Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Marcio Antonio Campos

Marcio Antonio Campos

Vaticano, CNBB e Igreja Católica em geral. Coluna atualizada às terças-feiras

Guerra

O destempero e a megalomania de Trump contra o papa Leão XIV

trump criticas leao xiv
A caminho da Argélia, Leão XIV conversa com jornalistas que o questionaram sobre críticas de Donald Trump. (Foto: Alberto Pizzoli/EFE/EPA)

Ouça este conteúdo

Nas imortais palavras de Tino Marcos, Donald Trump sentiu. Na noite de domingo, o presidente norte-americano surtou na sua rede social particular e chamou o papa Leão XIV de “fraco contra o crime”; insinuou que o cardeal Robert Prevost nem estava entre os cotados para o pontificado e só foi eleito no conclave do ano passado por ser norte-americano e porque Trump estava na Casa Branca; e afirmou que o pontífice considera aceitável que o Irã tenha armas nucleares, entre outras bobagens. Para completar, ainda publicou (parece que apagou depois) uma imagem blasfema, em que aparece vestido como Jesus, curando um doente, rodeado de figuras características do imaginário americano, bandeiras, águias, Estátua da Liberdade, caças etc.

Tudo isso é uma resposta aos apelos por paz que o papa vem fazendo há muito tempo. No Domingo de Ramos, por exemplo, Leão XIV exaltou o papel de Jesus como o Rei da Paz, “um Deus que rejeita a guerra; que ninguém pode usar para justificar a guerra; que não escuta mas rejeita a oração de quem faz a guerra, dizendo: ‘Podeis multiplicar as vossas preces, que Eu não as atendo. É que as vossas mãos estão cheias de sangue’ (Is 1, 15)”. Na mensagem Urbi et Orbi, no domingo de Páscoa, pediu: “Quem tem armas nas mãos, que as deponha! Quem tem o poder de desencadear guerras, que opte pela paz! Não uma paz conseguida com a força, mas com o diálogo! Não com a vontade de dominar o outro, mas de o encontrar!”, e lamentou que “estamos a habituar-nos à violência, resignamo-nos a ela e tornamo-nos indiferentes. Indiferentes à morte de milhares de pessoas. Indiferentes às repercussões de ódio e divisão que os conflitos semeiam”. Neste sábado, na vigília de oração pela paz, voltou a criticar o fato de que “o Santo Nome de Deus, o Deus da vida, é arrastado para os discursos de morte” e fez novo apelo à deposição das armas. A única manifestação mais direta em relação a Trump foi sua crítica, na terça-feira passada, à ameaça feita pelo norte-americano ao Irã, dizendo que “uma civilização inteira vai perecer”: na ocasião, o papa classificou a afirmação como “inaceitável” (porque era inaceitável mesmo).

Claro, alguns fatos ajudam a entender o que há de tão errado nisso. Prevost não era um azarão: aparecia, sim, em listas (não todas), até porque era prefeito de um dicastério importante, com o qual bispos do mundo inteiro entram em contato quando vão a Roma; eu mesmo o mencionei em algumas colunas antes do conclave. A crítica à postura do papa em relação à Venezuela é hipócrita, vinda de um presidente que reconheceu o governo ilegal da ditadora Delcy Rodríguez, validando a fraude eleitoral dos bolivarianos em 2024. E o papa jamais endossou as pretensões nucleares iranianas.

“Sou chamado a fazer o que a Igreja é chamada a fazer. Não somos políticos (...). ‘Bem-aventurados os promotores da paz’ é a mensagem que o mundo precisa ouvir hoje.”

Papa Leão XIV, a jornalistas que o acompanham na viagem à África.

Tampouco o papa está inventando uma doutrina nova sobre a guerra apenas para se contrapor a Trump. Na vigília pela paz, citou São João Paulo II, e na internet temos visto gente boa, sem um traço sequer de esquerdismo, como o tomista Edward Feser, recuperando o ensinamento de papas anteriores, como Bento XV (que reinou durante a Primeira Guerra Mundial) e Nicolau I, do século 9.º, para quem “a guerra é sempre satânica em sua origem”, embora reconhecendo o direito a se defender (que Leão XIV jamais negou, aliás).

O destempero de Trump foi tamanho que mesmo líderes católicos vistos como alinhados ao presidente saíram em defesa do papa. É o caso do bispo Robert Barron, que inclusive faz parte de um conselho governamental de defesa da liberdade religiosa. Barron escreveu que os comentários de Trump foram “totalmente inapropriados e desrespeitosos”, e que o presidente “deve desculpas ao papa”. “É prerrogativa do papa articular a doutrina católica e os princípios que governam a vida moral. Quando à aplicação correta desses princípios, pessoas de boa vontade podem e irão discordar entre si”, disse o bispo.

