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“Aí também existe ódio – pronunciou ele depois de um minuto de pausa –, eles seriam os primeiros grandes infelizes se de repente a Rússia conseguisse transformar-se, ainda que fosse à maneira deles, e de algum modo se tornasse subitamente rica e feliz além da medida.” (Chátov, personagem de Dostoiévski em Os Demônios)
Findo o primeiro turno das eleições, com uma vitória substancial de Flávio Bolsonaro, a esquerda toda, como sói acontecer, entrou em modo desespero. Artistas, influenciadores, políticos e toda a malta digital do #BoraLula ficou, por algumas horas, em choque, até ligar sua metralhadora de terceirização de culpa.
Sim, porque não foi por causa do preço das coisas no mercado; pela falta de segurança; pela educação destruída; pela informalidade; pelo discurso ideológico durante os quatro anos de um governo que não entregou nada de concreto para a população; e, claro, não foi pelas diatribes e gastanças da Janja. Não foi pela “taxa das blusinhas” e pelo aumento de vários impostos, única e exclusivamente a fim de aumentar a arrecadação; não foi pelo fim eleitoreiro das bets; nem pelo inacreditável Pé-de-Meia; ou pelos Desenrola 1, 2 e 3, que só aumentaram o endividamento da população. Sabem de quem foi a culpa? Do pobre de direita.
Foi só o dia amanhecer na segunda-feira para as redes sociais serem inundadas de textos e vídeos de esquerdistas culpando o “pobre de direita”
O resultado do primeiro turno mostrou uma expansão do bolsonarismo entre eleitores de regiões e áreas populares que tradicionalmente davam vantagem a Lula, especialmente no Norte e em partes das periferias urbanas. Então, foi só o dia amanhecer na segunda-feira para as redes sociais serem inundadas de textos e vídeos culpando o “pobre de direita”, uma metáfora criada pela própria esquerda – como vou explicar abaixo – a fim de demonizar aquelas pessoas que, mesmo sendo periféricas, não votam na esquerda.
O que seria, portanto, o “pobre de direita”? De acordo com a esquerda, seria uma contradição ambulante, uma vez que uma pessoa pobre não pode se aliar ao opressor. Ou seja, para você acreditar que existe um algo chamado “pobre de direita”, você precisa, primeiro, comprar a visão de mundo da esquerda de que a “direita” representa, fundamentalmente, a burguesia exploradora (se algum leitor for esquerdista, perdão pelo pleonasmo) e a opressão dos pobres. E para acreditar que a “direita” representa a opressão, precisa abraçar, igualmente, a petição de princípio marxista, expressa no Manifesto, de que “a história de toda a sociedade até aqui é a história de lutas de classes”.
Vamos organizar as ideias. O marxismo e, posteriormente, boa parte das esquerdas assumiram a ideia de que existe, de fato, uma disputa entre patrões e empregados, pois estes seriam fundamentalmente explorados por aqueles. Mas um problema se impõe: os empregados, via de regra, não percebem a exploração, pois são alienados. O trabalhador não reconheceria espontaneamente a estrutura de exploração na qual está inserido. Por isso, é preciso que ele seja conscientizado pela militância organizada.
O problema é que essas relações não são tão simples, sobretudo com a imensa diversificação do trabalho a partir do século 20. Existe exploração? Óbvio que existe. Mas também existe funcionário procrastinador, displicente, mentiroso etc. Existem patrões, de fato, preocupados com o bem-estar de seus funcionários? Também existem. Sem contar que grande parte dos empregadores é de empreendedores de pequeno e médio porte que trabalham tanto (ou mais) que seus funcionários – às vezes sem remuneração alguma.
