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Paulo Briguet

Paulo Briguet

“O Paulo Briguet é o Rubem Braga da presente geração. Não percam nunca as crônicas dele.” (Olavo de Carvalho, filósofo e escritor)

Doença ideológica

A religião do ódio: por que deixei de ser esquerdista

O cronista dos sete leitores, Paulo Briguet, nos idos de 1993, quando era militante esquerdista. (Foto: Paulo Briguet/Arquivo pessoal)

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“O movimento revolucionário é o flagelo maior que já se abateu sobre a espécie humana desde o seu advento sobre a Terra.”
(Olavo de Carvalho)

Alguns podem se escandalizar com o comportamento abjeto da esquerda, que silencia diante do massacre do povo iraniano, condena a captura de um narcoditador e apoia a perseguição e a tortura de pessoas inocentes no Brasil. Eu não me escandalizo, e digo por quê. A esquerda, desde sempre, é a religião do ódio.

Há muito tempo venho dizendo que um dos elementos centrais da mentalidade revolucionária é a morte do adversário. O socialista não está preocupado em rebater nossos argumentos ou em debater ideias.

Na cabeça do militante, não existe a possibilidade de que um conservador ou cristão venha a participar do debate público. Ele quer, nas palavras de Saul Alinsky, “erradicar o inimigo da face da Terra”. Na definição de Lula, o adversário não é um ser humano, mas um animal que deve ser “extirpado”.

O ódio é o combustível da alma esquerdista. Portanto, não são os argumentos racionais que levam alguém a abandonar a esquerda. Você só deixa de ser esquerdista por uma grande decepção pessoal. Eu tive várias:

1- Há 28 anos, participei do Congresso Mundial dos Jornalistas, em Recife. Quase todo o evento foi muito ruim e desorganizado, mas no último dia houve um belo momento: Ariano Suassuna recitou alguns de seus poemas. Eram versos sebastianistas, que falavam sobre a volta de um rei muito querido por seu povo. Ao meu lado, estava sentado um famoso professor marxista, autor de livros teóricos sobre jornalismo. Ao final da apresentação, o professor fez um comentário do qual me lembro como se fosse hoje: “Eu não vou esperar rei nenhum!”

2- Quando Augusto Pinochet foi preso na Inglaterra por ordem de Baltasar Garzón, apareceu em Londrina um advogado que atuava na equipe do juiz espanhol. Eu era repórter de um jornal local e fui escalado para entrevistá-lo. O advogado me esperava no café do Hotel Bourbon; usava cavanhaque e óculos de lentes quadradas. Conversamos durante uma hora. Deixei para o final uma pergunta simples: “A direita diz que Fidel Castro também deveria ser preso. O que o sr. tem a dizer sobre isso?” Antes de responder com evasivas, o homem lançou-me, por trás das lentes quadradas, um olhar de ódio que nunca esquecerei.

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3- No mesmo período, li o livro “Combate nas Trevas”, do historiador marxista Jacob Gorender. A descrição que o autor faz da morte do tenente Alberto Mendes Júnior no Vale do Ribeira, em 1970, é, ao mesmo tempo, horripilante e indelével, como só um grande escritor conseguiria fazer. Alberto se entregara como refém, estava desarmado e amarrado. Foi morto a coronhadas por dois companheiros de Lamarca. Tinha 23 anos.

4- “A morte de um homem é uma tragédia; a de milhões, uma estatística”, dizia Stálin. O assassinato do tenente Alberto abriu-me os olhos para a lógica dos genocídios comunistas: Mao, Stálin, Pol Pot, Ceausescu, Hoxha, Fidel... Se Lamarca ou Marighella chegassem um dia ao poder, aquela morte seria multiplicada por milhões.

5- Até que um dia, também há quase 30 anos, fui levado a participar do linchamento moral de um amigo inocente, por razões políticas. Tentei disfarçar, desenvolver argumentos intelectuais, buscar razões nobres para um ato que era essencialmente imoral. Estava apenas mentindo a mim mesmo. Só um fato me consola: anos depois, pedi e recebi o perdão desse amigo.

6- Há, porém, dois mortos que determinaram o meu completo abandono da esquerda. Seus nomes: Paulo Francis e Celso Daniel. Francis mostrou a verdade sobre aquela estatal brasileira. Mais do que certo, ele estava sendo profético; mais do que profético, ele estava sendo heroico. Mas seu coração não suportou a perseguição.

7- Sobre Celso Daniel, não é preciso dizer muito. Basta apenas lembrar aquele corpo abandonado na soturna estrada de terra. Aquele é o marco fundador da ditadura que nós vivemos hoje e que está produzindo a sua vítima sacrificial suprema: Jair Messias Bolsonaro.

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