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Estou dentro de uma cela, não sei se é dia ou noite, há apenas o breu dentro desta caixa de concreto onde fui lançado injustamente por um tribunal de facínoras. Imerso na escuridão, penso nas flores amarelas que ficavam espalhadas pelo chão da praça quando éramos jovens. Elas, as flores amarelas, me faziam pensar que algo bom estava para acontecer, algo que mudaria tudo para sempre, uma promessa de vida e liberdade sem fim. Penso nas flores amarelas e no homem que certa manhã foi confundido com o jardineiro. Quem é ele?
Mora dentro de nós uma estrela mínima, e o nome da estrela é Ressurreição. À primeira vista, parece uma estrela sem massa ou magnitude, incalculavelmente menor do que suas irmãs do espaço sideral. Na verdade, é infinitamente superior a elas, por ser capaz de algo que estrelas comuns não fazem: nascer de novo. Fecho os olhos e ouço minha voz interior; é o concerto da Ressurreição. Sei agora que o importante não é se eu acredito na Ressurreição, mas se a Ressurreição acredita em mim.
Durante a vida inteira, lutei contra um incêndio que devora a alma, onde as chamas lançam suas línguas de flagelo como se estivessem dentro de um bosque e o bosque fosse uma imensa lareira atiçada por um fantasma. Guardava o túmulo para que nada escapasse do controle, para que a vida continuasse sendo essa mornidão de previsibilidade. Fechava a porta com uma pesada rocha — e, no entanto, o impossível aconteceu.
Eis que a cela se dissolve e me vejo no bom lugar. Caminho por entre as árvores e as flores, piso no chão de cascalho, ouço os passarinhos e um cão que late muito distante. No bosque da Ressurreição não há política, não há poder, não há conflito. Ninguém espera a minha réplica ou o meu parecer. Existe aqui uma enigmática harmonia entre o ser e as coisas. As palavras infelizes que pronunciei transformam-se em água, e a água desce para o córrego, e o córrego desce para o mar, adeus. As ofensas, as raivas e os medos pulverizam-se como dentes-de-leão soprados pelo vento do Espírito.
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Neste país da saudade, reencontro os moradores do meu coração. Vejo Paulo lendo um livro na sala; Aracy dando uma aula sobre a Grécia antiga; Vó Maria rezando baixinho no quarto; Rosângela na noite chuvosa em que dissemos sim; Pedro na incubadora da maternidade. Ah, amada solidão silenciosa da presença! Compreendo, enfim, que tudo isso que nós tanto amamos — e que chamamos de vida — é apenas a consequência de ter nascido para a eternidade.
Lançando os olhos para além do horizonte visível, contemplo o Empíreo. Existe esse fogo que purga todos os fogos, essa partícula atômica que contém o universo. Diante da magnitude do Reino, retiro o capacete de soldado, ajoelho-me e rezo. O homem que eu confundira com o jardineiro aproxima-se. Ele não é um salteador, nem um preso célebre, nem um líder revolucionário cujo destino se perdeu na noite dos tempos. Ele é o vencedor do deserto e do pretório.
Ao ver Seu rosto, sinto o estranho marcapasso dentro do peito: é a Ressurreição transformada em segundo. A estrela mínima em mim torna-se um sol. Olho para o Jardineiro e, num sussurro de quem finalmente atravessou o breu, digo apenas:
— Meu Senhor e meu Deus!
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