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Paulo Briguet

Paulo Briguet

“O Paulo Briguet é o Rubem Braga da presente geração. Não percam nunca as crônicas dele.” (Olavo de Carvalho, filósofo e escritor)

Domingo sem política

Autodossiê: confissões de um cronista à procura de Deus

“Tarde te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava fora! Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti.” (Santo Agostinho). (Foto: Imagem criada utilizando OpenAI/Gazeta do Povo)

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Está na moda fazer dossiês contra os traidores da direita, não é? Hoje resolvi facilitar a vida dos investigadores e fazer eu mesmo um autodossiê (cujos fatos já podem ser encontrados em meus livros, mas, convenhamos: essa turma não gosta muito de literatura).

Confesso que, se pudesse, não escreveria mais uma única linha sobre política. A despolitização completa é um dos meus maiores sonhos. Se me fosse dada a chance, eu só falaria do perdão, dos grandes livros e do milagre eterno chamado Logos divino.

Tenho um profundo e incoercível desprezo pelos poderes deste mundo, que, para mim, são vento, vaidade e palha. Por isso, reservo meu domingo — o Dia do Senhor — para falar de assuntos não políticos e refutar a tenebrosa, hedionda, nefasta ideia de que “tudo é política”.

A política foi fundada por Caim a partir do assassinato e da traição; dizer que tudo é política equivale a transformar toda a realidade em um inferno habitado por serpentes e moscas varejeiras

Longe de mim tal aleivosia com meus sete leitores!

Meditando sobre os mistérios do Rosário, concluí que todas as minhas ações durante a vida convergem para um só fim: a procura de Deus. Não há nada mais importante do que isso.

Era Deus que eu procurava quando discursava nas assembleias estudantis dos anos 70, quando escrevia para o boletim do Sindicato dos Jornalistas, quando participei das campanhas políticas da esquerda nas eleições de 1986, 1989, 1994 e 1998.

Depois dos 29 anos, já convencido da superioridade moral e lógica do conservadorismo, quem eu buscava nas manifestações de rua, nos debates eleitorais, nos artigos de opinião, nos corredores de Brasília (te esconjuro!) — era Deus, e mais ninguém.

Na época da República, era Deus que eu procurava nas festas de arromba, que, no dia seguinte, deixavam a casa destruída e cheia de lama (no sentido literal e no sentido simbólico). Ele estava lá, circulando entre a multidão bêbada que admirava a loira dançante no quintal, perto do pé de milho plantado por Dona Santina. Mas, naquele tempo, eu ia dormir sem falar com Deus, e tudo o que me restava na manhã seguinte era uma casa destruída e uma ressaca.

Quando, em um domingo, saí caminhando pelas ruas de Londrina para encontrar uma casa de madeira na Rua Paranaguá, eu pensava estar em busca de um churrasco organizado pelos calouros da universidade, mas, na verdade, eu procurava Deus. Ele estava lá, à minha espera, substância nas espécies do pão e do vinho, no altar do Santuário da Mãe Rainha, mas eu o ignorava.

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Quando me abracei à garota errada na cozinha da República, e uma senhora de 90 anos invadiu o ambiente perguntando pelo marido morto há décadas, não era o amor que eu procurava, era Deus. E, graças a Ele — e àquela doce velhinha —, eu não tomei a decisão que poderia desnortear minha vida.

Numa longínqua noite, quando saímos, em alta madrugada, no carro do Luciano, que era pai de santo e militante marxista, atrás de substâncias ilícitas na periferia de Londrina, eu realmente não procurava nenhum pó, mas Aquele que fez o pó — e o barro, e as estrelas, e as galáxias, e o universo. E era esse o Fautor de todas as coisas que eu procurava quando apertava o botão dos elevadores do Centro Comercial, onde moravam os militantes marxistas.

Alguns anos mais tarde, quando saíamos, eu e meu querido amigo Preto (que não era pai de santo nem militante marxista), a caminhar como urbanautas pelos bairros de Londrina, não era a aventura nem a forma física que procurávamos: era Deus.

Quando eu passava horas na Biblioteca Pública de Araçatuba e na Biblioteca Pública de Londrina, circulando como um fantasma entre as prateleiras, eu procurava Deus.

Senhor, não eram as obras dos homens, mas a ti que eu procurava. E a ti eu procuro

Procuro-te agora no vão das coisas e no chão do teto, onde o tempo escorre por uma ampulheta invisível. Em verdade, em verdade vos digo: busco a metade silente da vida.

Não apresento descrição, retrato falado ou impressão digital; busco-te ao lado e no centro, ainda que pareça em vão, lançando-me a esmo no colo do vento, enquanto pergunto a mim mesmo se há, de fato, um alento.

Minha procura habita o impossível: a faca sem cabo e sem lâmina, o animal sem alma e o coração do cabal. Entre o claro-escuro e o lusco-fusco, eu busco Aquele Que É, na taça de vinho seco, na borra amarga do café.

Nesta penumbra, sigo no teu encalço. Aposto uma fortuna de átomos em moedas sem cara ou coroa, implorando em silêncio: mostra-mo. Sou como a mosca parada no gelo, condensando-me até atingir o silêncio, mas, ainda assim, procuro-te no presságio do derretimento.

Mesmo retido no frio de uma tranquilidade pânica, insisto em te encontrar no ardil da termodinâmica, na não bainha de nenhuma espada e no suposto sangue de uma veia sem forma. Minha alma persegue a reta sem pontos e o plano sem retas, buscando a moral das pedras e a quietude das bocas na treva luzidia que tudo esconde.

Busco-te no espaço curvo e na raiz quadrada de menos um. No gozo mais fundo e na luz que não viaja por caminho algum. Na dor que não percebo, no buraco negro, na santidade cínica, no público segredo. E, já que estou nisso, insisto: tu estás além do vento e da vaidade; és a redundância da natureza, onde te procuro entre verdades e inverdades de aparência. Diante do universo — adição de todas as coisas —, eu opero a minha renúncia e multiplico tudo por zero.

Neste abismo de fúrias, oceano pacífico, não te reduzo à aritmética. Minha busca é cética de tanta fé: anulo-me para que tu apareças. Em atos, palavras, omissões e pensamentos, palmilho o mundo, sedento, pedindo, enquanto te procuro, que tu também me procures. No chão das coisas e no vão do teto, sigo o rumo norte. Deixo o ruído das serpentes e das moscas varejeiras para, finalmente, encontrar a vida sem morte, onde o Logos não é mais busca, mas Presença.

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