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“As ideologias não estão preocupadas em encontrar e expressar a verdade por seu valor de verdade. O que lhes interessa é confeccionar uma verdade utilizável. Em outras palavras, ‘a verdade’ não é, para o ideólogo, senão um instrumento manipulador, um dispositivo apto a servir, funcionalmente, um interesse político determinado e um projeto de ação.” (Andrei Pleșu)
Uso o tênis Chuck Taylor All Star desde que me entendo por gente. O clássico da Converse entrou na minha vida por meio dos meus irmãos mais velhos, muito ligados à cultura negra americana que, através do basquete e do hip hop, se apropriou da marca de maneira quase exclusiva. É só procurar, por exemplo, fotos do lendário pivo Wilt Chamberlain, nos anos 1960, ou do rapper Snoop Dogg que essa associação ficará evidente. Sem esquecer dos roqueiros, que também são bastante identificados com o modelo.
Nos anos 1980 a Converse era proibida de operar no Brasil por causa de uma patacoada comercial bem ao estilo brasileiro: em 1979, aproveitando que a Converse ainda não operava oficialmente no país, e lá fora já fazia um sucesso estrondoso, dois empresários brasileiros de Franca (SP) foram ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) e registraram legalmente a marca “All Star” e o logotipo da estrela em nome de sua própria empresa. Por isso, se a Converse americana tentasse vender o seu icônico modelo no mercado brasileiro, estaria cometendo crime de violação de marca contra a empresa brasileira. No Brasil, a imitação se chamava “America’s n.º 1” – e era feia, sobretudo pela diferença no bico, tão característica no original. Meus irmãos e eu nunca tivemos um desses. Quando alguém conhecido viajava para os Estados Unidos, pedíamos encarecidamente que trouxesse para nós.
Jamais peça desculpas a canceladores por algo que não é real
Só em 2006, após uma longa batalha judicial, a Converse conseguiu, finalmente, vender seu icônico modelo no Brasil, fabricado pela Coopershoes. Foi uma alegria encontrar Converse nas lojas brasileiras, naquela variedade de cores tão característica, e lembro-me como se fosse hoje de quando entrei numa loja e comprei três pares de uma vez, em couro. Mas que o leitor que não sabia fique sabendo: custavam um quarto do valor que custam hoje, após a marca passar por um processo de gourmetização. Atualmente, tenho sete pares: os três primeiros, que têm praticamente 20 anos, e os demais, comprados em gloriosas promoções.
Dito isso, o leitor deve ter uma ideia do que pensei ao ver toda a gritaria em torno de uma propaganda da marca, acusada de ser racista e de fazer alusão à milícia norte-americana Ku Klux Klan (KKK). Vi vídeos de pessoas realmente emocionadas, chorando, falando em genocídio da população negra e dizendo que, atualmente, há um aumento de enforcamento de jovens negros nos EUA. E não estou exagerando – eles estão. A imprensa brasileira, obviamente, comprou pelo valor de face a sandice; supostos especialistas em semiótica afirmaram, em suas “análises”, que a empresa fez tudo de caso pensado, a fim de passar um recado; influenciadores e anônimos prometeram boicotar a marca. A grita foi tão insana que a Converse tirou a propaganda do ar, apagou as fotos e pediu desculpas, vestindo a carapuça de forma humilhante:
“Pedimos desculpas. Entendemos por que essa imagem é profundamente perturbadora e reconhecemos que erramos. Nós a removemos de nossos canais e estamos trabalhando para que ela seja retirada de todos os lugares onde apareceu. Isso não deveria ter acontecido e faremos melhor.”
