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Os últimos cinco anos colocaram as cadeias globais de suprimentos sob uma pressão sem precedentes. Guerras comerciais, desastres naturais e a pandemia da Covid-19 expuseram vulnerabilidades estruturais em praticamente todos os setores da economia e, de forma ainda mais intensa, no segmento de data centers. A antiga lógica do “just in time” deu lugar definitivamente ao “just in case”, obrigando empresas a repensarem suas estratégias de abastecimento, produção e distribuição.
Nesse novo cenário, as organizações mais preparadas compreenderam que os desafios também representam uma oportunidade concreta: transformar a cadeia de suprimentos em um verdadeiro diferencial competitivo. Mais do que garantir continuidade operacional, uma estrutura sólida de fornecimento passou a ser determinante para crescimento sustentável, inovação e competitividade em mercados cada vez mais exigentes.
Segundo Luis Cuevas, diretor de Secure Power e Negócios de Data Centers da Schneider Electric no Brasil, a transformação das cadeias de suprimentos deixou de ser uma discussão operacional e passou a ocupar o centro da estratégia empresarial no setor.
“Hoje, a competitividade dos data centers está diretamente ligada à capacidade de estruturar cadeias de suprimentos resilientes, capazes de responder rapidamente a disrupções globais sem comprometer a eficiência e a continuidade das operações.”
Luis Cuevas, diretor de Secure Power e Negócios de Data Centers

Cadeia de suprimentos como pilar da estratégia de negócios
O gerenciamento da cadeia de suprimentos deixou de ser uma função meramente operacional ou logística. Hoje, trata-se de um componente central da estratégia corporativa, com impacto direto na rentabilidade, na experiência do cliente e na capacidade de adaptação às mudanças do mercado.
Um estudo da Accenture revela que empresas com cadeias de suprimentos avançadas apresentam, em média, 23% mais rentabilidade do que seus concorrentes. Durante décadas, essas estruturas foram desenhadas de forma isolada da estratégia de negócios. Atualmente, líderes de mercado integram o planejamento da cadeia aos objetivos de longo prazo da organização, priorizando agilidade, previsibilidade e crescimento sustentável fatores críticos para operações de data centers.
Regionalização ganha força e redefine o mercado global
Nos últimos anos, observou-se um movimento consistente de regionalização das cadeias de suprimentos. De acordo com a McKinsey, 60% das empresas globais já avançaram para cadeias mais localizadas, buscando maior resiliência, redução de riscos e respostas mais rápidas às oscilações de demanda e às exigências regulatórias.
Governos ao redor do mundo também estão acelerando esse processo. O European Chips Act pretende dobrar a participação da Europa no mercado global de semicondutores até 2030. O programa Make in India busca consolidar a Índia como potência manufatureira global. Já nos Estados Unidos, legislações como o Buy American Act e o Trade Agreements Act reforçam a prioridade por produtos de origem nacional e o cumprimento rigoroso de acordos comerciais.
Para empresas do setor de data centers, compreender como essas políticas impactam o fornecimento de componentes críticos, infraestrutura elétrica e tecnologia é o primeiro passo para desenvolver uma estratégia de suprimentos verdadeiramente robusta.
Modelo híbrido: equilíbrio entre regionalização e integração global
Na Schneider Electric, a cadeia de suprimentos é estruturada em quatro grandes hubs globais: Europa, China, Estados Unidos e Índia. Cada um desses polos é responsável por desenvolvimento de produtos, pesquisa e inovação, gestão de fornecedores e cadeia de fornecimento, atuando de forma integrada com as equipes regionais de vendas e marketing.
Esse modelo garante flexibilidade e velocidade para atender às particularidades de cada mercado, sem abrir mão da padronização e da sinergia global. Ao mesmo tempo, manter uma visão integrada e padrões unificados é essencial para assegurar resiliência e continuidade operacional diante de crises locais. Encontrar esse equilíbrio é o que define a solidez das operações de data centers em escala global.
Da resiliência à antifragilidade nas cadeias de suprimentos
Apesar dos avanços, um alerta recente da McKinsey indica que algumas empresas vêm reduzindo esforços para fortalecer a resiliência da cadeia de suprimentos, possivelmente por acreditarem que o pior já passou. As companhias líderes, no entanto, estão indo além e investindo em cadeias “antifrágeis” sistemas capazes não apenas de resistir a choques, mas de se fortalecer a partir deles.
Essa evolução está diretamente ligada ao uso estratégico da tecnologia. Soluções digitais como Internet das Coisas (IoT), inteligência artificial (IA), aprendizado de máquina e blockchain proporcionam visibilidade total da cadeia e tomada de decisão em tempo real. Painéis integrados e processos automatizados eliminam silos, reduzem erros e aumentam a eficiência operacional.
Pessoas, tecnologia e cultura organizacional
A transformação digital, por si só, não é suficiente. À medida que as cadeias de suprimentos se tornam mais complexas e orientadas por dados, cresce a demanda por profissionais com novas competências. CIOs, CSCOs e equipes de Recursos Humanos precisam atuar de forma integrada para promover uma cultura de aprendizado contínuo, inovação e colaboração.
Capacitar equipes, atrair talentos digitais e desenvolver uma mentalidade aberta à transformação são fatores decisivos para extrair valor real da tecnologia. Em cadeias modernas, tecnologia só gera resultados quando há pessoas preparadas para utilizá-la de forma estratégica.
Parcerias estratégicas e transparência como fator crítico
Outro aspecto fundamental é o fortalecimento das parcerias estratégicas. A continuidade operacional depende não apenas dos fornecedores diretos, mas também dos elos menos visíveis da cadeia. Escolher parceiros comprometidos com resiliência, transparência e visão de longo prazo é essencial para garantir estabilidade ao ecossistema como um todo.
Grandes rupturas, em geral, têm origem em pontos menos monitorados da cadeia. Por isso, colaboração e compartilhamento de informações em todos os níveis tornaram-se indispensáveis para o sucesso de operações críticas como as de data centers.
O futuro dos data centers passa pela cadeia de suprimentos
As disrupções continuarão fazendo parte do cenário global. O diferencial das empresas bem-sucedidas será a capacidade de antecipar mudanças, reagir com rapidez e aprender com cada crise. Investir em antifragilidade, inovação digital e capacitação humana deixou de ser uma opção tornou-se uma necessidade estratégica.
As decisões tomadas hoje na gestão da cadeia de suprimentos definirão não apenas a competitividade dos data centers, mas também a sustentabilidade e o crescimento dos negócios nas próximas décadas.




