
Crianças, jovens e adultos de todas as idades são instados a expressar sua opinião sobre fatos ou escolhas, independente da hora, lugar e contingência – e não é incumbência exclusiva das aulas de língua portuguesa a orientação de uma postura racional, que reúna condições de clareza expositiva diante do esboço opinativo dos que estão em idade escolar. Todos os colegas professores, a família, os amigos e os colegas de escola ou do trabalho têm obrigações de pequeno, médio e grande porte na formação da opinião que temos sobre os assuntos gerais. O processo toma ares atuais de um concerto de vozes, palavras, traços, cores e entalhes influenciadores diversos, mas o veredicto final sobre isto ou aquilo está em cada um de nós, sempre e felizmente.

Brune e Miquéias, ex-vestibulandos, hoje universitários de Direito e Física, em aula de Redação
É preciso, meu caro leitor, muito mais do que um olhar atento para desvendar a capa de obscuridade das palavras, imagens, sons, traços , dados numéricos e omissões (in)voluntárias. É necessário atenção rigorosa, obtida apenas com uma análise bem concatenada de todos os elementos constitutivos das informações. Tudo a nossa volta parece dizer: olhe, veja, examine e escolha.
Você já atentou às marcas textuais que identificam um texto de opinião? Não? Pois não perca mais tempo. Examine especialmente o uso dos tempos verbais e a presença dos pronomes, adjetivos e advérbios, indícios da individualidade opinativa na oralidade ou na escrita – e os colegas professores de língua portuguesa poderão ajudar bastante neste quesito teórico.
Costumo listar com meus alunos uma série de verbos, que traduzem as ações pertinentes ao tema que pretendo fixar nas suas cabeças; vale o esforço, porque eles aprendem que opinar é argumentar, expor, influenciar, persuadir e convencer o interlocutor de algo que a nós parece ser lógico, imprescindível, embora nem sempre assentado na verdade dos fatos ou dos propósitos. Opinar é um direito, mas o ajuizamento e a escolha equilibrada são deveres à verdade dos fatos.
Está a fim de exercitar a busca por exemplos opinativos?
> Comecemos pela tirinha do Benett, que hoje alude à Teoria de Darwin.

Veja que o cartunista coloca na fala de um dos macacos a expressão “viemos” para reforçar a idéia de opinião, assim como a figura do seu personagem de boné declarar “… que a gente possa fazer sobre isso…”.
> Examine comigo o excerto da carta, enviada pelo leitor Oscar Mongelos e editada na Coluna do Leitor (GP, 12 de fev.). Veja as marcas de opinião, assinaladas pela pessoa gramatical do verbo e pronomes indicativos à 1ª pessoa do singular , assim como a presença da adjetivação( os destaques em itálico são meus).
“Sou do tempo em que usávamos uniforme e me sentia muito importante e seguro. Meu filho foi abordado pela Patrulha Escolar e se identificou com seu documento, mas se estivesse com o uniforme do colégio o policial apenas o cumprimentaria. Eu morei em uma favela, usava uniforme e nunca fui abordado pela polícia.”
Quando se mantém uma tese (uma opinião geral) sobre um assunto partimos para a exposição de argumentos, também conhecidos como motivos, razões. Os jovens estudantes e até mesmo os profissionais na ativa não percebem o valor das conjunções, os velhos e eficientes conectivos, que estabelecem costuras espetaculares às ideias que construímos. Pois bem, conjunções, exemplificações, enumerações de motivos, comparações, retrospectivas, dados numéricos, citações, entre outras estratégias de apoio fazem a ponte segura à exposição eficiente da argumentação.
Colunas de opinião, cartas dos leitores, depoimentos e crônicas, presentes nos jornais e revistas, têm o objetivo de expressar o que pensam os seus autores, mas as reportagens, de quaisquer níveis ao contrário, pois se o fizerem subtrairão de nós o direito de refletir, o que cabe inteiramente ao interlocutor de qualquer texto, seja ele didático, cultural, político, investigativo ou científico. Eu gosto muito de ler colunas de opinião e comentários em páginas eletrônicas, pois trazem inúmeros exemplos quanto à estrutura e eficiência dos operadores argumentativos.
Sugestões:
1-Selecione um texto do jornal da sua preferência; identifique as marcas de opinião nele presentes. Que tal pegar, por exemplo, aqui mesmo na Gazeta o Dom de iludir e confundir, da Dora Kamer ou ainda o Dez coisas que eu sei, do Luis Fernando Veríssimo?
2- Confira a total ausência de opinião do autor na reportagem Usuário sofre para obter passe escolar, de Vinícius Boreki . A imparcialidade e a farta exposição de elementos informativos deixam o leitor à vontade para fazer ajuizamentos e, por fim, opinar sobre o tema.
3- Examine, ao menos, duas manchetes de reportagens; veja se mostram imparcialidade na construção ou se levam o leitor tendenciosamente à determinada escolha de ponto de vista, ou seja, a construir uma opinião, centrada em ajuizamentos.
Um aviso ao leitor contumaz: a formação da opinião, falácias e recursos da argumentação renderão muitas postagens nesta página; voltarei ao tema oportunamente.
Até a próxima!



