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No início do século 20, Albert Schweitzer, que já era um renomado teólogo, filósofo e músico, decidiu estudar medicina aos 30 anos para servir como missionário médico na África Equatorial Francesa. Em 1913, ele construiu um hospital às margens do Rio Ogooué, na floresta do Gabão, um dos países mais pobres do mundo.
Em pouco tempo, o “Doutor Branco” (como Schweitzer era chamado) se tornou amado e admirado pela população local por suas curas e prodígios. Certa vez, um habitante que passara por anestesia geral confidenciou a um amigo:
— Estive morto, mas o Doutor me curou.
Há exatos 40 anos, eu também estive morto. E hoje vou contar essa história aos meus sete leitores.
Em 1986, tinha 16 anos e cursava o 2º colegial em uma escola particular da cidade de Araçatuba. Morava com meus pais (ele, bancário; ela, professora) e com minha irmã, cinco anos mais nova. Éramos uma família de classe média.
Um dia, estava eu conversando com dois amigos, à sombra de uma figueira, quando um deles, que chamarei de César, apanhou um figo do chão e me mostrou algumas marcas na superfície do fruto:
— Tá vendo isso? São os morcegos.
Fiquei em silêncio, mas guardei aquilo no coração. Naquela noite, tive sonhos ruins em que via uma caverna repleta de mamíferos voadores — identificáveis apenas por seus minúsculos olhos que brilhavam na escuridão.
Dias depois, saí para beber cerveja com colegas do grupo de teatro amador do qual fazia parte. Em determinado momento, depois que o último bar fechou, alguém teve a ideia de pular os muros do cemitério local para beber sem a interferência de ninguém (afinal, éramos todos menores de idade e não podíamos consumir bebidas alcoólicas). Lá dentro, no meio dos túmulos, alguém teve a ideia de fazer uma sessão de ginástica alternativa. Entre risos bêbados, improvisamos uma série de exercícios.
Numa noite de sábado, com os mesmos colegas de teatro, atiramo-nos na piscina de um clube da cidade. Morcegos davam voos rasantes e chegavam a tocar a flora da água. Todos riram muito. Menos eu.
Em uma festa na casa do amigo Tales, que ficava no fim de uma rua sem saída, à margem de uma ferrovia que não existe mais, enquanto todos bebiam cerveja na varanda, resolvi brincar com um cachorrinho preto que por lá apareceu.
O bicho se aproximou; quando acariciei seu pescoço, ele tentou morder a minha mão. Não chegou a perfurar a minha pele; apenas um de seus dentes roçou as costas da minha mão, deixando um minúsculo arranhão, quase imperceptível. Voltei para a varanda e continuei bebendo, como se nada houvesse acontecido.
O dia seguinte, domingo, passou como um sonho.
Trancado em meu quarto, ou melhor, no quarto alternativo que eu tinha montado nos fundos de casa, passei o dia ouvindo um disco sombrio do Pink Floyd e olhando para a marquinha vermelha nas costas da minha mão
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Só tive contato com meus pais e minha irmã na hora do almoço, durante o qual permaneci em silêncio, quase sem tocar na comida. Quando minha mãe, com a doçura de sempre, perguntou se eu estava bem, limitei-me a dizer que estava com um pouco de dor de cabeça. E voltei para o Pink Floyd. Nosso cachorro dormia atrás da máquina de lavar. Não quis brincar com ele.
Na segunda-feira, as duas primeiras aulas eram de matemática. Zé Fernando, o professor gordo e bonachão, gostava de fazer piadas durante as explicações.
Ao perceber que eu não havia rido de uma de suas tiradas, Zé Fernando foi até o fundo da sala, enquanto o restante da classe resolvia um novo exercício, e me perguntou em voz baixa:
— Tudo bem, Paulo? Aconteceu alguma coisa?
Até então, eu estava com a cabeça baixa, fingindo ler alguma coisa no livro de matemática. Quando levantei o rosto, o professor notou que meus olhos estavam marejados e meus lábios tremiam.
— Eu não tô bem, não, Zé. Preciso de um médico. Me dá licença, por favor.
Joguei meu livro na mochila, levantei-me da carteira e, sob o olhar atônito do professor, saí da sala e deixei a escola.
Quando me vi na rua, era como se o mundo estivesse desligado. As lojas do centro da cidade estavam abrindo as portas, mas eu não consegui atinar com nada. Caminhei como um zumbi pela Rua Duque de Caxias, claudicando como um bêbado, indiferente à passagem dos carros e ao som das portas metálicas sendo abertas pelos lojistas.
Ao passar pelo bar da esquina, senti o cheiro do café preparado pelo japonês, mas esse odor, que costumava evocar prazer sempre que eu passava pelo mesmo lugar, agora me fazia sentir náuseas e uma pressão nas têmporas, como se meu cérebro estivesse sendo invadido por um agente inimigo.
