
Ouça este conteúdo
“E Jesus, respondendo, disse-lhes: Acautelai-vos, que ninguém vos engane; porque muitos virão em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo; e enganarão a muitos. E ouvireis de guerras e de rumores de guerras; olhai, não vos assusteis, porque é mister que isso tudo aconteça, mas ainda não é o fim.” (Mateus 24,4-6)
Em meus quase 30 anos de vida como evangélico, nunca tinha visto os crentes tão em evidência como na última década. Também, pudera! Os evangélicos passaram de 9,1%, no início dos anos 1990, para 26,9% da população brasileira acima de 10 anos, em 2022 (segundo o último Censo). E continuam crescendo. Ou seja, não podemos mais ser ignorados.
Mais do que isso: segundo pesquisa de Simone R. Bohn (de 2004, mas as coisas não devem ter se alterado tanto), entre as populações mais pobres (que recebem até dois salários mínimos) os evangélicos são 67,7%. Entre pentecostais, eram 70,3%, e não pentecostais, 58,3%. E, se aprofundarmos por grupo étnico, entre os pretos, 30% são evangélicos; entre os pardos, 29,3%. Já entre pretos e pardos, apenas cerca de 1,1% declara praticar umbanda, candomblé ou outras religiões de matriz africana. Ou seja, como afirmou o pastor batista Marco Davi de Oliveira, em seu livro publicado em 2004, o pentecostalismo é a religião mais negra do Brasil.
Os evangélicos nunca foram majoritariamente petistas; mas não havia uma rejeição tão escancarada à esquerda como há hoje
Curiosamente, o PT viu esse público se esvair pelo vão de seus dedos ideológicos com a ascensão de Bolsonaro. Não que antes os evangélicos fossem majoritariamente petistas; nunca foram. Mas não havia uma rejeição tão escancarada à esquerda como há hoje, pois houve um surto de identificação atoleimada desse grupo para com a direita, sobretudo com o pânico moral em relação à esquerda disseminado a partir, mais ou menos, de 2015. Eu mesmo escrevi sobre isso num artigo, aqui, nesta Gazeta do Povo:
“[...] Compreendo perfeitamente a opção, pois, pelo menos, a considero legítima e mais afim não propriamente ao espírito do evangelho, mas a uma espécie de moralismo (no sentido de uma moralidade superficial) que pode provir dele e que conflita com o que a esquerda defende. Desde o conceito de família, até a relação com as drogas, com o aborto, a leniência em relação à criminalidade, até a sua profunda relação com uma espécie de ateísmo programático [...], são coisas condenáveis por qualquer cristão que seja fiel à Bíblia. Sem contar que o materialismo, que está na base do pensamento progressista, é antagônico à perspectiva cristã.”
Cristãos sempre foram reticentes à esquerda. Em 2002, por exemplo, Garotinho, que é evangélico (daquele jeito, mas é) foi o favorito no primeiro turno; mas Lula recebeu mais de 60% do voto evangélico no segundo turno, contra José Serra. Mas vejam: em 2010, Serra foi melhor entre evangélicos do que Dilma. Marina Silva corria por fora, com uma votação não desprezível entre esse público. Ou seja, a preferência pela esquerda sempre foi cautelosa até 2018, quando o caldo entornou e assustou a esquerda – e confesso que a mim também.
Atualmente, 52% dos evangélicos se dizem de direita ou centro-direita, contra 30% da esquerda e centro-esquerda, segundo pesquisa do Datafolha de 2026. Flávio Bolsonaro tem 62% da preferência dos evangélicos, enquanto Lula tem 29%. Mesmo após os escândalos relacionados ao filme Dark Horse, sobre a vida de Jair Bolsonaro, os evangélicos parecem não estar mais sensíveis a esse tipo de pecado; nem com o escândalo das rachadinhas, empurrado para debaixo do tapete, na cara dura, pelo STF – na figura de Dias Toffoli, aquele do acalorado abraço em Jair num jantar.
