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O Grande Irmão vigia uma rua deserta
| Foto: Divulgação | Imagem: Maryane Vioto Silva

Alguns meses atrás, me tornei síndica do local onde moro. Logo na primeira reunião, compartilhei com meus vizinhos uma inquietação: não tínhamos câmeras de segurança. Se todos os imóveis têm, não deveríamos ter também? Não são as câmeras uma ajuda importante em casos de crimes ou acidentes que precisam ser explicados?

A minha percepção de que “todos” os imóveis hoje têm câmeras nasceu do acompanhamento do noticiário e das mídias sociais. Quando ocorre um crime ou acidente, sempre aparecem imagens cedidas por alguma residência ou comércio. E tem aquelas cenas engraçadas que abundam nas mídias sociais de cães fazendo travessuras, criancinhas sendo fofinhas, adultos escorregando ou fazendo bobagens. Cenas estas capturadas por uma câmera fixa instalada como aparato de segurança e que acaba registrando a vida cotidiana com todo seu tédio e sua beleza.

O próprio tédio de uma rua de pouco movimento tem seu fascínio. Agora que os vizinhos concordaram com minha proposta e colocamos o aparelho junto ao portão de entrada, às vezes me pego assistindo as imagens como quem vê um filme. Este filme tem roteiro fraco, atores inexpressivos e um cenário convencional. Mesmo assim, posso ficar alguns minutos olhando a rua, como faziam meus antepassados debruçados na janela. Quando aparece um pedestre, eu o acompanho do momento em que surge no quadradinho até o momento em que desaparece. O único drama na cena é a luta do ser que caminha contra as péssimas calçadas ou a ausência delas. Se a câmera do meu condomínio pode gerar alguma prova é para uma campanha a favor de calçadas decentes em Curitiba.

Há uma diferença entre vigiar e olhar. Mas é diferença tênue. E quem vigia tem tendência a querer punir, seja chamando a polícia ou fazendo comentários maldosos. Estamos vivendo tempos de hiper vigilância por causa das câmeras nas ruas e imóveis e dos celulares. Consequentemente, também vivemos tempos de hipercriticismo. Me impressiona que muitas vezes sejam os próprios protagonistas das imagens a compartilhá-las para depois se arrepender amargamente. É o caso dos “nudes”, das “dancinhas” supostamente engraçadas (das coisas mais estúpidas, na minha opinião), das declarações de amor espalhafatosas. Situações que jamais deveriam sair dos limites de quatro paredes são tornadas públicas como exaltação de egos inflados e carentes. O que acontece na sequência escapa do controle do autor dos filminhos e de seus protagonistas, geralmente de forma desastrosa.

Minha experiência de ter acesso a uma câmera me fez provar a tentação da vigilância. Por enquanto, vigio as variações de luminosidade, vigio o vento que movimenta o ipê na calçada e a chuva ocasional. Ainda não sou o Grande Irmão, mas colaborei para expandir os seus domínios.

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