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Paulo Briguet

Paulo Briguet

“O Paulo Briguet é o Rubem Braga da presente geração. Não percam nunca as crônicas dele.” (Olavo de Carvalho, filósofo e escritor)

Venezuela

A queda de Maduro e a caixa-preta do Foro de S. Paulo

A crise venezuelana expõe crimes do regime, o Foro de São Paulo e a queda de Maduro, alertando que sem justiça a tirania apenas muda de rosto. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

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1. “Muitos crimes eu testemunhei. É impossível ignorar tamanha dor. Aquela miserável gente, quase sem haveres, quase sem bagagem, às margens das estradas, dava-me dó. As mulheres, com casacos metidos às pressas; as crianças, andejando em pijama, confusas, sonolentas, a chorar; os homens, com olhar apalermado de quem não sabe o que deve fazer. Tudo isso eu vi, e muito mais, na longa caminhada da Venezuela ao Brasil. Contarei tudo. Revelarei toda a devassidão que se apossou da minha terra natal, conspurcou tudo e rebaixou todos. Darei nomes, títulos e posições. Apontarei dedos e faço questão de assegurar que a tudo chamarei pelo termo preciso. Não ousarei atenuar nada. Tampouco me servirei de eufemismos: um bandido é um bandido, um canalha é um canalha, um traidor é um traidor. Registre-se, pois, devidamente identificada, a reputação de cada qual para a posteridade que me há de ler e julgar”.

2. O trecho acima, do livro Se Houvesse Um Homem Justo na Cidade, do escritor paranaense Diogo Fontana, é o inventário de um desastre humano que transbordou fronteiras e está diante de todos nós. Mas nunca entenderemos o que aconteceu na Venezuela nestes 26 anos de regime socialista se não compreendermos o que é o Foro de São Paulo, organização fundada por Lula e Fidel Castro, em 1990, para levar o movimento revolucionário ao poder em toda a América Latina.

3. Nicolás Maduro, o tirano que converteu a nação mais próspera da América Latina em um imenso necrotério e campo de famintos, agora dorme em uma cela federal no Brooklyn. Só há dois tipos que criticam a prisão de Maduro: idiotas e vigaristas. Como dizia o embaixador Meira Penna, existem comunistas honestos e inteligentes; o problema é que os honestos não são inteligentes e os inteligentes não são honestos.

4. Tudo indica que Maduro foi rifado e entregue por aqueles que comiam em sua mesa. O triunvirato narcoterrorista — os irmãos Delcy e Jorge Rodríguez, somados ao sinistro Diosdado Cabello — parece ter decidido que o chefe era um passivo caro demais. Para salvar o sistema, entregaram a cabeça do monstro. Lealdade? Piada! A única coisa feia, na cabeça de um comunista, é perder o poder.

5. Preciso dizer sem rodeios: Delcy Rodríguez e seu irmão, Jorge, conseguem, juntos, ser piores do que Maduro. O cobrador de ônibus era o músculo bruto, a truculência visível, o fanfarrão sanguinário. Os Rodríguez são o cérebro e o sistema nervoso do mal. Delcy, movida por uma sede de vingança que remonta ao trauma do pai sequestrador, e Jorge, o psiquiatra que usa a ideologia para transtornar a alma da nação, são peças fundamentais do regime criminoso.

6. Agora, Delcy apresenta-se ao mundo como a fiadora da transição. É uma piada de mau gosto, uma zombaria com o cadáver dos mártires. Aceitar Delcy como interlocutora da democracia é o mesmo que convidar a hiena para cuidar do inventário do rebanho que ela mesma ajudou a dizimar. O que ela busca não é a paz, mas a queima de arquivo e o salvo-conduto.

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7. Contra essa autoridade de papel, ergue-se a legitimidade das urnas e do espírito. O presidente legítimo da Venezuela é o embaixador Edmundo González, o homem que carrega os votos de milhões. E a líder da alma nacional é María Corina Machado, ganhadora do Nobel da Paz em 2025. O contraste é insuportável: de um lado, a Nobel que oferece a liberdade; do outro, a socialista que, se pudesse, mandaria todos os inimigos para os torturadores de El Helicoide.

8. Mas há um fator que explica o nervosismo que hoje atravessa o continente: a caixa-preta do Foro de São Paulo. Maduro não levou para Nova York apenas suas roupas de detento, mas também os segredos do maior cartel político-criminoso da história moderna. Como um dos chefes do Foro, ele sabe exatamente como o dinheiro do narcotráfico venezuelano financiou ditaduras e terroristas companheiros em toda a região.

9. O pânico que se sente em Brasília é palpável. A fala mansa de Lula decorre do puro instinto de sobrevivência. Se Maduro, sentindo-se traído pelos seus e acuado pela justiça americana, decidir cantar, as digitais dos companheiros do Foro de São Paulo aparecerão em cada página desse prontuário de crimes transnacionais. O medo do Planalto tem nome e sobrenome: Nicolás Maduro Moros.

10. Em 2024, o exilado Roderick Navarro me disse, em uma entrevista: “O destino do Brasil e da Venezuela será o mesmo”. A queda de Maduro é a primeira grande fenda na muralha do Foro de São Paulo, mas a tentativa de Delcy Rodríguez de sequestrar a transição é o esforço final para manter o Brasil e a Venezuela acorrentados ao mesmo projeto de poder criminoso.

11. Sem eufemismos! Aqueles que hoje, nos palácios de Brasília ou nas redações da extrema-imprensa, tentam legitimar a “interinidade” da vice-ditadora Delcy Rodríguez estão escolhendo o lado do torturador. Não existe meio-termo entre o Nobel da Paz e a sede de vingança bolivariana. “Registrar a reputação de cada qual” é o nosso dever, para que a posteridade não nos julgue cúmplices.

12. Apesar da devassidão, o débil fio, ainda teso, de esperança de que falava o personagem de Fontana resiste. A prisão de Maduro e a exposição da caixa-preta do Foro de São Paulo oferecem à América Latina uma chance única de exorcizar os demônios da revolução. A luz está voltando para a Venezuela; cabe a nós garantir que a sombra que foge de lá não encontre abrigo definitivo aqui.

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