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Paulo Briguet

Paulo Briguet

“O Paulo Briguet é o Rubem Braga da presente geração. Não percam nunca as crônicas dele.” (Olavo de Carvalho, filósofo e escritor)

Elétrons e verdade

A Máquina: considerações sobre um objeto infalível

A Máquina exige fé absoluta: infalível e incontestável, transforma seus fiéis em servos que aceitam seu poder sem jamais questioná-lo. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

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Você é livre para falar, você é livre para pensar, você é livre para questionar, você é livre para duvidar, você é livre para criticar, você é livre para imaginar, você é livre para supor — desde que não seja uma fala, um pensamento, uma pergunta, uma dúvida, uma crítica, uma imagem ou uma suposição que venha a ofender a Máquina.

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A Máquina é inquestionável, incorruptível, inatingível, infalível, imperecível, indefectível, indivisível, irrevogável e indescritível. A Máquina é incrível!

A Máquina é o nosso tesouro, nosso bezerro de ouro. Ela está acima da fé, da esperança e da caridade. A Máquina tem o dom. De quê? Não sabemos bem, mas ela tem.

Ai de quem não crê na Máquina. Ai de quem não a reverencia. Ai de quem não lhe é grato por tudo. Ai de quem nela encontra algum senão. Não, mil vezes não!

A Máquina não tem princípio nem fim: dentro de si guarda o infinito e o infinitesimal. A Máquina é sensacional.

A Máquina reflete o mundo. Jamais desconfie da Máquina, nem por um segundo.

A Máquina não apenas funciona: ela faz com que todo o restante se ponha em função da Máquina. A Máquina não tem mácula.

A Máquina não erra. Não titubeia. Não vacila. Não hesita. Não se cansa e não se esgota. Quem não confia na Máquina é idiota.

Mesmo reunindo todas essas qualidades e virtudes, acumuladas ao longo de tantos anos (seis lustros!) de serviços prestados e resultados concretos, ainda existe um grupo de pessoas — pequeno, é verdade — que ousa fazer maquinações contra a Máquina. Para falar a verdade, é inadequado chamar de "pessoas" seres tão estúpidos. Quem se opõe à Máquina não merece semelhante deferência.

Exatamente pelo fato de que ainda existem inimigos da Máquina, é preciso que ela tenha Guardiões. E quem são eles? Ora, os Guardiões da Máquina são aqueles que a conceberam e que conhecem os meandros do seu funcionamento. São aqueles que contabilizam e anunciam ao mundo os resultados da Máquina. São os Homens-Máquina.

Forma e conteúdo, substância e acidente, ser e tempo: a Máquina é a nossa maior glória, nossa maior conquista, nosso maior consolo. O que seria de nós sem a Máquina? O que seria de nós sem os seus Guardiões? Seríamos tão infelizes como esses planetas solitários que giram no espaço, sem planeta e sem sol.

A Máquina é o objeto que nos sujeita. Por isso, nós estamos sujeitos à Máquina. Só ela ordena o nosso caos e acalma nosso coração aflito. Embora ninguém, no fundo, saiba o que realmente existe dentro da Máquina, além de elétrons e verdade, nós acreditaremos para sempre na Máquina.

Nós somos escravos da Máquina.

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