Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Paulo Briguet

Paulo Briguet

“O Paulo Briguet é o Rubem Braga da presente geração. Não percam nunca as crônicas dele.” (Olavo de Carvalho, filósofo e escritor)

Homenagem

Quatro anos sem Olavo de Carvalho, o profeta da tragédia brasileira

Olavo de Carvalho ensina o cronista de sete leitores a atirar, em novembro de 2015. (Foto: Acervo pessoal/Paulo Briguet)

Ouça este conteúdo

Há quatro anos, o Brasil perdia Olavo de Carvalho. Há 28 anos, eu o ganhava. É impossível não imaginar o que ele estaria dizendo sobre a atual situação do país e o escândalo interminável do Regime PT-STF (algo que, diga-se, ele anteviu como um profeta).

Que falta o Olavo faz! Imaginem seus comentários e análises sobre Lula, Moraes, Toffoli, Lewandowski, Vorcaro!

Mas nunca entenderemos a importância do Olavo limitando-nos às suas análises políticas, sem conhecer a grandeza de sua personalidade. É sobre essa personalidade que vou falar hoje. Mais do que nunca, precisamos recordá-la — para assim fortalecer as nossas.

O velhinho no restaurante

Em 2017, depois de fazer uma palestra em Harvard, Olavo foi jantar com familiares e amigos em um pequeno restaurante de frutos do mar, no mercado central de Boston. Lá foram atendidos por um velhinho grego que era, ao mesmo tempo, dono e garçom da casa. Como uma equipe de TV pediu para fazer uma entrevista com Olavo no local, o proprietário do restaurante percebeu que se tratava de uma pessoa “famosa”.

Depois da entrevista, o velhinho grego se aproximou de Olavo e, com muita discrição, perguntou, em inglês, quem ele era. Olavo respondeu com a habitual gentileza e convidou o proprietário a sentar-se. O rosto do homem se encheu de surpresa:
— Olavo de Carvalho, o filósofo?
— Sim, sou eu mesmo.

Então o velhinho começou a chorar.

Na juventude, o velhinho havia estudado filosofia. Tempos atrás, ele recebera pela internet um artigo sobre religião, traduzido para o inglês, e o havia dado para o filho ler. Após a leitura do texto, o moço decidiu voltar à Igreja, da qual estava afastado havia muito tempo. O dono do restaurante fizera questão de guardar o nome daquele autor que tanto bem fizera ao seu filho: era Olavo de Carvalho, “brazilian philosopher and writer”. E agora o homem estava ali, diante dele.

Um menino na biblioteca

Nos anos 70, meu pai me levava todos os fins de semana para a AABB, um clube de campo localizado na Estrada de Itapecerica da Serra, em São Paulo. Um dos meus passatempos preferidos nesses dias — eu devia ter o quê? oito, nove anos? — era ir até a pequena biblioteca do clube. Ali, um livro grossíssimo me chamava a atenção com seu nome misterioso: A Divina Comédia. Mas nunca tive coragem de abri-lo.

Como tinha grande interesse por assuntos astronômicos e sobrenaturais, preferia ler a coleção da Revista Planeta. Foi assim, ainda na infância, que tive meu primeiro contato com os escritos de um homem chamado Olavo de Carvalho. E os textos, já naquela época, eram fascinantes aos olhos de um menino. É a primeira vez que conto essa história.

VEJA TAMBÉM:

Um jovem perdido

No final dos anos 90, eu era um homem completamente perdido. Ateu, comunista, mulherengo, bêbado, trabalhava como editor de primeira página em um jornal diário e diretor do Sindicato dos Jornalistas de Londrina. Dentro de mim, carregava um ódio intenso por todos aqueles que se opunham às minhas ideias políticas. Sonhava com uma revolução em que todos os inimigos da humanidade seriam destruídos sem compaixão.

Fiel a essa loucura, cheguei a atacar e caluniar um amigo querido, um poeta a quem muito admirava, por razões políticas, e o remorso por esse crime frequentava meus pesadelos. As únicas coisas que ainda faziam sentido em minha vida eram o amor pela família e a literatura.

Minha rotina era mais ou menos assim: eu entrava no jornal às cinco da tarde, fechava a edição por volta das onze e passava a madrugada em bares. De manhã, moído de ressaca, ia para a sede do sindicato, onde almoçava e esperava o horário de entrar no jornal. Nos fins de semana, acordava ao meio-dia e ia beber em um bar das redondezas, de onde saía para outros bares até perder a consciência e voltar para casa graças à bondade de amigos ou estranhos.

Numa certa noite de sexta-feira, entrei no bar e deparei com uma cena insólita. Um homem dormia à mesa, diante de uma porção de batatas fritas decorada com uma folha de alface e de um copo de chope totalmente cheio. Dormia com a boca aberta e os olhos semifechados. Tinha as mãos cruzadas sobre o peito, como um cadáver. Aquele homem era eu.