Diante de tudo isso, a esquerda está tentando não só compreender, mas se aproximar dos evangélicos. No lançamento da campanha de Lula, em 16 de agosto, Janja, juntamente com o indefectível pastor petista Kleber Lucas, cantaram o jingle de Lula em clima de música gospel, num tiro no pé que desagradou até esquerdistas como Gregório Duvivier. Janja é uma figura desaprovada por mais da metade dos brasileiros, não tem absolutamente nenhuma relação com o público evangélico e o próprio Kleber Lucas já foi deixado de lado, mesmo sendo autor de indiscutíveis hits ainda cantados em muitas igrejas.
Recentemente, a cantora Zélia Duncan tentou orientar o seu grupo político após a leitura de Povo de Deus, de Juliano Spyer, um antropólogo espírita que se especializou nos evangélicos. Ela criticou o preconceito da elite progressista em relação a esse grupo, reconheceu que os evangélicos não são um bloco homogêneo e destacou a importância social da igreja nas periferias, onde o Estado é ausente. Disse que a esquerda e a elite intelectual precisam abandonar a arrogância e os estereótipos para compreender a complexidade e a realidade legítima desse movimento no Brasil. Sabe o que isso adiantou? Nada.
Minha sincera oração é para que, tão logo quanto possível, Deus liberte a sua Igreja dessa manipulação e dessas alianças espúrias, pecaminosas, à direita e à esquerda
Já escrevi muitas vezes nesta coluna a respeito de minha total desaprovação dessa união apostática da igreja evangélica – e posso generalizar porque é generalizado mesmo – com Bolsonaro. A Igreja é de Cristo e os evangélicos jamais deveriam ter trocado sua fé na Providência por um protoparaíso terreno prometido por um homem – ou mesmo por uma ideologia, pois o conservadorismo, nesses termos, é uma ideologia. E vejo essa união como um sinal de Deus para a Igreja, sinal que, a seu tempo, se manifestará, como tantas vezes ocorreu na Bíblia – como em 1 Samuel 8, quando o povo insistiu em ter um rei “como os outros povos”.
A esquerda, desesperada, tenta virar o jogo dessa manipulação política, pois perder os evangélicos é, como visto acima, perder os pobres, seu eleitorado mais fiel – não por afinidade ideológica, mas por causa da dependência que, estrategicamente, criaram dos programas sociais, mantendo as pessoas numa pobreza controlada. Não está conseguindo, apesar da vantagem de Lula nas intenções de voto. Mas creio que ela já entendeu algo muito simples: no dia que as regiões Norte (a mais evangélica do país) e Nordeste (a menos evangélica, mas que está crescendo) se emanciparem economicamente e não mais precisarem dos benefícios sociais, o PT simplesmente desaparecerá. Amém.
Entretanto, minha sincera oração é para que, tão logo quanto possível, Deus liberte a sua Igreja dessa manipulação e dessas alianças espúrias, pecaminosas, à direita e à esquerda. Não que evangélicos não possam ter opiniões políticas, escolher suas afiliações de ideias, participar do debate político, ser representantes de seus irmãos em cargos eletivos ou mesmo criar bancadas para se defenderem do assédio estatal. Tudo isso é legítimo. Mas, que voltemos a entender que “esse mundo jaz no maligno” (1 João 5,19) e que qualquer tentativa de torná-lo melhor deve ser feita com prudência e com a certeza de que, provavelmente, falharemos. E maranata!
Metodologia da pesquisa citada na coluna
Foram ouvidos 2.058 eleitores em todo o país entre os dias 18 e 19 de agosto; margem de erro de 2 pontos porcentuais, para mais ou para menos, com intervalo de confiança de 95%. Registro no TSE: BR-04496/2026
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Paulo Cruz é professor e palestrante, formado em Filosofia e mestre em Ciências da Religião. Em 2017, foi um dos agraciados com a Ordem do Mérito Cultural, honraria concedida pelo Ministério da Cultura a nomes que se destacaram na produção/divulgação cultural, e em 2022, com o podcast Noir, foi vencedor do Prêmio Governo do Estado de São Paulo para as Artes, na categoria Cultura Urbana. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



