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A qualidade da liderança influencia a decisão de procurar outro emprego para 90% dos profissionais brasileiros, mas apenas 4% das empresas colocam esse fator no centro de sua principal estratégia de retenção de talentos. O contraste, identificado no Guia Salarial 2027 da Michael Page, revela um dos desafios enfrentados pelas organizações para manter profissionais qualificados em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo.
Os números foram destacados por Ricardo Basaglia, CEO da Michael Page Brasil, em entrevista exclusiva à Gazeta do Povo nesta quarta-feira (28), durante o 19º Congresso Paranaense de Recursos Humanos (CONPARH 2026), realizado em Curitiba.
O levantamento ouviu 5.762 profissionais e 1.955 empresas brasileiras. Entre os trabalhadores, 62% afirmaram que a relação com o gestor pesa muito na decisão de buscar uma nova oportunidade. O percentual chega a 90% quando considerados também aqueles que atribuem influência moderada à liderança.
Do lado das empresas, entretanto, o desenvolvimento das lideranças ainda ocupa espaço reduzido nas estratégias de retenção. Para Basaglia, essa diferença mostra que as organizações nem sempre direcionam seus esforços para um dos fatores que mais influenciam a permanência das pessoas.
O executivo avalia que a competição por profissionais deixou de acontecer apenas entre empresas do mesmo segmento. Um trabalhador do varejo, por exemplo, pode receber oportunidades na construção civil, no setor de serviços ou optar por uma atividade autônoma. Com mais alternativas disponíveis, as companhias precisam repensar o que oferecem para atrair e manter seus funcionários.
Esse cenário é ainda mais desafiador quando envolve profissionais altamente qualificados, que conseguem avaliar não apenas a remuneração, mas também as características do ambiente de trabalho, as perspectivas de crescimento e a qualidade da gestão.
Por que liderar pessoas ficou mais difícil
À frente de uma das principais empresas de recrutamento executivo do país, Basaglia considera que exercer a liderança se tornou significativamente mais complexo do que há 15 ou 20 anos. Questões como saúde mental, expectativas individuais, desenvolvimento profissional e relações entre diferentes perfis de trabalhadores passaram a exigir maior preparo dos gestores.
Na avaliação do executivo, o desafio não está necessariamente na falta de conhecimento sobre boas práticas de gestão. Conceitos como feedback, desenvolvimento de equipes, proximidade com os funcionários e planejamento sucessório são conhecidos, mas nem sempre se transformam em atitudes consistentes dentro das organizações.
A dificuldade aparece quando o gestor precisa conciliar a cobrança por resultados com a responsabilidade de desenvolver pessoas, lidar com conflitos e criar condições para que a equipe evolua.
Durante a palestra “Lugar de Potência: O Jogo Real da Liderança”, apresentada no CONPARH, Basaglia aprofundou essa reflexão ao defender que o autoconhecimento precisa produzir mudanças concretas de comportamento. Reconhecer dificuldades pessoais, segundo ele, deve ser o ponto de partida para evoluir, e não uma justificativa para continuar repetindo erros.
O executivo também alertou para o risco da arrogância profissional. A resistência a ouvir outras perspectivas e reconhecer que ainda há o que aprender pode limitar o desenvolvimento de líderes e equipes. Para Basaglia, a evolução profissional exige disposição para rever hábitos, questionar modelos mentais e aprender continuamente.
Esse desafio ganha relevância diante dos dados do Guia Salarial 2027. A falta de perspectivas de crescimento profissional aparece como motivo para deixar o emprego entre 69% dos participantes, seguida pela liderança desmotivadora, mencionada por 60%. A remuneração vem depois desses dois fatores.
O levantamento indica que, embora o salário seja importante para atrair candidatos, as condições de desenvolvimento e a experiência cotidiana com a liderança têm papel relevante na decisão de permanecer na empresa.
Inteligência artificial aumenta a importância das competências humanas
Outro tema abordado por Basaglia foi o avanço da inteligência artificial e seus efeitos sobre o mercado de trabalho. Para ele, a automação de atividades e o acesso cada vez maior a informações não eliminam a necessidade de profissionais capazes de interpretar cenários, avaliar alternativas e assumir responsabilidades.
