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Paulo Briguet

Paulo Briguet

“O Paulo Briguet é o Rubem Braga da presente geração. Não percam nunca as crônicas dele.” (Olavo de Carvalho, filósofo e escritor)

Ataque hacker

Confissões de um misantropo: alerta para a humanidade

Ouvi esse desqualificativo pela primeira vez há exatos 40 anos, da boca de meu pai. (Foto: Imagem criada por Open AI / Gazeta do Povo)

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Na madrugada de sábado, depois da pouco brilhante vitória do Brasil sobre o modesto Haiti, milhares de cidadãos receberam em seus celulares um misterioso “alerta de misantropia” da Defesa Civil. O disparo da mensagem falsa, obra de algum hacker pretensamente espirituoso, colocou em xeque a credibilidade do sistema de emergência do país. Mas meus sete leitores podem ficar tranquilos: a votação e a apuração eleitoral seguem absolutamente invioláveis, conforme garantiu a ministra Carminha no lançamento da “Pilili”, urna eletrônica de gênero neutro.

Durante o fim de semana, falou-se muito em misantropia. Jornalistas e influenciadores saíram à cata dos dicionários para esclarecer que o termo significa “ódio ou aversão à humanidade”. Meu xará Polzonoff, sempre rápido, publicou aqui na Gazeta uma boa crônica sobre o episódio horas depois do ocorrido. Em outras circunstâncias, isso me dispensaria de falar sobre o caso, mas acho que agora vale a pena, e por um motivo pessoal.

Eu sou um ex-misantropo — talvez não tão ex assim. Ouvi esse desqualificativo pela primeira vez há exatos 40 anos, da boca de meu pai. Na época, adolescente, eu costumava passar horas trancado no quarto com meus discos e livros. Contudo, nem os discos nem os livros eram tão bons assim que justificassem o meu alheamento das relações familiares. Certo dia, quando eu estava ouvindo um LP de Jean-Luc Ponty (eu avisei que os discos não eram lá grande coisa), meu pai bateu à porta e disse:

— Paulo, você anda muito misantropo!

Imediatamente, fiz o que fizeram os influenciadores e jornalistas no último sábado: corri ao dicionário. E, claro, obtive a mesma definição. Misantropo é aquele que tem ódio ou aversão à humanidade e ao convívio social.

Eu sou um ex-misantropo — talvez não tão ex assim

Por uma incrível coincidência (hoje eu diria: por uma feliz providência), um grupo de teatro estava apresentando a peça “O Misantropo”, de Molière, no Teatro Municipal de Araçatuba, a cidade do interior paulista em que eu morei na adolescência. Vi a peça e pensei, ao fim, voltando para casa, enquanto ladravam os cachorros da vizinhança: “Como é difícil ser misantropo”.

Alceste, o protagonista da comédia escrita e ambientada na França do século XVII, é um homem que cultiva a virtude da sinceridade, e exatamente por isso rejeita as hipocrisias e as pequenas mentiras que marcam a vida social. Essa inflexibilidade é ao mesmo tempo a sua comédia e a sua tragédia, levando-o gradativamente à solidão e ao isolamento completo. Ao final, descobrimos que não é apenas Alceste que odeia a humanidade, mas também a humanidade que o odeia, por esse hábito inconveniente e irritante de dizer a verdade.

E convenhamos: é difícil não ser misantropo em um mundo que rejeita a verdade, a bondade e a compaixão — um mundo em que o amor ao próximo, o perdão e a busca pela pureza se tornaram objeto de chacota. Quando a mentira, o crime e a maldade estão no poder, cultivar a misantropia pode ser um ato de desobediência civil! (Não por acaso, Henry David Thoreau morava isolado da civilização.)

Eu só lamento ter exercido a misantropia dentro de meu próprio lar. Em vez de ouvir Jean-Luc Ponty, eu poderia ter conversado muito mais com meu pai.

Que saudade, pai.

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