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A liberdade é um direito radical. Coluna semanal

Nem tanto ao mar nem tanto à terra: considerações sobre a temperança

  • PorPaulo Cruz
  • 23/08/2018 15:31
Cena do filme "O leão, a feiticeira e o guarda-roupa", de Andrew Adamson (2005). Divulgação/Walt Disney Pictures
Cena do filme "O leão, a feiticeira e o guarda-roupa", de Andrew Adamson (2005). Divulgação/Walt Disney Pictures| Foto:

“Quanto mais necessária for uma coisa, tanto mais necessário é que a ordem da razão seja observada a seu respeito. Portanto, será tanto mais viciosa, quanto mais se esquecer da ordem racional”. (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica)

Esticando o assunto de meu último artigo da série “Uma luz para a educação”, decidi abordar de maneira mais detida a virtude cardeal que, para mim, junto à Prudência, é a mais necessária para o momento atual brasileiro.

A sentença que intitula esse artigo era dita, com certa frequência, por meu saudoso pai. Sempre que queria nos chamar à reflexão, a buscar aquilo que Aristóteles chama de meio-termo (μεσότης), ele dizia: “calma, nem tanto ao mar nem tanto à terra”. Tal postura é uma tradução popular da Temperança. As virtudes são, como diz o filósofo Josef Pieper, “a realização do projeto divino incorporado à criatura”; portanto são fundamentais para nossa vida. O termo cardeal vem do latim cardo, que significa “dobradiça de porta”; ou seja, são elas que nos abrem as portas da vida.

A temperança é, nas palavras de Platão n’A República: “uma espécie de ordenação, e ainda o domínio de certos prazeres e desejos, como quando dizem, não entendo bem de que maneira, ‘ser senhor de si’” (430e). Por sua vez, para definir o que significa “ser senhor de si”, Platão discorre:

“Mas esta expressão parece-me significar que na alma do homem há como que uma parte melhor e outra pior; quando a melhor por natureza domina a pior, chama-se a isso ‘ser senhor de si’ — o que é um elogio, sem dúvida; porém, quando devido a uma má educação ou companhia, a parte melhor, sendo mais pequena (sic), é dominada pela superabundância da pior, a tal expressão censura o facto como coisa vergonhosa, e chama ao homem que se encontra nessa situação escravo de si mesmo e libertino”. (431a, tradução de Maria Helena Rocha Pereira, Calouste Gulbenkian)

Tal definição, antiquíssima, nos demonstra aquilo que Santo Tomás de Aquino diz sobre a temperança, que se trata de uma “tranquilidade do espírito” (II, II, Q. 141, a. 2). Não somente de moderar ou abster-se do consumo de bebidas alcoólicas ou determinados alimentos – nem em relação à qualidade nem à quantidade. Como diz C. S. Lewis, em Cristianismo Puro e Simples, esse modo tacanho de ver tão importante virtude, “ajuda as pessoas a esquecer que existem muitas coisas em relação às quais podemos faltar com a temperança” – como veremos no exemplo que apresentarei a seguir. Mais do que isso, de acordo com o Doutor Angélico, a temperança, além de refrear “as tendências mais baixas do homem, próprias de sua natureza animal”, também toma parte na Beleza, pois “na sua razão geral” há “uma moderada e conveniente proporção”.

Em releitura recente que fiz de O leão, a feiticeira e o guarda-roupas, a primeira das absolutamente geniais Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis, publicada em 1950, refleti longamente sobre as causas que levaram Edmundo a trair seus irmãos, e me dei conta de que não foi somente pela vontade de comer mais do manjar turco que a Feiticeira Branca lhe oferecera no primeiro encontro – prometendo que lhe daria mais caso lhe trouxesse seus irmãos. A traição de Edmundo se dá exatamente por falta de temperança, deficiência essa que se revela não só na ânsia por mais manjar enfeitiçado, mas desde que ele aparece na história.

Suas primeiras palavras são para fazer uma reclamação gratuita – “acabem com isso!” –, somente para ser “do contra” e parecer mais maduro do que, de fato, é – se esquecendo do sábio conselho dado pelo apóstolo Paulo aos cristãos de Roma: “Porque pela graça que me é dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, conforme a medida da fé que Deus repartiu a cada um” (Romanos 12, 3, grifo nosso).

Edmundo é o famoso resmungão, para quem sempre tudo está errado, ruim, feio etc.. Contraria a todos, posa de esclarecido e, o pior de tudo: sem um pingo de senso de humor e com uma boa dose de maldade.

