
Ouça este conteúdo
Paulo, um padre esteve aqui. Eu informei que você havia saído, mas ele insistiu em deixar recado.
Ele disse que o inferno existe e não é um lugar que tem fogo: é um lugar que não tem perdão.
Ajeitando o hábito, ele disse que os amigos de verdade continuam amigos mesmo na hora da divergência. Se um amigo o insulta por discordar de você, nunca foi amigo.
Cofiou a barba, o padre. Tinha um olhar profundamente bondoso — um olhar que vem das profundezas da alma. Mostrou a mão ferida e exalou um odor de rosas como eu nunca havia experimentado antes. Era estranho, o padre. Estranho como as coisas mais importantes da vida.
Paulo, o padre disse que é preciso continuar rezando e trabalhando, porque o trabalho é tão importante quanto a oração. Melhor ainda: o trabalho é uma forma de oração.
Paulo, o padre disse que é preciso aceitar o sofrimento e a dor. Que é preciso confiar na vida eterna, beber as palavras do Evangelho e amar sempre, mesmo quando se critica o outro.
Quando for necessário criticar alguém, Paulo, vá em frente; mas coloque sempre umas gotas de doçura e compaixão — nunca de veneno
Paulo, o padre disse para você não se preocupar com as coisas que não têm a mínima importância. Disse que Deus não tem rede social, mas que o diabo possui inúmeros perfis e seguidores. O inferno, por sinal, é um tipo de rede social sem amigos e sem perdão.
Paulo, o padre disse que andou lendo os poemas que Ungaretti escreveu na guerra e os que Adélia escreveu às duas da tarde em Divinópolis. Disse que passeou com você pelo calçadão da UEL e visitou a república de estudantes na Rua Humaitá, 143, mas você não o reconheceu.
Ele viu as flores amarelas caindo e a garota de olhos tristes enquanto você discursava numa assembleia geral do DCE, lá no Cine Teatro Ouro Verde, em 1990. Ele viu você erguer o dedo, Paulo. Ele estava com você no quartinho dos fundos, lendo Eliot e ouvindo Schubert.
Paulo, o padre disse que o maior milagre, diante de toda a podridão do mundo, é que a santidade continua sendo possível. Aliás, de que adianta ganhar as eleições, as discussões, o poder — e perder a alma?
E mais não disse, Paulo, porque saiu à procura de outros pecadores. Só deixou este nome: Padre Pio.
Canal Briguet Sem Medo: Acesse a comunidade no Telegram e receba conteúdos exclusivos.

Paulo Briguet é escritor, jornalista, palestrante e professor de literatura. Trabalhou em diversos jornais, revistas e assessorias de comunicação no Paraná. Foi colunista da Folha de Londrina e editor-chefe do jornal Brasil Sem Medo. Publicou diversos livros, dentre eles: “Nossa Senhora dos Ateus”, "Coração de mãe", “O Mínimo sobre Distopias” e “Diário de Moby Dick”. Já escreveu mais de 2 mil crônicas. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



