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Paulo Briguet

Paulo Briguet

“O Paulo Briguet é o Rubem Braga da presente geração. Não percam nunca as crônicas dele.” (Olavo de Carvalho, filósofo e escritor)

Compaixão

O cãozinho Orelha e o sofrimento dos inocentes

Orelha, cão mascote da Praia Brava (Florianópolis), morreu em 5 de janeiro de 2026 após sofrer maus-tratos por adolescentes e precisou ser submetido à eutanásia. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

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Há 50 anos, o nosso vizinho grego deu um golpe na praça e fugiu do país, levando a família, inclusive as filhas Ketty e Lia, minhas primeiras amigas de infância. No apartamento vazio, só ficou para trás uma personagem: Laika. Meio século se passou, e eu me lembro até hoje do olhar triste da cachorrinha abandonada pelos donos, uma das cenas mais comoventes que já presenciei. Felizmente, ela foi adotada pelo meu padrinho, o tio Álvaro, e viveu muitos anos com sua nova família de cuidadores.

Tempos depois, tivemos o Ace, vira-lata inteligentíssimo que só não falava porque não tinha cordas vocais. Por fim, pouco antes do nascimento do Pedro, eu e a Rosângela acolhemos o Cisco, cuja história já contei aqui e que nos deixou no ano passado, após 16 anos de muitas alegrias e caminhadas, a ponto de eu me tornar conhecido em Londrina como o cronista do cachorro, embora alguns preferissem dizer o cachorro do cronista.

Por amar os cachorros, seres puros e inocentes, fiquei muito triste e revoltado com a morte cruel do cãozinho Orelha. A maldade dos seus torturadores adolescentes lembra uma história de Poe ou ainda aquele assustador conto de Machado de Assis, A Causa Secreta. Como alguém pode se regozijar com o sofrimento de um bichinho, meu Deus?

Mas que fique bem claro: apesar de gostar muito dessas criaturas, não as idolatro. A vida de um animal nunca valerá mais do que uma vida humana

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Graham Greene dizia que a inocência é uma forma de loucura. A frase se aplica perfeitamente aos tempos modernos: ser inocente, no mundo de hoje, é tornar-se alvo preferencial dos perversos, dos sádicos, dos psicopatas. Mas, como observa São Paulo, a loucura da inocência é mais poderosa que o mundo: “Pois a loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens”. Exatamente por isso, Deus promete o reino dos céus aos indefesos e inocentes.

Eu não consigo acreditar em gente que só se comove com certo tipo de sofrimento, especialmente aquele sofrimento que, transformado em slogan, traz likes nas redes sociais, benefício político ou algum viés de confirmação ideológica. Ora, o sofrimento humano é como a túnica inconsútil de Jesus.

A compaixão — ou seja, a capacidade de sentir a dor do outro — não pode ser esquecida quando o outro pertence a determinada classe social ou partido. Essa é “A Descoberta do Outro”, de que Gustavo Corção trata em seu grande livro: a certeza de que o próximo é uma alma imortal criada por Deus, portanto vai durar mais do que toda a história universal.

Não posso levar a sério alguém que chora a morte de Orelha, mas defende o assassinato de bebês no ventre de suas mães; alguém que condena as mortes em Gaza, mas fecha os olhos diante das mortes no Irã; alguém que defende benefícios e impunidade para quem cometeu crimes bem piores do que matar um cachorro; ou alguém que defende a prisão e a tortura de inocentes só por discordância política.

Na hora de pedir punição para abortistas, apoiadores de assassinos e ditadores de toga — ou a redução da maioridade penal —, muitos dos que choraram a morte do Orelha vão fazer ouvidos moucos à realidade, advogando a liberação do aborto, votando nos amigos de democidas e exaltando os juízes iníquos. Quando chega o momento de combater a raiz do problema, a turma da empatia não tem compaixão. É “sem anistia”!

Assim como o Cordeiro de Deus (um animal manso e silencioso) é a imagem do sacrifício de Jesus, o cãozinho Orelha é um símbolo do sofrimento indizível das vítimas de nosso tempo, das lágrimas do nosso mundo, da dor que habita os corações solitários e dilacerados.

Tenhamos compaixão dos inocentes — e que Deus perdoe e cure a nossa cegueira, a nossa surdez, a nossa mudez diante do mal. E você, Orelha, descanse em paz.

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