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O pedido de recuperação judicial do Grupo Casas Bahia, apenas dois anos depois da homologação de um plano de recuperação extrajudicial, coloca novamente em evidência os desafios enfrentados por modelos tradicionais do varejo brasileiro. Mais do que uma questão de endividamento, o episódio levanta uma discussão sobre eficiência operacional, crédito e a capacidade das grandes redes de adaptar suas lojas físicas a um consumidor cada vez mais conectado ao ambiente digital.
O Grupo Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial em agosto, com R$ 17,3 bilhões em dívidas declaradas no processo. A medida sucede a recuperação extrajudicial iniciada em 2024, quando a companhia buscou reestruturar pouco mais de R$ 4 bilhões de seu passivo financeiro.
A situação ganhou outra dimensão após o presidente-executivo da companhia, Renato Franklin, afirmar à Reuters que a empresa trabalha com um cenário para 2027 mais difícil do que o de 2026. A expectativa de condições de crédito mais restritivas para o consumidor está entre os fatores considerados pela varejista.
O plano de reestruturação também prevê o fechamento de 298 lojas, um movimento que ajuda a colocar no centro do debate uma questão que ultrapassa o caso da companhia: qual é o papel do ponto de venda físico em um varejo no qual preço, conveniência e canais digitais disputam cada vez mais a atenção do consumidor?
Reestruturar a dívida pode não ser suficiente
Para o advogado especialista em recuperação judicial e professor do Insper Claudio Montoro, o intervalo entre os dois processos da Casas Bahia chama atenção para a necessidade de uma reestruturação empresarial ir além da renegociação dos compromissos financeiros.
“A conjuntura econômica continua pouco favorável à atividade empresarial, impondo desafios recorrentes e introduzindo fatores de incerteza que dificultam a previsibilidade financeira e o planejamento de longo prazo das companhias. No caso da Casas Bahia, a situação é particularmente emblemática”, afirma.
Segundo Montoro, as dificuldades atuais indicam que os problemas enfrentados pela companhia não ficaram restritos ao perfil de sua dívida.
“Apenas dois anos após a homologação de seu plano de recuperação extrajudicial, decorrente do pedido formulado em abril de 2024, quando a companhia apresentava um índice de liquidez corrente de apenas 0,69, a varejista volta a se deparar com a necessidade de recorrer ao instituto recuperacional”, diz.
Para o especialista, o novo processo evidencia a importância de enfrentar simultaneamente questões financeiras e operacionais.
“O retorno a esse cenário evidencia que a solução judicial adotada em 2024 não foi suficiente para equacionar de forma abrangente os múltiplos fatores que compunham a crise econômico-financeira enfrentada pela empresa, revelando a persistência de fragilidades estruturais e operacionais que não foram integralmente superadas.”
O caso mostra uma das limitações de processos de renegociação de passivos: alongar prazos e reorganizar dívidas pode aliviar a pressão financeira, mas a sustentabilidade de longo prazo também depende da capacidade de geração de caixa e da eficiência do próprio negócio.
Lojas físicas passam por transformação
A discussão ganha relevância diante do peso que as lojas ainda possuem para grandes redes varejistas. Mesmo com o avanço do comércio eletrônico, o ponto físico não necessariamente perdeu sua função. O que está mudando é o papel que ele desempenha na jornada de compra.
Nesse cenário, lojas deixam de competir apenas pela disponibilidade de produtos e passam a ser cobradas também pela experiência oferecida ao consumidor e pela integração com os canais digitais.
Para a arquiteta Isabela Baracat, diretora e fundadora da Pon.to Arquitetura para Negócios, a arquitetura comercial pode contribuir para essa transformação ao criar ambientes capazes de diferenciar marcas em mercados cada vez mais competitivos.
A lógica envolve pensar o espaço não apenas como local onde a transação é concluída, mas como parte da experiência de consumo. Layout, circulação, exposição dos produtos e conexão entre atendimento presencial e ferramentas digitais passam a integrar a estratégia do negócio.
Nesse contexto, o desafio das redes tradicionais é encontrar equilíbrio: reduzir estruturas que deixaram de ser eficientes sem abrir mão de pontos físicos que ainda possam gerar vendas, relacionamento e complementaridade com o comércio eletrônico.
Fechar lojas não significa o fim do varejo físico
O fechamento de unidades de uma grande rede pode sugerir, à primeira vista, perda de importância das lojas. A transformação do setor, porém, é mais complexa.
Pontos físicos continuam relevantes quando exercem funções que o comércio eletrônico não consegue reproduzir integralmente, como contato direto com produtos, atendimento presencial e retirada ou troca de compras realizadas pela internet.
Isso significa que a discussão deixa de ser simplesmente “loja física versus comércio eletrônico”. O desafio passa a ser definir quantas lojas fazem sentido, onde devem estar e qual função precisam cumprir dentro de uma operação que combina diferentes canais.
Para redes com grandes estruturas, essa mudança também exige decisões difíceis. Manter pontos com baixo retorno aumenta custos fixos; reduzir excessivamente a presença física, por outro lado, pode diminuir alcance e relacionamento com consumidores.
O desafio vai além da dívida
A situação da Casas Bahia reúne diferentes elementos dessa transformação. De um lado está a necessidade imediata de reorganizar um passivo bilionário e preservar a operação. Do outro, permanece uma questão de longo prazo: como tornar sustentável um negócio criado em torno de uma extensa presença física em um mercado no qual crédito, tecnologia e comportamento do consumidor mudaram significativamente.
A experiência recente da companhia também reforça que processos de recuperação não devem ser analisados isoladamente da operação que sustenta a empresa.
Quando dificuldades financeiras reaparecem pouco tempo depois de uma renegociação, o debate deixa de ser apenas sobre quanto e quando pagar aos credores. Passa também por entender se o modelo operacional consegue gerar os recursos necessários para sustentar a companhia depois da reestruturação.
No varejo, isso significa rever custos, crédito, canais digitais, logística e também o próprio papel das lojas. O ponto físico não necessariamente desaparece nessa transformação — mas precisa justificar sua existência dentro de uma estratégia que já não pode depender apenas de abrir as portas e esperar o consumidor entrar.

O blog Paraná S/A é atualizado pelo time de Negócios da Gazeta do Povo. Sugestões de pauta podem ser enviadas no e-mail prsa@gazetadopovo.com.br




