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Liberdade, para quê?
| Foto: Divulgação

“Porquanto para o homem e para a sociedade humana nunca houve nada mais insuportável do que a liberdade! (…) Não há preocupação mais constante e torturante para o homem do que, estando livre, encontrar depressa a quem sujeitar-se.” (Fiódor Dostoiévski, Os Irmãos Karamázov)

Caríssimo leitor, o título desse artigo é homônimo ao do ensaio sobre o qual tecerei algumas pequenas linhas, esperando, com isso, estimular-te a lê-lo. Fiz questão de dar o mesmo título, pois é perfeito. Trata-se de uma crítica severa, contumaz, mas cheia de compaixão ao espírito da modernidade, que só poderia ter sido perpetrada pelo correspondente francês – em qualidade e profundidade – do autor russo citado em epígrafe: Georges Bernanos.

A É Realizações, editora que tem feito um trabalho civilizador ao publicar as obras do soberbo romancista, acaba de lançar um livro com as conferências que Bernanos proferiu após o término da Segunda Guerra Mundial, em seu retorno ao país natal. Liberdade, para quê? é composto de cinco conferências transcritas, carregadas da verve combativa de Bernanos à favor daquilo que T.S. Eliot chamava de coisas permanentes. O ensaio homônimo é um verdadeiro tour de force contra as ideologias tanto totalitárias quanto liberais – que, para ele, também são uma espécie de totalitarismo. É um libelo em favor da liberdade interior e de um processo que ele ousou chamar de reespiritualização do homem.

Bernanos, que exilou-se com sua família no Brasil entre os anos de 1938 e 1945, morando em cidades como Barbacena e Pirapora, em Minas Gerais, e fazendo amigos entre escritores brasileiros como Alceu Amoroso Lima, Gustavo Corção e Jorge de Lima – fatos relatados em detalhes num livro interessantíssimo, também publicado pela É –, havia retornado ao seu país após um pedido pessoal de Charles De Gaulle; mas logo se decepcionou com os descaminhos que a França tomara sob o comando do socialista Félix Gouin, que assumira o comando do país em 1946. Exilou-se na Tunísia, lá adoecendo e retornando à França para morrer, em 5 de julho de 1948.

A liberdade utilitária, baseada no cientificismo positivista, que advoga uma liberdade como mero pressuposto socioeconômico, não resultaria em liberdade, mas numa outra espécie de ditadura

O título da conferência, vale salientar, Bernanos copiou de outro, digamos, autor. Ele explica: “Liberdade, para quê? É um bom título, não é preciso comentar, e admito isso ainda mais livremente por não ter sido eu que o encontrei. Liberdade para quê? é, como vocês sabem, uma célebre frase de Lênin, e ela exprima, com um brilho e como que com uma lucidez terrível, aquela categoria de desinteresse cínico pela liberdade que já corrompeu tantas consciências”. E arremata: “A pior ameaça para a liberdade não é que deixemos que alguém a tire de nós – porque quem deixou que ela fosse tirada ainda pode reconquistá-la –, mas sim que desaprendamos a amá-la, ou que não a compreendamos mais”.

E aí está dado o mote: o desamor pela liberdade que, segundo ele, não só a França, mas a humanidade estava vivendo no momento, ainda que em nome da democracia. Diz ele: “A expressão de Lênin tornou-se o slogan do Estado Moderno, quer ele se diga democrático, quer não, porque a palavra ‘democracia’ já foi tão usada que perdeu todo o significado, sendo provavelmente a palavra mais prostituída de todas as línguas. Em quase todos os países, a democracia não é, em primeiro lugar e antes de tudo, uma ditadura econômica?” E aqui tomei o primeiro choque com essa leitura instigante. Bernanos, como cristão conservador que era, tinha uma crença profunda na liberdade, mas não numa liberdade meramente material, baseada nos princípios da Revolução Francesa; sua visão de liberdade estava calcada na concepção cristã – que, inclusive, eu mesmo tratei em meu primeiro artigo para esta coluna. Não se trata de uma visão utilitarista da liberdade, mas de uma concepção profunda que ecoa na frase de Jesus a seus discípulos: “se o Filho, pois, vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8,36). Qualquer coisa fora disso é servidão.