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E para piorar, o mundo do trabalho mudou por completo com a chegada da tecnologia. A automação, a informática, a internet e, mais recentemente, a inteligência artificial transformaram profundamente a natureza das profissões, aumentaram a produtividade e criaram ocupações que simplesmente não existiam no passado. A relação entre patrão e empregado deixou de caber na imagem industrial clássica. Hoje, há trabalhadores altamente especializados, profissionais autônomos, empreendedores individuais, prestadores de serviço, trabalhadores de plataformas e uma infinidade de ocupações nas quais o próprio trabalhador possui parte significativa dos instrumentos e conhecimentos necessários para produzir. E eles estão falando em defender a CLT e o fim da escala 6x1.
Ou seja, a ideia de uma luta de classes e da necessidade de criar, no oprimido, uma tal consciência de classe é uma invenção teórica que não corresponde à realidade. Nem todo patrão é demônio, nem todo empregado é um anjo de candura. O problema é que a esquerda crê piamente nisso, pois vive, como bem observou Eric Voegelin, numa segunda realidade, cuja principal característica é a recusa de perceber. Ele explica, em suas Reflexões Autobiográficas:
“A recusa de perceber tornou-se para mim o conceito central para a compreensão das aberrações e deformações ideológicas. Ela se manifesta nas situações mais diversas. A mais interessante delas, do ponto de vista histórico, é a proibição formal de fazer perguntas reivindicada por Marx e Comte. Se alguém questionasse sua doutrina ideológica, levantando a questão do plano divino da realidade, Comte recomendaria que não levantasse questões ociosas [...], enquanto Marx lhe mandaria calar a boca e tornar-se um ʻhomem socialistaʼ [...]. Essa atitude de proibir qualquer dúvida sobre as premissas – o que levaria à imediata implosão do sistema – é muito comum entre ideólogos numa discussão. Em numerosas conversas com hegelianos, por exemplo, sempre se chegava a um ponto em que era preciso questionar as premissas da realidade alienada que são o ponto de partida da especulação de Hegel. Quando vinha a pergunta, recebia de meu interlocutor hegeliano a resposta de que nada entendia de Hegel; para entendê-lo, seria preciso aceitar suas premissas sem questioná-las. Portanto, se entendemos que a proibição de perguntar é a principal tática de todo debatedor ideológico, então já dispomos de ao menos um importante critério para diagnosticar a presença de uma ideologia.”
Falar em “pobre de direita” é uma rotulação falsa, um xingamento, a fim de desqualificar e ofender quem pensa e toma decisões de acordo com a própria consciência
Os teóricos de esquerda, a partir da Segunda Realidade, criam pseudoconceitos – como “luta de classes”, “capitalismo”, “meritocracia” – a fim de criticá-los. E tais pseudoconceitos só fazem sentido dentro de sua visão de mundo específica.
Por isso, falar em “pobre de direita” é uma rotulação falsa, um xingamento, a fim de desqualificar e ofender quem pensa e toma decisões de acordo com a própria consciência, que é diversa da que a esquerda exige de alguém que julga ter sob sua tutela. Como ela pensa ser dona das chamadas minorias sociais, qualquer um que escape de seus domínios é diligentemente perseguido, como o resultado do primeiro turno mostrou.
O problema é que, agora, Lula precisa desesperadamente desses votos. Então sua entourage passou a falar em empatia, diálogo, construção de pontes, com aquela falsa condescendência do tipo: “querido pobre de direita, você tem um minuto para ouvir o evangelho do pai Lula?” Mas, pelo visto, não está dando certo. E não dará mais, pois, paradoxalmente, o progressismo se tornou retrógrado e obsoleto. A rebeldia agora está no “pobre de direita”.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Paulo Cruz é professor e palestrante, formado em Filosofia e mestre em Ciências da Religião. Em 2017, foi um dos agraciados com a Ordem do Mérito Cultural, honraria concedida pelo Ministério da Cultura a nomes que se destacaram na produção/divulgação cultural, e em 2022, com o podcast Noir, foi vencedor do Prêmio Governo do Estado de São Paulo para as Artes, na categoria Cultura Urbana. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