Na manhã seguinte, acordei ao meio-dia, numa ressaca terrível, peguei uma revista que havia comprado no dia anterior e fui para o bar perto da minha casa. Abri a revista na página do artigo “Sem testemunhas”, assinado por Olavo de Carvalho. Ele contava uma história sobre a infância do escritor, músico e teólogo Albert Schweitzer.

Em seu livro de memórias, Schweitzer lembra-se de um episódio de quando estava com três anos de idade: picado por uma abelha, o menino começou a chorar e foi acudido por familiares e vizinhos. Em certo instante, o pequeno Albert percebeu que já não estava sentindo dor, mas continuava chorando apenas para continuar atraindo a atenção das pessoas. Olavo diz:

“Ao relatar o caso, Schweitzer era um septuagenário. Tinha atrás de si uma vida realizada, uma grande vida de artista, de médico, de filósofo, de alma cristã devotada ao socorro dos pobres e doentes. Mas ainda sentia a vergonha dessa primeira trapaça. Esse sentimento atravessara os anos, no fundo da memória, dando-lhe repuxões na consciência a cada nova tentação de autoengano. Notem que, em volta, ninguém tinha percebido nada. Só o menino Schweitzer soube da sua vergonha; só ele teve de prestar contas de seu ato ante sua consciência e seu Deus. Estou persuadido de que as vivências desse tipo — os atos sem testemunha, como costumo chamá-los — são a única base possível sobre a qual um homem pode desenvolver uma consciência moral autêntica, rigorosa e autônoma. Só aquele que, na solidão, sabe ser rigoroso e justo consigo mesmo — e contra si mesmo — é capaz de julgar os outros com justiça, em vez de se deixar levar pelos gritos da multidão, pelos estereótipos da propaganda, pelo interesse próprio disfarçado em belos pretextos morais.”

Aquelas palavras caíram sobre mim com a força de uma tempestade — e creio que essa tempestade não passou até hoje. Aos 30 anos de idade, corroído pelo vício e devastado pelo ódio, descobri que toda a minha vida era uma grande farsa, uma negação peremptória da realidade. Apoiando-se em ilusões criminosas, a minha alma estava sendo sugada pela mentira. Eu era um escravo, e meu senhor era o Gênio Maligno de Descartes, aquele que nega a existência ontológica da verdade.

Na semana seguinte, passei todas as manhãs e tardes lendo os artigos de Olavo de Carvalho. Lia-os escondido, no velho computador Pentium do Sindicato dos Jornalistas.

Se algum de meus companheiros me flagrasse lendo aquilo, eu provavelmente seria expulso da entidade e me tornaria persona non grata

Naquela semana, também escondido, fui até uma pequena livraria que não existe mais — chamada “A Rosa do Povo”, vejam que ironia — e comprei O Jardim das Aflições, na velha edição da Diadorim. E li, com espanto, a descrição da noite extática em que Olavo escreveu as primeiras cem páginas de sua obra-prima.

Minha vida e minha morte nunca mais seriam as mesmas.

VEJA TAMBÉM:

Um homem renascido

Cerca de 15 anos depois, conheci pessoalmente Olavo de Carvalho. Em junho de 2013, estive com ele em Richmond, no 1º Encontro de Escritores na Virgínia. Naquela ocasião, e em várias outras, pude agradecer por todo o bem que ele e sua obra me fizeram.

Acredito sinceramente que, não fosse o Olavo, eu não estaria vivo hoje; na melhor das hipóteses, seria um desses mortos-vivos que encontramos todos os dias na vida brasileira. Talvez eu estivesse entre aqueles que hoje aplaudem o governo bandido, a psicopatia do Imperador Calvo, a prisão de inocentes e a desgraça e a morte dos adversários.

Graças ao Olavo, voltei para a Igreja, confessei e confesso os meus pecados, compreendi a importância da vida intelectual, aprendi que o amor ao próximo (base da vida social) e o amor à verdade (base da vida intelectual) estão inextricavelmente ligados, busco, a todo momento, realizar a unidade do conhecimento na unidade da consciência e estou convicto de que o perdão é a lei estrutural do universo.

Olavo recebeu os sacramentos antes de partir. Tenho certeza de que Deus o deixou entrar no Céu, não pela porta de trás, como ele costumava brincar, mas pela entrada dos sábios e dos mártires.

Em seu livro O Futuro do Pensamento Brasileiro, ele homenageia as quatro grandes fontes das quais emana a inteligência brasileira sob a perspectiva universal: Gilberto Freyre, Miguel Reale, Otto Maria Carpeaux e Mário Ferreira dos Santos. Olavo passa a ser o quinto elemento dessa plêiade.

Obrigado, Olavo. Você ajudou a salvar minha vida — e a de muita gente. É por isso que você faz tanta falta agora.

Canal Briguet Sem Medo: Acesse a comunidade no Telegram e receba conteúdos exclusivos. Link: https://t.me/briguetsemmedo

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.