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“Conservadorismo significa encontrar o que você ama e agir para proteger isso. A alternativa é encontrar o que você odeia e tentar destruir. Certamente a primeira alternativa é um modo melhor de viver do que a segunda.”
(Roger Scruton)
A blasfêmia é tão antiga quanto a religião; na verdade, tão antiga quanto a criação. A serpente do Paraíso é o primeiro blasfemador da história — e obteve êxito. Na segunda criação do homem, a ofensa a Deus também estava presente. Além de ter sido acusado de blasfêmia pelas autoridades religiosas de sua época, Jesus Cristo foi vítima de blasfêmias no momento em que estava pregado à cruz, sofrendo dores lancinantes: “Ele salvou os outros e não pode salvar-se a si mesmo! Se é rei de Israel, desça agora da cruz e nós creremos nele!” (Mt 27,42).
Por isso, não me escandalizo com as blasfêmias contemporâneas, como a que fizeram no Carnaval do Lula. Só sinto uma profunda pena, uma invencível vontade de rezar pelos blasfemadores. Acham-se ousados; não sabem como são típicos. Um dia terão consciência do erro que cometeram.
Há hoje 380 milhões de cristãos perseguidos no mundo. Nunca é demais lembrar que a perseguição começa na ridicularização e na blasfêmia e acaba no martírio de sangue.
Sabemos que, quando a esquerda chega ao poder, ela promove a destruição da alta cultura e da cultura popular autêntica, que são substituídas pelo lixo cultural ideológico. Da mesma forma, a família é atacada; o objetivo final é substituí-la pela autoridade do Estado.
Vimos isso de forma plástica e grotesca no desfile da Acadêmicos da Cleptocracia — ops, Acadêmicos de Niterói. A ala das “Famílias em Conserva”, com seus personagens presos em latas de conserva (mal disfarçadas latas de lixo), caracterizados como cristãos leitores da Bíblia, empresários do agronegócio e defensores da ordem e da liberdade — tudo isso é apenas mais um episódio dessa guerra demoníaca do governo contra metade do seu próprio povo.
Na verdade, Lula quis dizer o seguinte com esse desfile: “Nós vamos ganhar a eleição, porque os votos não importam. Eu posso fazer tudo, e não vai acontecer nada comigo”. Afinal, a humilhação é parte essencial de qualquer ditadura. Por que seria diferente com o Regime PT-STF?
Por falar em humilhação, uma das mais antigas imagens pictóricas do Cristianismo — talvez a mais antiga — é um ato de blasfêmia que antecipa esse espírito de “enlatamento” do adversário. Trata-se do grafite de Alexamenos, encontrado durante escavações no Monte Palatino, em Roma, no ano de 1875. Calcula-se que o grafite seja do século III da era cristã. O desenho em gesso mostra a crucificação de um burro, tendo a seus pés um fiel em atitude de adoração. A legenda, em grego, diz: “Alexamenos adora seu deus”. Imagine-se que Alexamenos seja um cristão dos primeiros tempos, ridicularizado por seus colegas.

A propósito, o burro é um animal que possui um papel relevante na história da salvação. Como se sabe, Jesus adentrou a cidade santa no Domingo de Ramos, montado em um jumentinho. Ali, ele foi aclamado pela multidão:
— Bendito o rei que vem em nome do Senhor!
O jumentinho que Jesus montou antes da entrada em Jerusalém fora buscado por dois discípulos nas cercanias do Monte das Oliveiras. Jesus dera aos dois discípulos uma orientação bastante precisa: eles encontrariam o animal amarrado na entrada do lugar e o desamarrariam. Quando os donos do animal perguntassem por que estavam fazendo isso, eles responderiam:
— O Senhor precisa dele.
O Senhor precisa dele. Tenho por hábito me colocar no lugar dos pequenos personagens do Evangelho. Fico imaginando o que teria se passado pela mente do proprietário do animal diante dessa misteriosa frase. O Senhor precisa dele — para salvar o Universo. Enquanto Jesus entrava em Jerusalém, o povo ia estendendo mantos ao longo do caminho. Os mais pobres, porém, não tinham mantos para estender; então, usavam os ramos das plantas que estivessem à mão.
Tristeza! Quatro dias depois, muitos desses adoradores prefeririam libertar Barrabás e condenar Jesus. Tudo porque Jesus não era o tipo de rei que eles esperavam. Qual teria sido o destino do burrinho emprestado a Jesus para entrar em Jerusalém? Teria sido devolvido aos donos? É provável que sim. Mas saberiam esses donos que o animal havia conduzido o próprio Salvador? São dúvidas que só poderei esclarecer quando conseguir falar com Deus.
Há alguns anos, li um livro pequeno, mas precioso, intitulado “Elogio do Burro”, do célebre escritor e diplomata J. O. de Meira Penna (1917-2017). A obra não faz um elogio à burrice, mas sim uma espécie de desagravo literário a esse simpático animal. Meira Penna, com magnífica inteligência e erudição, demonstra que o burro, ao longo da história, simboliza a humildade, a persistência, o sacrifício e a inocência — exatamente as virtudes que os engenheiros sociais do atual regime tentam “enlatar” e descartar.
Encerro essas reflexões e começo com um poema do grande escritor católico G. K. Chesterton, traduzido magistralmente pelo saudoso professor Sérgio Pachá:
Quando os peixes voavam e as florestas
Moviam-se, e espinheiros davam figos?
No momento em que a lua era de sangue,
Eu decerto nasci: tempos antigos.
Com uma cabeça enorme e um grito ascoso
E orelhas — duas asas berrantes —,
Sou a paródia mesma do demônio
Por entre todos os mais quadrupedantes.
A andrajosa escumalha deste mundo,
Cuja perversidade não tem fim,
Escarnece-me, bate-me, esfomeia-me,
E guardo o meu segredo para mim.
Estultos! Eu também tive uma hora,
Distante e doce e minha — uma hora ardente:
Bradava a multidão à minha volta
E espalhava-me palmas pela frente.
Quando você for ridicularizado por causa de sua fé, ou quando vir a sua classe, sua família e seus valores desfilarem dentro de uma lata de lixo na avenida, lembre-se de Alexamenos, de Chesterton — e, sobretudo, daquele Rei que entrou em Jerusalém montado em um burrinho.
A Quaresma, que se inicia hoje, é a caminhada ao encontro desse Rei manso e humilde de coração.
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