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A semana que passou marcou os 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial. Uma efeméride marcante, sem dúvida, que convida à reflexão sobre os acontecimentos do passado e suas repercussões nestes tão atribulados dias atuais.
Estima-se que entre 40 e 50 milhões de pessoas tenham sido vitimadas naqueles sete anos de guerra, incluindo os 6 milhões de judeus mortos no Holocausto. Outras dezenas de milhões foram expulsas de suas casas e obrigadas a buscar refúgio em terras distantes.
O conflito revelou ao mundo a maldade absoluta do nazismo e apresentou uma nova e terrível arma: a bomba atômica.
Ao fim da guerra, traumatizada por tanto sofrimento e tantas perdas humanas e materiais, a humanidade tentou encontrar formas de evitar que tudo aquilo se repetisse.
A criação da Organização das Nações Unidas (ONU), a adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos — ainda que não tenha contado, à época, com aprovação unânime, mas que viria a se tornar referência universal — e os planos econômicos para reconstruir a Europa e o Japão são exemplos notáveis desse esforço coletivo.
Seria importante que o passar do tempo não apagasse — nem suavizasse — a memória do sofrimento humano causado pelo conflito, pois a lembrança de acontecimentos traumáticos é um poderoso estímulo a evitar que eles se repitam.
Entretanto — e infelizmente — as múltiplas crises internacionais em curso parecem indicar que a humanidade se esqueceu de que a Segunda Grande Guerra não foi um episódio isolado, mas o desfecho de um processo em que erros políticos e econômicos se acumularam: o Tratado de Versalhes.
O tratado gerou o ressentimento que alimentou o nazismo na Alemanha; a Grande Depressão dos anos 1930, que fomentou o desespero das populações e o populismo na Europa; e a ineficácia da Liga das Nações, que se revelou incapaz de impedir a escalada da violência internacional.
Hoje, o mundo enfrenta desafios inquietantemente semelhantes: crises econômicas e sociais em expansão e uma ordem global fragmentada fazem os ecos da década de 1930 ressoarem perigosamente no século XXI
A invasão da Ucrânia pela Rússia — uma guerra que já se estende por mais de três anos e causou centenas de milhares de mortes — reintroduziu ao cenário internacional a lógica da anexação territorial, que muitos julgavam superada justamente por ter sido uma das causas do conflito encerrado em 1945.
Mais grave, porém, é constatar como boa parte da comunidade internacional reagiu à agressão com um grau de normalização inquietante, ecoando a política de apaziguamento das potências europeias frente à expansão territorial do regime nazista nos anos 1930.
Assim como o mundo hesitou diante da ocupação da Renânia, da anexação da Áustria e dos Sudetos, também hesitou em 2014, quando a Crimeia foi tomada sem maiores consequências para Moscou. O resultado foi o mesmo: o agressor se sentiu encorajado a avançar.
Além disso, o prolongamento do conflito tem revelado uma reconfiguração de alianças estratégicas que lembra, em parte, a formação de blocos na Segunda Guerra.
Na semana passada, isso ficou demarcado pela organização concomitante de dois encontros que reuniram líderes globais. O primeiro, na Rússia, onde cerca de três dezenas de chefes de Estado e de governo foram, a convite do presidente Putin, prestigiar o desfile militar que comemora a vitória russa na Segunda Guerra Mundial, evento que sob o governo Putin ganhou um colorido especialmente nacionalista. O segundo, em plena Kiev, na Ucrânia invadida, que reuniu os principais líderes europeus, em solidariedade aos ucranianos e contra a Rússia.
A incapacidade da ONU de mediar um desfecho para as crises na Ucrânia e no Oriente Médio, ou mesmo de evitar o conflito relâmpago entre Índia e Paquistão na semana passada, ecoa a irrelevância da Liga das Nações ao final dos anos 1930, em mais uma semelhança perturbadora.
As atrocidades cometidas pelo grupo terrorista Hamas contra civis israelenses indefesos, em outubro de 2023, provocaram uma resposta militar devastadora e muitas vezes incontida por parte de Israel.
Há quase 600 dias, a Faixa de Gaza permanece sob ocupação, com enorme sofrimento para mais de 2 milhões de palestinos. Esse cenário evidencia o quão distante ainda está a Declaração Universal dos Direitos Humanos de sua plena aplicação como salvaguarda contra o sofrimento humano que ela se propôs a eliminar.
Oitenta anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o mundo parece novamente à deriva, desafiado por nacionalismos agressivos, tensões geopolíticas crescentes e instituições internacionais enfraquecidas.
Nesse contexto, relembrar o passado passa a ser uma exigência moral e política. Porque quando a memória falha, a história se repete — e, como nos alertou Santayana, ela cobra um preço ainda mais alto de quem se esquece de suas lições.
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