Eu suava e tremia, como uma chaleira esquecida no fogão. Virei a esquina do hoje extinto Araçatuba Clube e olhei para a igreja de Monsenhor Vitor Mattei. Mas segui em frente, apoiando-me nos muros da escola em que havia estudado anos antes, até que avistei uma placa defronte a uma pequena casa branca:
Dr. José Manzoni — Pediatra e Clínico Geral
Entrei na sala de espera e avistei a secretária, uma senhora de meia-idade, que parecia haver acabado de chegar. Ela me olhou por trás de seus óculos de lentes retangulares, dos quais pendiam duas correntinhas douradas:
— Você tem consulta marcada, moço?
— Não tenho, não. Mas é um caso de emergência. Preciso falar com o doutor!
Quando pronunciei essas palavras, notei que minha voz saiu trêmula e rouca, como se alguém estivesse me dublando em um gravador defeituoso.
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A secretária me olhou em silêncio. Não havia ninguém mais na sala.
— Bom, como ainda não chegou nenhum paciente do dia, vou ver se o doutor pode atendê-lo.
Ela entrou no consultório. Depois de um rápido diálogo murmurado entre a secretária e o médico, voltou com os óculos nas mãos e, com eles, apontou a porta do consultório:
— O Dr. Manzoni vai atendê-lo. Pode entrar.
Com cerca de 70 anos, José Manzoni era um veterano da medicina local, um homem que havia cuidado de várias gerações de araçatubenses. Usava óculos, era calvo, tinha um bigode preto e não sorria. De uma maneira que eu não podia compreender no momento, aquele médico representava para mim uma esperança de salvação única e irrepetível.
— O que o traz aqui, garoto?
Trêmulo, suado, mas estranhamente convicto, eu disse:
— Doutor, acho que eu estou com uma doença grave. Uma doença sem cura.
Rapidamente fiz um relato dos meus sintomas e mostrei-lhe a marca nas costas de minha mão esquerda.
Depois de me examinar, ele me olhou por alguns segundos e perguntou:
— Garoto, quais são os nomes dos seus pais?
Respondi.
— Pois saiba de uma coisa. Tenho 50 anos de profissão e posso lhe dizer com toda certeza: você não tem nada. Agora me dê licença, tenho pacientes para atender.
Chegando em casa, fui para o meu quarto — o quarto dos fundos, da música e dos livros. Ace, o nosso cachorro, quis acompanhar-me, mas eu o repeli com aspereza.
Nada me interessava: nem o cachorro, nem a música, nem os livros. Havia uma pequena televisão em preto e branco que eu levara para meu refúgio. Deixei-a ligada, sem som, por várias horas, e adormeci profundamente.
Quando acordei, o jornal das dez mostrava um funcionário do governo fechando um supermercado por “crime contra a economia popular”, sob os aplausos da população.
Era uma cena muda, mas não me animei a aumentar o volume da pequena TV. Desliguei-a e fiquei observando o pequeno olho branco no meio da tela. O calor da noite era grande, mas eu mantinha as janelas e a porta hermeticamente fechadas, para que nenhum morcego pudesse entrar. No entanto, precisava ir até o banheiro e me lavar.
Levei algumas horas para finalmente tomar coragem, sair do quarto e percorrer os dez metros que me separavam do banheiro. Já era madrugada; todos estavam dormindo
Tomei um longo banho, não sem antes fechar as janelas do banheiro. No entanto, depois de me enxugar, senti a necessidade de lavar as mãos. Tinha ouvido, durante uma aula de Higiene e Saúde, que o tempo ideal para a limpeza completa equivale a uma oração do Pai-Nosso.
Na frente do espelho embaçado pelo vapor do banho, liguei a torneira e comecei a ensaboar meus dedos, pronunciando as palavras que conhecia tão bem desde os tempos do catecismo:
— Pai-Nosso, que estais nos céus, santificado seja o vosso nome...
Enrolado na toalha, saí em meio à escuridão e ouvi um pequeno murmúrio vindo da sala. Era minha mãe que rezava a Ave-Maria.
As semanas seguintes foram de absoluto desespero, resultante da convicção de que eu estava infectado por um vírus incurável, que me levaria à morte da maneira mais dolorosa possível. Todos os dias eu acordava com a sensação de que algo estava bloqueando a minha garganta e uma angustiante pressão nas têmporas.
Minhas mãos tremiam e eu procurava evitar ambientes iluminados: o único lugar em que eu realmente me sentia bem era o quarto escuro dos fundos. Acabei sendo expulso do grupo de teatro depois de brigar com o novo diretor.