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Acusou o golpe e fez aquilo que jamais deve ser feito na internet – pois a emenda sempre sai pior que o soneto –: se desculpar. O cancelamento, que, num primeiro momento, parece o fim do mundo para a vítima não recua até que, naturalmente, seja substituído por um novo factoide ou, naturalmente, pare de aparecer no feed dos adictos em redes sociais – umas 72 horas. Jamais peça desculpas a canceladores por algo que não é real. Como disse sabiamente David Chappelle num de seus especiais de comédia, ao dizerem que ele havia sido cancelado: “o twitter não é um lugar real”. Ou Rue Bennett, personagem de Zendaya em Euphoria: “Isso é o estranho da internet: são dez pessoas e parece que é todo mundo”.
Agora, vamos aos fatos conhecidos – porque a intenções da empresa só ela sabe. Primeiro: a foto original foi cortada, aumentada e escurecida a fim de causar a impressão que seus acusadores queriam. A imagem original, que conta com a participação da cantora sul-coreana Karina – embaixadora da marca –, do grupo de k-pop Aespa, exibe a jovem em pé, com uma saia branca longa, no centro de uma estrela (símbolo da Converse) de luz, com uma das pontas subindo por sua perna, causando um efeito de sombra. Na mão esquerda ela segura um par do belíssimo Converse Chuck 70 X pela parte de trás do cano alto. Em volta dela, outros três pares do mesmo modelo, e ela mesma calça um. Os canceladores escureceram a foto original a fim de que o braço que segura o par de tênis ficasse na penumbra e o par de tênis parecesse – pelo menos na mente doentia dessas pessoas – ser de alguém enforcado. E que a luz da estrela na perna da artista parecesse um capuz da KKK.
Outro fato absolutamente ignorado pela estupidez sentimentalista é que essa campanha, aparentemente destinada ao mercado global, com forte presença no mercado asiático e protagonizada por uma estrela sul-coreana, não permite uma interpretação clara de que a peça tenha sido concebida a fim de enviar uma mensagem subliminar ao público americano, identificado com os elementos da acusação. Isso é ridículo.
Toda essa histeria coletiva é uma insanidade ideológica de quem já perdeu o contato com a realidade
Já a bolha à direita da internet tem argumentado que a campanha não poderia ser racista, uma vez que o Chief Marketing Officer (CMO) da Converse seria Rodney Rambo, um homem negro; e que a vice-presidente global de Footwear & Design da marca é Chavon Webster, uma mulher negra. O que, inclusive, rebateria o argumento de que o enfraquecimento das iniciativas de Diversidade e Inclusão nos EUA sejam a causa de problemas desse tipo. Mas Rambo deixou a empresa em maio desse ano. E, embora Webster continue lá, campanhas publicitárias parecem não passar por sua responsabilidade direta.
Mas isso pouco importa. O fato é que toda essa histeria coletiva é uma insanidade ideológica de quem já perdeu o contato com a realidade. Esse antirracismo radical, que o linguista John McWhorter chama de “Terceira Onda Antirracista” em seu livro Racismo Woke,
“explora o medo da sociedade moderna de ser considerada racista para promulgar não apenas o antirracista, mas um tipo de reprogramação cultural obsessivo, egoísta, totalitário e absolutamente desnecessário. É possível perdoar quem pense que esse teatrinho é uma continuação dos esforços do movimento dos Direitos Civis de outrora, o único tipo de antirracismo que poderia existir. Seus adeptos, agora situados nas mais prestigiosas e influentes instituições do planeta, pregam com uma indignação tão desdenhosa que, em seus melhores dias, podem parecer muito ʻcorretosʼ.”
Uma atitude religiosa e intolerante de correção política que precisa, urgentemente, ser defenestrada do debate público e da sociedade, para que possamos usar os nossos pares de All Star em paz.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Paulo Cruz é professor e palestrante, formado em Filosofia e mestre em Ciências da Religião. Em 2017, foi um dos agraciados com a Ordem do Mérito Cultural, honraria concedida pelo Ministério da Cultura a nomes que se destacaram na produção/divulgação cultural, e em 2022, com o podcast Noir, foi vencedor do Prêmio Governo do Estado de São Paulo para as Artes, na categoria Cultura Urbana. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