Mesmo quando sistemas tecnológicos ajudam a organizar dados e oferecem recomendações, continuam sendo necessárias pessoas para exercer julgamento e tomar decisões.
Na gestão de equipes, essa dimensão humana aparece em competências como resolução de conflitos, construção de relações de confiança e desenvolvimento de profissionais.
Basaglia defende que essas habilidades não devem ficar restritas a quem ocupa formalmente uma posição de chefia. A capacidade de colaborar, lidar com diferenças e tomar decisões responsáveis tende a ser importante em diferentes funções, à medida que a tecnologia transforma a execução do trabalho.
Na apresentação ao público do CONPARH, o executivo também observou que o avanço tecnológico não foi acompanhado pelo mesmo ritmo de evolução nas relações humanas. Para ele, mais do que acompanhar ferramentas e inovações, os profissionais precisam aprimorar habilidades comportamentais e a capacidade de trabalhar com outras pessoas.
Curitiba pode explorar qualidade de vida para atrair talentos
Ao analisar especificamente o mercado paranaense, Basaglia apontou uma oportunidade para as empresas de Curitiba e região: utilizar a qualidade de vida como diferencial para atrair profissionais de outras localidades.
Segundo o executivo, a disputa por talentos na região frequentemente se concentra na contratação de pessoas que já trabalham em outras organizações. Essa dinâmica amplia a concorrência entre empregadores locais, sem necessariamente expandir o universo de profissionais disponíveis.
Uma alternativa seria fortalecer estratégias de atração de trabalhadores de outros estados, associando oportunidades de carreira às características da região.
A avaliação também reforça a importância de iniciativas de desenvolvimento de lideranças e de colaboração entre empresas, capazes de fortalecer o ambiente empresarial e ampliar as oportunidades de crescimento profissional.
Antes de investigar por que os funcionários saem, entenda por que os outros ficam
Na conclusão da entrevista, Basaglia apresentou uma recomendação aos empresários e gestores de recursos humanos: dedicar tanta atenção aos profissionais que permanecem na organização quanto àqueles que decidem sair.
Em vez de concentrar toda a análise nas razões dos pedidos de demissão, as empresas deveriam investigar quais fatores fazem seus melhores profissionais continuar trabalhando ali.
Para o executivo, entender o que funciona na relação entre a organização e seus funcionários permite identificar práticas que merecem ser preservadas e fortalecidas.
A preocupação é que, na tentativa de corrigir problemas apontados por quem está deixando a companhia, a gestão acabe promovendo mudanças que prejudiquem justamente os profissionais que escolheram permanecer.
O conselho sintetiza uma das principais mensagens de Basaglia: reter talentos não depende apenas de reagir às insatisfações, mas de compreender e valorizar as relações que já dão certo dentro da empresa.
Liderança em debate no CONPARH 2026
Ricardo Basaglia participou do CONPARH 2026 com a apresentação “Lugar de Potência: O Jogo Real da Liderança”, voltada à discussão sobre o papel dos gestores na construção de equipes, no desenvolvimento de profissionais e na entrega de resultados.
Durante a palestra, o executivo também destacou que a cultura organizacional é definida não apenas pelos valores declarados pelas empresas, mas pelos comportamentos que suas lideranças aceitam no cotidiano. Contratações, feedbacks, promoções e desligamentos estão entre os momentos que revelam, na prática, a coerência entre o discurso institucional e as decisões da organização.
Basaglia chamou atenção ainda para a importância de enfrentar conversas difíceis, especialmente aquelas relacionadas a desempenho, conflitos e expectativas profissionais. Na avaliação do executivo, adiar esses diálogos pode comprometer tanto o desenvolvimento individual quanto os resultados das equipes.
“O tamanho da sua carreira é limitado pelas conversas que você evita”, afirmou durante a apresentação.
Promovido pela Associação Brasileira de Recursos Humanos do Paraná (ABRH-PR), o congresso acontece nos dias 28 e 29 de outubro, em Curitiba, com o tema “O insubstituível: humanidade e liderança em tempos de incerteza”.
A entrevista exclusiva foi realizada no espaço de imprensa da Gazeta do Povo, instalado no evento para acompanhar os debates sobre trabalho, gestão de pessoas, tecnologia e negócios.

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