Ir às aulas todos os dias era uma tortura, por vários motivos. No colégio, eu tinha contato com outras pessoas, que poderiam estar infectadas de maneira assintomática e aumentar a carga viral que já consumia o meu organismo.
Essas pessoas falavam, riam, tossiam, espirravam, tocavam em superfícies possivelmente infectadas. O vírus não estava só nas pessoas, mas também nos objetos que foram manipulados por elas. Havia também os animais: cães, gatos, morcegos, pássaros, insetos, todos eles vetores do vírus que estava reservado para mim, somente para mim.
Os livros e os jornais que eu lia continham mensagens subliminares: espíritos do mal diziam, por meio de números e combinações de letras, a hora e o dia em que o vírus finalmente passaria ao seu último ataque. Atingido esse momento fatal, uma combinação de sofrimentos indescritíveis me levaria a desejar a morte como um mal menor, pela cessação da dor.
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Um número passou a me perseguir: 909. Até hoje, quatro décadas depois, tenho uma sensação ruim ao mencioná-lo. Eu o via por todos os lados: nas matérias de jornal; na lista telefônica; nas letras das músicas que já não escutava; nas apostilas do colégio; nas embalagens dos produtos; nos endereços de meus amigos; no calendário; nos programas sem som da minha pequena TV; e nos meus sonhos.
Longa parte do dia eu passava fazendo cálculos com números de telefones, números de casas, números de páginas, horários, preços, volumes — qualquer coisa que pudesse ser mensurada. Essas operações sempre acabavam me conduzindo ao número fatal, ao veredicto aritmético que me vigiava com seus três olhos assassinos.
Entre uma sessão de cálculo e outra, eu me levantava apenas para ir ao banheiro e lavar as mãos, repetindo mentalmente a antiga oração. Cheguei a lavar as mãos mais de 100 vezes por dia.
Um dos poucos lugares em que eu me sentia bem, além do quarto dos fundos, era a biblioteca pública. Sim, os livros poderiam estar infectados, mas era um risco que eu precisava enfrentar para conhecer a verdade.
Folheando obras de filosofia, encontrei, nas Meditações Metafísicas, de René Descartes, a hipótese do “gênio maligno” — uma inteligência poderosa dedicada a nos enganar, fazendo-nos acreditar que o mundo existe quando tudo não passa de ilusão.
Eu não sabia, mas naquele momento estava também dando as costas a Deus. O veneno inoculado por Descartes em minha alma era muito mais letal do que o vírus das minhas tormentas.
A partir daquele momento, eu estava entregue à ilusão gnóstica de que a realidade, tal como a conhecemos, é produto de uma mente maligna, que se compraz com a nossa ilusão e o nosso sofrimento. Nos anos seguintes, a minha adesão à ideologia marxista teria como base essa revolta metafísica contra Deus.
Na escola, as coisas só pioravam. Abandonei completamente os estudos e, durante as aulas, caçoava dos professores. Quando chegou a semana de avaliações do segundo semestre, fiz questão de entregar todas as provas em branco.
Na margem das folhas de prova, eu escrevia mensagens em código, que na verdade eram pedidos de socorro. Afinal, eu iria morrer em breve; do que adiantava tirar boas notas ou pensar no futuro? O mundo era apenas uma ilusão criada pelo Gênio Maligno.
E quais eram as coisas que me restavam diante da inexistência de um Criador infinitamente bom e misericordioso? Apenas duas: o prazer e o poder. Mas, para chegar até eles, eu tinha de pedir permissão ao meu novo senhor: o medo.
Era preciso, então, buscar os prazeres fáceis, aqueles que não me expunham ao perigo de ser recontaminado pelo vírus. Olhar para as necessidades do próximo, retribuir o amor dos que me amavam, abandonar o egoísmo ou dedicar-me a atividades intelectuais não eram ações que me conduziam a esses prazeres e poderes baixos. Nasciam em mim uma preguiça e uma ira das quais sofro as consequências até hoje.
Como vocês, meus sete leitores, podem notar, eu estive morto, mas sobrevivi. A depressão, porém, me deixou uma ferida que levaria duas décadas para cicatrizar: o medo. Durante a minha longa noite longe de Deus, percorri caminhos trevosos dentro do meu egoísmo e das mentiras que fazia questão de contar para mim mesmo.
Por isso, hoje, quando vejo tantas pessoas dominadas pela angústia e divididas pelo rancor, sinto uma profunda compaixão. As lágrimas de minha mãe, a dor silenciosa de meu pai — agora que eles já não estão mais aqui — me inspiram a continuar lutando e dizendo, contra toda a dor e todo medo:
Perdoai as nossas ofensas,
Assim como nós perdoamos a quem nos tenha ofendido
E não nos deixeis cair em tentação
Mas livrai-nos do mal. Amém.
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