiam abertamente a autoridade da Igreja? Os chineses não andaram nomeando e ordenando bispos por conta própria – inclusive durante o período de sé vacante! –, apesar do tal acordo secreto assinado com o Vaticano em 2018? E por que só a SSPX vai sofrer as consequências se sair da linha?
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De fato, desobediência e rebeldia não são exclusividade dos tradicionalistas radicais. A confusão doutrinal provocada pelas loucuras sinodais coloca as almas em perigo. E o acordo com a China se mostrou um desastre estratégico, pois agora os comunistas podem continuar a fazer o que sempre fizeram, mas alegando que agora têm a chancela do Vaticano, que reage publicamente de forma tímida quando a autoridade papal na nomeação de bispos é ignorada. Mas, ao mesmo tempo, a resposta a esse argumento é facílima: não existe um “direito à desobediência”, e o fato de o Vaticano não ser firme com os chineses ou os alemães não dá aos tradicionalistas nenhuma legitimidade para reclamar se forem punidos.
O que acontece agora?
Na semana que vem, o superior da SSPX se encontrará com o cardeal Victor Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé. Mas, a julgar por declarações públicas como a dessa entrevista do padre Pagliarani, duvido muito que haja algum tipo de recuo. A SSPX tem apenas dois bispos vivos, e os lefebvristas estão plenamente convencidos de que precisam de mais (ainda que Bernard Fellay e Alfonso de Galarreta sejam mais jovens que o papa Leão XIV, por exemplo).
Se as ordenações realmente ocorrerem, elas serão válidas (os ordenados de fato se tornam bispos), mas ilícitas, e estarão todos excomungados – tanto os bispos que ordenam quanto os que forem ordenados (o número e os nomes ainda não são conhecidos). Mesmo que o Vaticano não confirme a excomunhão como fez João Paulo II em 1988 com o motu proprio Ecclesia Dei, ela é automática (latae sententiae, no jargão eclesial), porque uma ordenação episcopal sem mandato pontifício é um ato cismático – especialmente quando o Vaticano faz as devidas advertências, e os responsáveis seguem em frente mesmo assim, manifestando seu desejo de desobedecer. Mas eu dou como certo que os lefebvristas dirão que a excomunhão é inválida (como fez o arcebispo Carlo Maria Viganò quando abraçou o sedevacantismo declarado), o que não deixará de ser uma nova demonstração do quanto eles “reconhecem a autoridade” do papa.
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Não se defende uma riqueza da Igreja minando sua autoridade
A missa tridentina é uma riqueza da Igreja, e as tentativas de suprimi-la são um absurdo; os promotores dessa perseguição haverão de prestar contas a Deus por isso. Assim como também terão de responder a Deus aqueles que avacalham a liturgia segundo o missal novo, e os que espalham confusão entre os fiéis defendendo aquilo que a doutrina católica não endossa ou até condena. Todos esses problemas, no entanto, não concedem um milímetro de legitimidade a rebeldes que desafiam abertamente a autoridade papal, trocando a barca de Pedro por uma canoa furada. De nada adianta preservar um tesouro litúrgico se for para fazê-lo desafiando aquele que recebeu de Cristo o poder das chaves.
Leão XIV está firmemente empenhado em recuperar a unidade dentro da Igreja, e sabe-se que ele não ignora a dor de fiéis tradicionalistas – não falo dos rebeldes, mas dos que simplesmente querem poder assistir à sua missa tridentina em paz. Mas o papa não é bobo; ele sabe que não há unidade possível com quem não está disposto a trabalhar por ela, ou com quem parte para a chantagem. Bento XVI, em 2007, levantou as excomunhões dos quatro bispos ordenados em 1988 (Lefebvre e Casto Mayer já haviam falecido); Francisco assinou Traditionis custodes, é verdade, mas também deu aos padres da SSPX a permissão para ouvir confissões licitamente e assistir a matrimônios de fiéis tradicionalistas. Em troca, o Vaticano ouve lefebvristas dizendo que o católico comum não tem acesso aos meios de salvação em sua paróquia. Todos teremos muito a lamentar caso as ordenações ocorram, mas é preciso deixar muito claro que a fissura será, única e exclusivamente, responsabilidade daqueles que escolheram a rebeldia.
