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“Nada é pequeno quando contém o infinito em germe, e é este o caso de toda ação feita para Deus.”
(Padre Antonin-Dalmace Sertillanges)
Meu amigo,
Você é lixeiro e eu sou cronista. Nossas profissões são muito mais parecidas do que se poderia imaginar. Você é responsável pela limpeza de nossas ruas. Eu sou responsável por outro tipo de limpeza: a limpeza da linguagem, despojando-a de tudo aquilo que não comunique a verdade. A diferença é que o seu trabalho é muito mais importante que o meu. Sem você, a cidade vira um caos. Sem mim, ela continuará funcionando, mesmo com todos os problemas.
Ouvi, com o coração dilacerado, as palavras que o ocupante da Presidência dedicou ao seu ofício em mais um discurso imbecil. Senti-me pessoalmente ofendido com as palavras do sujeito.
Há muitos anos cultivo um hábito: quando vejo um caminhão de lixo se aproximando, eu paro o que estou fazendo para acompanhar o trabalho de vocês e fazer uma oração silenciosa:
— Senhor, abençoe os nossos irmãos lixeiros.
Quantos quilômetros por dia corre um funcionário da limpeza pública? É um trabalho hercúleo, digno de heróis. E tudo para garantir o conforto e a saúde da população. Raros labores traduzem melhor aquilo que garante a continuidade da vida social: o amor ao próximo.
Meu amigo Silvio Grimaldo diz que eu, na verdade, sou um catador de detritos, um lixeiro das palavras. Jamais me senti ofendido com essa definição. De vez em quando, eu saio pelas ruas catando garrafas e latinhas e quase sempre volto com uma crônica. Certa vez, eu cortei a mão com uma garrafa quebrada. Para evitar que aconteça o mesmo com você, sempre que quebramos um copo ou uma garrafa aqui em casa, eu dedico alguns minutos só para acomodar os cacos dentro de uma caixa de papelão forrada de papel, com um aviso em letras garrafais: CUIDADO, AMIGO LIXEIRO: VIDRO QUEBRADO.
Há cem anos, um comunista chamado Trotsky disse que, no futuro socialista da humanidade, todo operário seria um Goethe e todo lixeiro seria um Aristóteles. No chamado socialismo real, a experiência mostrou exatamente o contrário: em 1978, o governo socialista da Tchecoslováquia proibiu Ivan Klíma, possivelmente o maior escritor do país, de exercer a sua profissão. Ele se tornou varredor de ruas, ofício que ele exerceu com dignidade, transformando a sua experiência no belíssimo romance “Amor e Lixo”, publicado nos anos 80.
Hoje de manhã, quando me sentei para escrever esta crônica em sua homenagem, assisti ao vídeo de uma moça que teve seu celular roubado por bandidos. Os caras quebraram o vidro do carro e a moça ficou em estado de choque. Ela havia acabado de comprar o celular e estava devendo 11 parcelas. Os ladrões, não contentes em lhe subtrair o celular, também lhe afanaram R$ 2 mil da conta.
Esse Lula que humilhou os lixeiros do Brasil é o mesmo que, tempos atrás, saiu em defesa dos ladrões de celular, que, segundo ele, roubam “pra comprar uma cervejinha”. Ele respeita mais os ladrões que os garis. E todos sabemos por quê.
A pergunta que eu faço é muito simples e direta: quem será capaz de limpar toda a sujeira que essa gente deixou? É obra para muitas gerações. Todos nós teremos de ser garis.
Receba um forte abraço deste colega, amigo, irmão e cronista de sete leitores.
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Paulo Briguet é escritor, jornalista, palestrante e professor de literatura. Trabalhou em diversos jornais, revistas e assessorias de comunicação no Paraná. Foi colunista da Folha de Londrina e editor-chefe do jornal Brasil Sem Medo. Publicou diversos livros, dentre eles: “Nossa Senhora dos Ateus”, "Coração de mãe", “O Mínimo sobre Distopias” e “Diário de Moby Dick”. Já escreveu mais de 2 mil crônicas. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