Muito sabiamente, Leão XIV resolveu não jogar petróleo na fogueira. Questionado por jornalistas no avião que o levou para a Argélia, a primeira parada de sua viagem pela África, o papa respondeu apenas o seguinte (não existe tradução oficial no site do Vaticano, faço a minha tradução do que tem sido publicado, e conferi com o vídeo que a Diane Montagna compartilhou):

[Em italiano] Não sou político, não tenho a intenção de debater com ele [Trump]. A mensagem sempre foi a mesma, a paz. Digo isso a todos os líderes do mundo, não só a ele: temos de tentar sempre acabar com as guerras e promover a paz e a reconciliação. [Em inglês] Não tenho medo nem da administração Trump, nem de proclamar em alta voz a mensagem do Evangelho – é nisso que eu acredito. Sou chamado a fazer o que a Igreja é chamada a fazer. Não somos políticos, não queremos fazer política externa como ele [Trump] diz, com a mesma perspectiva que ele possa compreender, mas eu acredito na mensagem do Evangelho. ‘Bem-aventurados os promotores da paz’ é a mensagem que o mundo precisa ouvir hoje.”

VEJA TAMBÉM:

Impedir o Irã de ter uma arma nuclear me parece um objetivo muito razoável, e mesmo a Agência Internacional de Energia Atômica admitiu que o Irã estava muito perto disso. Como explicou Gavin Ashenden em um ótimo texto, os aiatolás não são o tipo de gente que conseguiria uma bomba atômica para não usá-la com medo da Destruição Mútua Assegurada. Os americanos certamente têm mais informação sobre isso que o Vaticano. Mas isso não invalida nem um milímetro sequer o apelo do papa pela paz no Oriente Médio, e não justifica os termos usados por Trump, que se comporta como um floquinho de neve megalomaníaco (já que tudo, até o conclave, gira em torno dele) a quem a Igreja ou os católicos norte-americanos deveriam mais respeito que ao papa, ressuscitando com roupagem diversa a heresia do “americanismo”, que Leão XIII condenou na encíclica Testem benevolentiae.

Quanto aos católicos, nos EUA ou fora deles, que irão (ou já foram, não tenho tempo para perder caçando isso aí) à internet para tomar o lado de Trump contra o papa nessa, só posso dizer que esses responderam rapidinho à provocação que fiz na segunda parte da minha coluna da semana passada. Esses já escolheram o seu rei; na Sexta-Feira Santa do ano que vem, podem gritar com mais força que não têm outro rei senão César, porque vai ser com convicção.

Ameaça ao núncio pode até não ter ocorrido, mas Trump acaba de torná-la bastante verossímil

O incrível é que esse desvario todo surge bem quanto o governo americano e o Vaticano tinham conseguido desarmar outra bomba. Dias atrás, um site chamado The Free Press havia publicado um relato segundo o qual, em janeiro deste ano, autoridades americanas teriam chamado o então núncio apostólico nos EUA, cardeal Christophe Pierre, para passar-lhe um sabão. Um subsecretário teria dito ao núncio que os EUA “têm poder para fazer o que quiserem, e é melhor a Igreja ficar do nosso lado”. No mesmo relato, um outro “sub do sub” teria até mesmo mencionado o período de Avignon, no século 14, quando a coroa francesa manteve os papas em seu território, após agentes do rei Filipe IV terem capturado e agredido o papa Bonifácio VIII.

Se o chefe pensa (e agora diz) certas coisas sobre o papa, por que os subordinados não fariam um esforçozinho para mostrar serviço, ameaçando um núncio?

Choveram desmentidos tanto de Washington quanto de Roma. Mas, então, alguém mentiu, ou pelo menos inventou, certo? É lógica básica, princípio da não contradição. Ou essas coisas foram ditas, e estão botando panos quentes, ou foi tudo invenção, seja das “fontes vaticanas”, seja dos jornalistas do The Free Press. Sem a pretensão de saber a verdade sobre o que aconteceu, o colunista e editor Charles Collins, do Crux, faz algumas ponderações interessantes, a começar pelo fato de ninguém ter afirmado que a tal “fonte vaticana” estava presente à tal reunião (que de fato ocorreu, mesmo segundo os desmentidos). E, com tanta gente trabalhando no Vaticano ou associada a ele, o conceito de “fonte vaticana” (o que o próprio Collins foi por um tempo) pode ser bastante alargado para dar colorido a um relato jornalístico.

Quando essa história apareceu em uma lista de que faço parte, já com os desmentidos iniciais, minha reação foi “pode não ser verdade, mas que é verossímil, isso é”. Afinal, se o chefe pensa (e agora diz) certas coisas sobre o papa, se Trump pisa sem dó em antigos aliados quando eles discordam do presidente em questões pontuais, por que os subordinados não fariam um esforçozinho para mostrar serviço, para que o chefe veja o quão alinhados eles estão, para não se tornarem o próximo alvo das publicações de Trump nas mídias sociais?

Verdade ou não, bem, existe uma longa fila de potências seculares que quiseram e tentaram destruir ou domesticar a Igreja: imperadores romanos, chefes bárbaros, Napoleão, os positivistas, os nazistas, os comunistas... todos eles previram o fim da Igreja, a menosprezaram, a insultaram, e estamos aí. Se Trump quiser, pode entrar na fila, mas não ache que com ele a coisa vai ser diferente.

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.