Após Lúcia voltar de Nárnia pela primeira vez e contar, toda empolgada, a sua aventura a seus irmãos, estes, evidentemente, pensaram que a caçula estava com algum problema – ou mentia. Isso a entristeceu, e Edmundo aproveitou para destilar um pouco de seu veneno:

Durante alguns dias sentiu-se muito infeliz. Podia resolver a questão num instante, bastando declarar que tinha inventado aquela história. Mas Lúcia gostava de falar a verdade, e tinha certeza de que não estava enganada. Os outros, pensando que era tudo mentira, e mentira boba, davam-lhe um grande desgosto. Os dois mais velhos faziam isso sem querer, mas Edmundo costumava bancar o mau, e estava sendo mau daquela vez. Zombava de Lúcia, chateando-a o tempo todo, perguntando se ela não tinha achado outras terras misteriosas nos numerosos armários que existiam por toda a casa. (C. S. Lewis, O Leão, a feiticeira e o guarda-roupa, Martins Fontes, volume único, p. 113, grifo nosso)

Mas foi ele o segundo a ir à Nárnia; deu de cara com a Feiticeira Branca e encontrou Lúcia. Mas, ao retornar, mentiu aos irmãos somente para maltratar novamente a irmã e não admitir que ela tinha razão. Edmundo não sabia a justa medida das coisas:

“E agora chegamos a um dos pontos mais terríveis desta história. Até aquele instante, Edmundo tinha-se sentido mal disposto, mal-humorado, aborrecido com Lúcia, porque ela estava certa: mas não tinha resolvido o que fazer. Porém, diante da pergunta de Pedro, decidiu fazer a coisa mais mesquinha e mais ordinária de que se poderia ter lembrado. Decidiu humilhar Lúcia. (p. 121, grifo nosso)

Quando eles, já em Nárnia, se encontram com o Sr. Castor, Edmundo fala alto (p. 132); pensa que os irmãos e os castores não lhe davam a devida importância (p. 142) e passa a ter desejos cada vez mais nefastos:

“‘Quando eu for o rei, minha primeira medida vai ser mandar construir estradas decentes!’ Daí, passou naturalmente a imaginar-se rei, a pensar nas mil e uma coisas que haveria de fazer. Sentiu-se até mais animado. Escolheu o tipo de palácio que mandaria construir; decidiu de quantos carros precisava; imaginou todos os pormenores de seu cinema particular; estabeleceu por onde deviam passar as principais linhas de estrada de ferro; pensou nas leis que enviaria ao Parlamento contra os castores e as drogas de seus diques… Dava os últimos retoques a algumas medidas indispensáveis para enquadrar Pedro, quando, de súbito, o tempo mudou” (p. 143)

Edmundo não era um garoto realmente mau, mas muito intemperante – e um tanto ingênuo. Seus desejos – “comer manjar turco, ser príncipe (e mais tarde rei) e vingar-se de Pedro, que o chamara de ‘cavalo’” – foram aumentando, ficando mais graves, e sua necessidade de se fazer notar, de que as coisas fossem do seu jeito, de que os “mais fracos” lhe reverenciassem e obedecessem, o colocaram – não só ele, mas seus irmãos e Nárnia –, em sérios apuros. E foi só após quase ser morto pela Feiticeira Branca e, ao ser resgatado, ter uma conversa em segredo com Aslam – o verdadeiro Senhor dos Bosques! –, é que ele se arrependeu. O pobre Edmundo Pevensie é, na verdade, um fraco que quer ser forte, que sucumbe aos desejos mais mesquinhos por falta de temperança. Mas, sejamos justos, após a conversa com Aslam, sua força é revelada em sua fraqueza. Foi preciso que ele compreendesse seus erros e mudasse de atitude.

Segundo Josef Pieper, em seu Virtudes Fundamentais (Aster), “o homem não é um campo de batalha de forças e impulsos contrários que mutuamente se assediam; isto é só uma maneira figurada e inexata de dizer que a sensibilidade ‘em nós’ prevalece sobre a razão. A verdadeira realidade é que somos sempre nós e só nós os autores da ordem e da desordem, da nossa conservação e da nossa destruição. O centro resolutivo da pessoa moral una e indivisível é sempre o livre arbítrio” É preciso, portanto, exercitar a temperança, sempre.

Ter cautela diante do desconhecido e submeter nossas paixões ao escrutínio da razão é tudo o que precisamos para uma vida digna e virtuosa, não importando a que circunstâncias formos submetidos. O temperante sabe, como diz Raduan Nassar em Lavoura Arcaica, que “só a justa medida do tempo, dá a justa natureza das coisas”.

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