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Um dos fundadores da Build.com, mãe dos home centers, Dan Davis é o novo diretor de dados da MadeiraMadeira.| Foto: divulgação.

O novo diretor de dados da MadeiraMadeira - startup curitibana especializada na venda online de produtos para casa - tem, no mínimo, uma história peculiar. Norte-americano, Dan Davis ajudou a fundar, há 16 anos, a Build.com, mãe de todos os home centers. Antes mesmo  de gigantes como a Amazon se firmarem no mercado de vendas online, Davis já estava lá, enfrentando a “loucura”, como ele mesmo define, de vender banheiras pela internet.

Quase duas décadas depois, o frenesi se tornou uma pilha de dólares. Gerenciando uma empresa que fatura mais de US$ 2 bilhões ao ano, Davis não tinha motivo algum para abandonar a Califórnia - estado natal do Vale do Silício - para investir em uma startup brasileira, que estava oferecendo praticamente o mesmo serviço que passou anos aprimorando.

Mas a verdade é que a missão da mais recente "aquisição" da MadeiraMadeira vai além de apenas engrossar o faturamento. O novo diretor pretende, ambiciosamente, transformar a equipe de tecnologia da informação (TI) da empresa brasileira na melhor disponível no país. Para isso, a aposta do executivo é simples: encontrar bons aprendizes.

“Não estou buscando ninguém técnico. Nesta área, o que você sabia há seis meses atrás já está ultrapassado”, carimba Davis. 

Ocupando uma das cadeiras mais importantes da MadeiraMadeira há pouco mais de um mês, ele garante que a única coisa que sabe falar em português é o número de seu CPF. Ainda sim, não vê obstáculos que possam impedi-lo de cumprir sua tarefa e transformar a empresa paranaense num expoente na área.

O Paraná S/A conversou com exclusividade com o executivo, que precisou de oito anos atuando como mentor da MadeiraMadeira, à distância, para se convencer a compor oficialmente o time, na capital paranaense. Confira.

Por que deixar o Vale do Silício para trás e investir no Brasil?

Eu fui um dos fundadores da Build.com em uma época em que ninguém estava vendendo banheiras ou batentes online. Eram coisas muito difíceis de oferecer na internet, com o agravante de lidar com os estragos do transporte de itens pesados.Todos nos diziam que éramos malucos, mas isso é exatamente o que me motiva. Então, essa experiência nos orientou para criarmos empresas cujo foco está no cliente - em como oferecer variedade e preços bons. Passei 16 anos construindo essa carreira sólida e eu não precisava sair. Foi uma decisão difícil, sem dúvidas. Mas o que me ajudou foi enxergar no Brasil o mesmo desafio que me motivou em 2002. Os hábitos do público estão mudando aqui e há uma demanda clara por esses modelos [de produtos acessíveis]. Eu vejo a oportunidade de ajudar a criar uma grande companhia no Brasil, que inspire os consumidores a transformarem seus lares.

Mas você vai aplicar a mesma estratégia usada nos Estados Unidos?

As condições de aplicação nunca são as mesmas, mas há muito em comum entre as duas empresas.  O que é aplicável a ambos é o foco na experiência do consumidor. Comprar produtos online e imaginá-los dentro das casas é um desafio e tanto. Essas coisas nós podemos resolver usando tecnologia.  Uma das cosias que fizemos nos EUA foi a realidade virtual. Os consumidores querem ver como determinado produto vai ficar, em um espaço 3D. Eu acredito que vamos passar por um processo bem semelhante aqui no Brasil. E ao mesmo tempo nós temos desafios totalmente diferentes, como por exemplo,  a questão do transporte. Nos Estados Unidos nós temos múltiplas opções de envio, como FEDEX, e outras empresas. E aqui nós temos que pensar em dar motivos para alguém topar mover objetos tão pesados e delicados de São Paulo, para regiões mais remotas. São desafios em níveis diferentes, mas ainda assim continuam sendo obstáculos dependentes de tecnologia.

Missão de Davis treinar os profissionais de tecnologia da Madeira Madeira. Foto: divulgação.
Missão de Davis treinar os profissionais de tecnologia da Madeira Madeira. Foto: divulgação.