O papa e o esporte

Entre as minhas paixões estão os Jogos Olímpicos. Se a televisão estiver transmitindo Ilhas Cook e Mongólia no arco e flecha, e eu puder parar para assistir, pararei. Já fui voluntário em duas ocasiões, nos jogos de inverno de Turim, em 2006, e no Rio, dez anos atrás. E até tive uma coluna sobre o assunto no Um Dois Esportes – uma vez, cheguei a escrever sobre a Athletica Vaticana, o “time do papa”.
Na sexta-feira passada começaram os Jogos Olímpicos de Inverno em Milão-Cortina d’Ampezzo (sem blasfêmia, desta vez), e por ocasião do evento o papa Leão XIV escreveu uma bela carta, A vida em abundância. Nela, mostra como o cristianismo se relacionou historicamente com a prática esportiva e destaca todos os efeitos positivos do esporte para indivíduos e comunidades, da construção da paz à busca pela excelência. Também alerta para o mau uso do esporte e para problemas como a corrupção e o doping. Vale muito a leitura.
Uma recordação olímpico-religiosa pessoal
Ainda não vi reportagens destacando a fé católica de atletas olímpicos em Milão-Cortina; mais cedo ou mais tarde elas aparecerão. Não sei como está sendo por lá, mas pelo menos até o Rio-2016 costumava haver um centro religioso dentro da Vila Olímpica. No Rio, se recordo bem, ministros das cinco religiões mais citadas em uma pesquisa com atletas estavam disponíveis o tempo todo; além disso, havia representantes de várias outras religiões que tinham credencial e podiam entrar na Vila caso algum atleta, técnico, dirigente etc. solicitasse.
“É interessante que a palavra ‘competição’ derive de duas raízes latinas: ‘cum’ – ‘juntos’ – e ‘petere’ – ‘pedir’. Numa competição, portanto, pode-se dizer que duas pessoas ou duas equipas buscam juntas a excelência. Não são inimigos mortais.”
Papa Leão XIV, na carta “A vida em abundância”.
No meu primeiro dia de trabalho na Vila Olímpica do Rio, depois do fim do meu turno, procurei o centro religioso para saber dos horários de missa; era um sábado à tarde, e conheci o padre Leandro, que tinha sido designado pela Arquidiocese do Rio; ele me disse que haveria missa em breve, e resolvi ficar para garantir o preceito, já que não sabia como seria o trabalho no domingo. Foi muito bacana ver aquele sacerdote usando o uniforme de voluntário (com exceção da camisa clerical). Havia apenas o padre, o acólito (também voluntário) e eu – os Jogos ainda não tinham começado e as delegações ainda estavam chegando –, a missa foi em português mesmo (acabei fazendo uma das leituras), e tivemos direito a homilia quase que personalizada: comentando a leitura do Eclesiastes sobre a vaidade, e o evangelho sobre o acúmulo de riquezas, o padre Leandro pediu que nos perguntássemos que motivo nos havia levado a ser voluntários olímpicos, e disse que estávamos lá para servir e trabalhar bem, e não para contar vantagem diante dos outros.
Lembro ainda que o centro religioso do Rio-2016 foi alvo do ativismo do Ministério Público, que reclamou de uma suposta ausência das religiões afro-brasileiras. Ignorância pura. Primeiro, porque o centro religioso não era uma exposição sobre a pluralidade religiosa do país-sede; era um serviço para as delegações, e as cinco religiões com representantes dentro da Vila em tempo integral eram as mais citadas pelos atletas. Segundo, porque havia, sim, ministros das religiões afro-brasileiras credenciados e que tinham acesso à Vila caso alguém pedisse. Não sei que fim levou o caso.
Não sei se depois do Rio mantiveram a prática de colocar um centro religioso à disposição dos atletas na Vila Olímpica. Espero que sim; a fé (não apenas a católica) é importante para muitos competidores, e eles têm manifestado isso com cada vez mais ênfase.












