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A guerra que vem sendo travada entre a milícia houthi, do Iêmen, e a Arábia Saudita, uma das ramificações do conflito mais amplo que está em curso no Oriente Médio, escalou de forma bastante acentuada e preocupante nos últimos dias. O aeroporto internacional de Riad foi atacado repetidas vezes por mísseis na semana passada. Em quatro ataques até o último domingo, pelo menos 18 pessoas morreram e mais de 300 ficaram feridas, segundo as informações divulgadas até o momento.
O êxito dos ataques dos houthis demonstra a enorme dificuldade saudita em garantir uma defesa antiaérea e antimísseis eficaz e insere-se no contexto da guerra civil iemenita, que já se prolonga há mais de uma década, na qual o governo internacionalmente reconhecido recebe decisivo apoio saudita contra os houthis. O conflito no Iêmen deve ser analisado, ainda, no quadro mais amplo da crise em todo o Oriente Médio, na qual os houthis são importantes aliados do Irã em sua guerra contra os EUA e Israel.
No Iêmen, os houthis atualmente disputam com as forças alinhadas ao governo internacionalmente reconhecido o controle do litoral do Mar Vermelho, especialmente das posições estratégicas próximas ao Estreito de Bab el-Mandeb. Se exitosa, a campanha militar dos houthis lhes concederia uma vantagem significativa no esforço para controlar aquele importantíssimo ponto de estrangulamento entre o Mar Vermelho e o Golfo de Áden. Embora as forças alinhadas ao governo iemenita resistam no extremo sul do litoral, fortemente apoiadas pela força aérea saudita, uma eventual vitória houthi que estabelecesse um domínio completo da região aumentaria ainda mais o risco à liberdade de navegação no estreito, cuja importância cresceu ainda mais em razão da disrupção do trânsito mercante no Estreito de Ormuz causada pela guerra entre o Irã e os EUA.
A escalada dos ataques acrescenta uma nova preocupação para os EUA, que podem acabar ampliando sua participação militar no conflito, com consequências políticas potencialmente negativas para o presidente Trump, a menos de um mês das eleições parlamentares de meio de mandato. A esse respeito, no último sábado, o presidente norte-americano disse “estar estudando” a possibilidade de bombardear posições dos houthis no Iêmen.
Pelo lado americano, a principal preocupação neste momento é a econômica. O acirramento da crise, que tem o potencial de elevar ainda mais o custo dos combustíveis, chega em um péssimo momento para o presidente Trump. Com o objetivo de mostrar ao eleitorado americano que está trabalhando para diminuir o preço dos combustíveis, ele anunciou um acordo com Vladimir Putin para que a Rússia forneça, em etapas e mediante determinadas condições, aproximadamente 4,8 milhões de toneladas de diesel aos mercados norte-americano e internacional.
Ao mesmo tempo, Trump pressiona a Ucrânia a interromper os ataques à infraestrutura de refino e de transporte de derivados de petróleo da Rússia, anunciando unilateralmente uma trégua que suspenderia os ataques de ambas as partes às respectivas infraestruturas energéticas, mas que não foi confirmada nem pela Rússia nem pela Ucrânia. Apesar desses esforços do presidente dos EUA, os ataques contra petroleiros e outros navios no Estreito de Ormuz e em suas proximidades continuam se intensificando, mantendo a crise no Golfo Pérsico em alta temperatura e os preços do petróleo nas alturas.
Se, para os EUA, a preocupação imediata é a econômica, para o reino da Arábia Saudita e para os seus aliados na região os principais temores são de cunho estratégico. Turquia e Paquistão, aliados dos sauditas no recém-criado Pacto de Meca, já anunciaram apoio militar. Já há militares paquistaneses em território saudita, enquanto a Turquia anunciou apoio com sistemas de armas, embora a plena implementação de seus compromissos no pacto ainda dependa de aprovação parlamentar.
No último fim de semana, o Egito se juntou aos três países, por meio de um comunicado oficial conjunto que descreveu os ataques houthis como uma ameaça à segurança da Arábia Saudita e uma violação de sua soberania e integridade territorial.
Diante da ameaça de um duplo estrangulamento estratégico de suas rotas de exportação de petróleo, a Arábia Saudita reage e pressiona seus aliados regionais e os EUA, aumentando substancialmente o risco de uma regionalização ainda maior do conflito no Oriente Médio. Um envolvimento militar mais direto da Turquia na crise acrescentaria uma dimensão particularmente preocupante a esse cenário, uma vez que o país integra a OTAN. Embora sua participação não implique automaticamente o envolvimento da Aliança Atlântica, ela poderia ampliar as repercussões estratégicas do conflito para além do Oriente Médio.
Quanto mais o conflito se amplia, maior se torna o risco de que decisões tomadas para solucionar uma crise acabem provocando outras, em uma espiral de escalada cada vez mais difícil de controlar
Nesse cenário, no qual diferentes crises passaram a se alimentar mutuamente, a margem de manobra dos governos envolvidos se estreita. A Arábia Saudita precisa responder aos ataques para preservar a credibilidade de sua capacidade de dissuasão, mas uma escalada militar pode acabar aprofundando a instabilidade que ameaça as suas exportações de petróleo.
Os Estados Unidos, por sua vez, precisam conter o agravamento da crise para evitar novas pressões sobre os preços dos combustíveis, ao mesmo tempo em que são pressionados a prestar maior apoio aos aliados. Quanto mais o conflito se amplia, maior se torna o risco de que decisões tomadas para solucionar uma crise acabem provocando outras, em uma espiral de escalada cada vez mais difícil de controlar.

Paulo Filho é coronel de Cavalaria da reserva do Exército, Bacharel em Ciências Militares, Mestre em Operações Militares e em Estudos de Defesa e Estratégia e especialista em História Militar. Comandou Esquadrões de Carros de Combate e de Fuzileiros Blindados em Regimentos de Cavalaria e foi oficial de Inteligência da 5ª Brigada de Cavalaria Blindada. Hoje, se dedica aos estudos geopolíticos. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.