Construir times de TI é um desafio no Brasil. Qual é seu plano para não só atrair, mas também qualificar mão de obra?

É um desafio aqui, mas também nos Estados Unidos, principalmente talentos voltados para o desenvolvimento de produtos e dados. O que precisamos fazer é atuar na cultura, criar um ambiente onde as pessoas se sintam desafiadas e motivadas a acordar cedo para irem trabalhar. E isso tem a ver com os benefícios, mas também com como você organiza e empodera esses times.  Como dar autonomia para equipes pequenas?  

Existe uma máxima que os times nunca podem ser maiores do que duas pizzas alimentariam e eu acredito muito nisso. Nosso trabalho é justamente formar esses núcleos reduzidos, com metas claras, e estimular o cumprimento de objetivos comuns. Existem outros pontos, como manter processos entendíveis por todos, e aqui na Madeira, isso é bem claro. Nós queremos deixar a casa das pessoas melhor do que elas sequer poderiam imaginar. E nós vamos fazer isso através de ferramentas, acessibilidade e preços que não estariam no mercado comum.

O que você procura em um profissional?

Certamente não estou buscando habilidades técnicas.  Por que em tecnologia, o que você sabia até seis meses atrás já está desatualizado. Então o que eu tendo a procurar é alguém colaborativo. É uma pessoa adaptável? Aprende rápido? Tem paixão? Isso são coisas que não tem como treinar. E essa é a minha estratégia, trazer pessoas com valores alinhados, porque eu estou confiante que eu posso treinar a parte técnica. Nós podemos ensiná-los e encorajá-los nesse quesito.

A Madeira, tradicionalmente, cria softwares para resolver questões internas. Não seria mais fácil procurar parceiros que pudessem desenvolver isso?

A BulkyLog - solução em transporte pesado - é um exemplo disso. Criada aqui, dentro da Madeira, mas tem outro foco. Não há no Brasil uma empresa que apresente soluções para transporte de objetos pesados em larga escala. Por que se tivesse, nós já estaríamos usando. A forma como enxergamos a BulkyLog é em parte como uma solução de software, mas também a outra metade é sobre operações logísticas, disciplina e como gerenciamos pessoas.

Agora, quando falamos desenvolvimento de tecnologia em geral, eu vejo da seguinte forma: se existe algo similar no mercado, então devemos comprar essa solução. A realidade é que a maior parte das companhias pode entender o conceito do que precisamos, mas não entendem a raiz dos problemas internos. Então, para nós, o desenvolvimento de tecnologia própria é uma área estratégica para a empresa. Vez ou outra encontramos algum parceiro que se encaixa no nosso negócio. Mas na maior parte do tempo decidimos construir algo por nós mesmos porque isso nos diferencia dos demais.

Você pode comparar o ambiente de negócios na Califórnia e no Paraná?

A competitividade por talentos definitivamente é uma coisa em comum.  No Vale do Silício há uma grande quantidade de dinheiro circulando, investimentos, bons benefícios e, como a Build.com estava estabelecida um pouco distante de São Francisco, cerca de 3 horas de viagem, também tivemos que desenvolver um sistema atrativo e de retenção de talentos.  O que eu diria que é uma diferença é a profundidade de conhecimento nos cargos. Eu diria que um cargo sênior aqui, não tem o mesmo aprofundamento técnico do que nos Estados Unidos. Mas isso para mim é um item motivador porque sei que posso contribuir com o meu conhecimento, treinando pessoas internamente, atraindo pessoas para que elas sejam os melhores engenheiros de softwares disponíveis no Brasil. E eu sei que podemos fazer isso com os nossos times, levá-los ao mesmo patamar do que vemos na Califórnia.

E para os próximos cinco anos, o que você sonha para a Madeira?

Eu espero ver a Madeira entrando de cabeça na experiência do consumidor. Que o detalhamento que ele procura quando quer comprar um sofá, seja muito mais aprofundado do que hoje conseguimos encontrar em uma típica experiência de e-commerce. Oferecer algo realmente imersivo. E nossa função é entender como podemos oferecer isso aos clientes. Eu diria que esta é uma meta que podemos realizar em cinco anos ou dois dias.

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