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“Enfim, a eternidade o transforma em si mesmo.”
(Stephane Mallarmé)
Hoje meu pai faria 85 anos. Lembro-me da última vez que caminhamos juntos: um fim de tarde à beira do lago, logo após uma sessão de quimioterapia. Ele estava incrivelmente bem-disposto, quase alegre, com aquela luz nos olhos verdes que herdara dos ancestrais de Múrcia, na Espanha. Pedi-lhe que me contasse mais uma vez a história do seu vestibular.
Em 1960, o jovem de Mirandópolis chegou à cidade de São Paulo. Tinha 19 anos, era magro, quase imberbe, e trazia no peito um sonho: estudar na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Instalado em um pensionato no Brás e trabalhando como auxiliar de escritório durante o dia, ele contava com a ajuda financeira das irmãs mais velhas para financiar um curso pré-vestibular.
Certa tarde, ele se dirigiu à sede de um famoso cursinho no centro de São Paulo. A secretária, de cabelo preso e óculos de aro branco, reprimiu o riso ao ouvir o nome de sua cidade natal: “Mirandópolis!”. Após alguns minutos, ele foi recebido pelo diretor — um homem de olhar descrente e sorriso protocolar.
— Vou ser franco — sentenciou o homem, após ouvir os planos do rapaz. — Não vamos desperdiçar o seu tempo e o meu. Você não tem a mínima chance de ser aprovado na São Francisco.
Meu pai engoliu em seco. A resposta brutal poderia ter encerrado ali a sua jornada, mas ele teve ânimo para reagir:
— Está certo. Mas o senhor pode me vender as apostilas? Quero estudar sozinho.
Ele levou aquela pilha de livros sob o braço, atravessando a noite paulistana até o Brás. Durante um ano, a luz fraca da lâmpada do pensionato iluminou suas madrugadas. Ele devorou “Servidão Humana”, de Somerset Maugham, para a prova de inglês, e mergulhou no latim que, meses depois, responderia com firmeza diante de Miguel Reale em pessoa.
Um ano depois, o rapaz do interior voltou ao cursinho. A secretária, reconhecendo-o, permitiu sua entrada na sala da diretoria.
— Em que posso ajudá-lo? — perguntou o homem.
— Nada. Só vim devolver as apostilas. Eu sou aquele rapaz que o senhor disse que jamais passaria. Pois é: eu passei.
O diretor ficou mudo. O menino de Mirandópolis havia vencido a frieza cética da metrópole.
Enquanto caminhávamos no lago, quase quarenta anos depois desse triunfo, meu pai cantarolava a canção que aprendera nas arcadas e que eu cantaria em sua despedida:
Quando se sente bater
No peito a heroica pancada
Deixa-se a folha dobrada
Enquanto se vai morrer...
A folha dobrada é um livro que se fecha. Mas, para mim, aquela página nunca se fechou. Ela continua ali, aberta sobre a mesa de madeira do pensionato, eternamente iluminada pela lâmpada fraca e pelas mãos de meu pai.
Saudade. Saudade para a vida inteira.
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