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Na última terça-feira, 7 de julho, a Igreja Católica celebrou a memória dos mártires da família Ulma. Essa é uma história que sempre vale a pena relembrar.
Era 24 de março de 1944, uma sexta-feira da Quaresma. Por volta das 5 horas da manhã, quando ainda estava escuro, um grupo de policiais nacional-socialistas liderado pelo tenente Eilert Dieken chegou à casa da família Ulma, situada nos arredores da aldeia de Markowa, próxima à fronteira entre a Polônia e a Ucrânia. Os nazistas haviam recebido a denúncia de que Józef e Wiktoria Ulma, um casal de agricultores católicos, estavam escondendo duas famílias judias em sua residência. Desde 1942, abrigar judeus era considerado um crime punível com a morte na Polônia ocupada pelos nazistas.
A denúncia, feita por um morador local simpatizante dos nazistas, era verdadeira. Havia oito judeus no sótão da casa dos Ulma: Saul Goldman e seus quatro filhos adultos; Lea Didner e sua filha Reshla, de apenas 5 anos; e Golda Grünfeld. Ao invadirem a pequena residência de apenas dois cômodos, os alemães começaram a atirar em direção ao teto. O sangue das vítimas judias escorreu pelas frestas de madeira e manchou uma fotografia das mulheres judias, na qual se via a Estrela de Davi. Essa imagem tornou-se uma relíquia histórica do que os teólogos chamam de “martírio judaico-cristão”.
O tenente Dieken ordenou, então, que fossem chamados alguns vizinhos dos Ulma. Tendo Józef e Wiktoria sob a mira de sua arma, o oficial disse:
— Vejam o que acontece com quem esconde judeus.
Imediatamente, Józef e Wiktoria foram mortos diante de seus filhos. As crianças começaram a gritar e chorar. Os outros guardas nazistas mataram, um a um, os filhos do casal: Stanislawa (7 anos), Barbara (6 anos), Wladyslaw (5 anos), Franciszka (4 anos), Antoni (3 anos) e Maria (1 ano). Naquela manhã, morreram, ao todo, 17 pessoas.
Wiktoria estava grávida de sete meses. Diante do horror iminente da execução, ela entrou em trabalho de parto prematuro, motivado pelo medo. Quando os corpos foram posteriormente exumados da vala comum, testemunhas constataram que a cabeça e parte do peito do bebê já haviam saído do ventre materno. A criança nasceu no exato momento do massacre.
Em sinal de reconhecimento ao heroísmo do casal, o governo de Israel incluiu-os, em 1995, na lista dos Justos Entre as Nações, que reúne pessoas de várias nacionalidades que defenderam os judeus durante as perseguições nazistas. Em 2016, foi inaugurado em Markowa um museu dedicado aos poloneses que salvaram judeus durante a Segunda Guerra, que leva o nome da família Ulma e é visitado anualmente por milhares de pessoas.
O ápice do reconhecimento de sua santidade ocorreu no dia 10 de setembro de 2023, em Markowa, quando a Igreja Católica formalizou a beatificação de toda a família Ulma.
Foi um processo canônico sem precedentes: pela primeira vez na história, um casal e todos os seus filhos foram elevados juntos às honras dos altares — incluindo o sétimo filho, o bebê nascido no martírio
O Dicastério para as Causas dos Santos determinou que a criança, mesmo sem ter recebido o batismo pelas águas ou um nome civil, foi purificada por sua morte com Cristo, recebendo o chamado "Batismo de Sangue". O Prefeito do Dicastério, Cardeal Marcello Semeraro, reiterou que o caso se assemelha ao massacre dos Santos Inocentes por Herodes, descrito no Evangelho.
Conhecidos como “os samaritanos de Markowa”, os Ulma construíram suas vidas sobre uma base sólida. Entre os pertences preservados da família, encontrou-se a Bíblia do casal, na qual a parábola do Bom Samaritano estava sublinhada em vermelho e, à margem da página, havia uma anotação manuscrita simples e definitiva: “Sim”. Józef, que era um fotógrafo amador talentoso e ativo na comunidade, e Wiktoria já haviam aceitado sua vocação muito antes de os soldados baterem à porta.
Como sempre acontece nos regimes totalitários, o pior dos crimes consiste em ajudar ou proteger aqueles que o governo considera “inimigos do povo”. Mesmo assim, o casal de agricultores poloneses decidiu praticar uma caridade que não conhece limites, capaz de abalar até o mais duro dos corações.
Para perpetuar a memória desta Igreja doméstica, a Santa Sé determinou que a festa litúrgica da Família Ulma será celebrada anualmente no dia 7 de julho. A escolha da data carrega um simbolismo profundo: o dia 7 de julho marca o aniversário de matrimônio de Józef e Wiktoria, exaltando o amor conjugal e a fidelidade familiar como o solo sagrado onde floresceu o martírio.
Beatos Samaritanos de Markowa, rogai por nós!
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Paulo Briguet é escritor, jornalista, palestrante e professor de literatura. Trabalhou em diversos jornais, revistas e assessorias de comunicação no Paraná. Foi colunista da Folha de Londrina e editor-chefe do jornal Brasil Sem Medo. Publicou diversos livros, dentre eles: “Nossa Senhora dos Ateus”, "Coração de mãe", “O Mínimo sobre Distopias” e “Diário de Moby Dick”. Já escreveu mais de 2 mil crônicas. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