C.S. Lewis vai ao encontro de Bernanos em sua obra mais importante, A abolição do homem, pois essa liberdade utilitária, baseada no cientificismo positivista, que advoga uma liberdade como mero pressuposto socioeconômico, não resultaria em liberdade, mas numa outra espécie de ditadura: “pois o poder do Homem para fazer de si mesmo o que bem quiser significa, conforme vimos, o poder de alguns homens para fazer dos outros o que bem quiserem”. O mito do progresso e o capitalismo como um fim em si mesmo, para Bernanos, significavam uma perda de liberdade e não uma conquista. Não se tratava, portanto, de defendermos um liberalismo econômico desprovido daquela ordem desejada pelo eminente economista liberal Frédéric Bastiat, de que “o pensamento de Deus mais prevalece sobre as invenções dos homens”; mas a liberdade como “um ato de fé em Deus e em sua obra”. E, nesse sentido, Bernanos é preciso em sua abordagem, pois não se trata de um mero arranjo institucional ou mesmo de opções político-ideológicas:

O único problema que se coloca hoje em dia, porque da sua solução depende a sorte da humanidade, não é um problema de regime político ou econômico – democracia ou ditadura, capitalismo ou socialismo –, é um problema de civilização. Facilmente diz-se que essa civilização é desumana. O que realmente pode ser isso, uma civilização desumana? Uma civilização desumana é, evidentemente, uma civilização baseada numa definição falsa ou incompleta do homem. Se essa civilização é desumana, vocês não a tornarão humana, é o homem que ela tornará desumano. Será que essa civilização foi feita para o homem, ou que ela pretende fazer o homem para ela, à imagem e semelhança dela, usurpando assim, graças aos prodigiosos recursos de sua técnica, o poder de Deus? É isso que importa saber.

O cerne da questão, para Bernanos, é que o surgimento de uma “civilização das máquinas”, que ele chama, para evitar a despersonalização do problema, de “um sintoma análogo e de significação idêntica a qualquer outra vitória da coletividade sobre o indivíduo”, estabelece um regime de dominação pelos especialistas. “Afinal” – diz ele – “a máquina é essencialmente um instrumento da coletividade, o meio mais eficaz que pode ser colocado à disposição da coletividade para constranger o indivíduo refratário, ou ao menos para mantê-lo numa estrita dependência”. Volto a Lewis, que diz que, no momento em que o homem adquire o poder sobre a Natureza – ou seja, a capacidade de controlá-la por meio da técnica, do maquinário –, estabelece-se um “um poder exercido por alguns homens sobre outros, com a Natureza como instrumento”.

Bernanos conclama seu país e toda a humanidade a um processo de reespiritualização, de liberdade contra o dirigismo tanto comunista quanto capitalista, socialista ou liberal, mas de liberdade plena mediante a consciência de seu fundamento divino

Tudo isso ocorre exatamente pelo processo de desespiritualização do homem, que Bernanos descreve, inclusive, como um processo de desespiritualização da própria Igreja, pois esta também perdeu-se de sua vocação. E sua decepção se dá, justamente por não enxergar, no horizonte, qualquer retomada da ordem da alma do homem, tampouco da sociedade. O que ele vislumbrava era, pelo contrário, uma civilização de “homens prodigiosamente diminuídos”, feitos à sua própria imagem e semelhança e tendo como mestre de suas vontades as próprias máquinas que criaram e a burocracia estatal, reduziu o homem “à dupla condição, igualmente miserável, de consumidor e de pagador de impostos”. E seu ataque tem mão dupla:

O erro do liberalismo foi crer que o mecanismo funcionaria sozinho. O comunismo não muda o mecanismo, mas faz com que ele gire à força, mesmo que assim triture milhões de homens. Assim como os intelectuais liberais do século 19, os intelectuais marxistas pretendem realizar um paraíso terrestre mecânico.

Mas não se tratava, obviamente, “de destruir as máquinas, trata-se de reerguer o homem, isto é, devolver-lhe, com a consciência de sua dignidade, a fé na liberdade de seu espírito”. Com isso, Bernanos conclama seu país e toda a humanidade, ao mesmo tempo resignado por saber-se uma voz que clama no deserto, a um processo de reespiritualização, de liberdade contra o dirigismo tanto comunista quanto capitalista, socialista ou liberal, mas de liberdade plena mediante a consciência de seu fundamento divino.

Sei, paciente leitor, que as palavras de Bernanos parecem reacionárias demais a nós, afinal de contas, sua profecia se cumpriu: somos, de fato, homens-mecanismo, dominados pela ditadura tecnológica e pelas ideologias a ela associadas, cujo ideal de liberdade, contraditoriamente, nos aprisiona. No entanto, suas advertências continuam atuais e são um contraponto importante em tempos de total relativização. O ensaio que aqui apresentei é só um aperitivo da obra verdadeiramente provocante de Georges Bernanos, cujos romances estupendos também devem ser lidos por todos aqueles que não querem se furtar à Verdade.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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