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Paulo Filho

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Poder

A cadeira branca de Trump e o colapso do multilateralismo

O presidente dos EUA, Donald Trump, segura uma carta fundadora assinada na reunião do "Conselho da Paz" durante a 56ª reunião anual do Fórum Econômico Mundial (FEM), em Davos, Suíça, em 22 de janeiro de 2026. (Foto: Gian Ehrenzeller/EFE/EPA)

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Nem sempre a população humana viveu organizada em um sistema de Estados soberanos. As pessoas já se organizaram em clãs ou tribos, já viveram sob impérios, em cidades-estados, em feudos ou colônias. Entretanto, grosso modo, a partir da formação dos Estados modernos na Europa, entre os séculos XVI e XVII, de forma paulatina e crescente, um sistema internacional baseado em Estados soberanos foi se conformando, para, finalmente, no pós-Segunda Guerra Mundial, ser universalizado e institucionalizado como o padrão predominante das relações internacionais.

Esse sistema parte de uma premissa básica: o sistema internacional é anárquico, ou seja, não há um “governo mundial” capaz de impor regras e mediar conflitos. As soluções para os problemas – por vias pacíficas ou não – deverão ser dadas pelos próprios Estados.

Antes de se tornar universal, o sistema de Estados soberanos conviveu com outros tipos de sistemas. Um desses foi o sistema tributário chinês. Na visão tradicional chinesa, o imperador governava “tudo sob o céu”, o que colocava a China no centro de uma ordem política hierárquica. Reinos vizinhos eram incorporados a essa ordem não como Estados soberanos iguais, mas como partes de um arranjo no qual a autoridade chinesa era reconhecida simbolicamente.

Não se tratava de um governo direto, mas de uma relação baseada em rituais diplomáticos, na mediação ocasional de conflitos e no envio de tributos, muitas vezes mais simbólicos do que materiais. Esse sistema entrou em colapso com a derrota da China na 1ª Guerra Sino-Japonesa, em 1895, e foi definitivamente encerrado com a queda da última dinastia chinesa e a Proclamação da República, em 1912.

A comparação entre o sistema internacional westfaliano – dos Estados soberanos convivendo em um ambiente anárquico – com o sistema tributário chinês me veio à mente quando assisti, pela televisão, na semana passada, ao lançamento do Conselho da Paz, uma iniciativa do presidente dos EUA, Donald Trump. Inicialmente, parecia destinada a buscar soluções para a reconstrução da Faixa de Gaza, mas revelou ser outra coisa: um organismo presidido vitaliciamente por Trump, o único integrante com poder de veto, concebido como uma instância paralela de poder e influência, pensado para rivalizar politicamente com o Conselho de Segurança da ONU.

Cerimônias públicas são desenhadas para transmitir mensagens. Isso acontece não apenas por meio dos discursos proferidos, mas também pela cenografia, pelos gestos, pelas presenças e pelas ausências. Nesse sentido, a cerimônia de lançamento do Conselho da Paz foi impressionante.

No palco, antes da chegada de Donald Trump, estavam sentados 19 chefes de Estado e de Governo. Dentre eles, Javier Milei, presidente da Argentina; Nikol Pashinyan, primeiro-ministro da Armênia; Ilham Aliyev, presidente do Azerbaijão; Rosen Zhelyazkov, primeiro-ministro da Bulgária; Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria; Prabowo Subianto, presidente da Indonésia; Mian Muhammad Shehbaz Sharif, primeiro-ministro do Paquistão; e Santiago Peña, presidente do Paraguai. Todos ocupavam cadeiras iguais. Entretanto, havia uma cadeira maior, ao centro, de outra cor: era branca e estava vazia. Ela estava destinada a Donald Trump.

À chegada de Trump, todos se levantaram e aplaudiram. Ele parou por um momento, e fiquei esperando o soar dos clarins que anunciavam a chegada dos reis, como naqueles filmes antigos da Sessão da Tarde.

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Os clarins não tocaram, mas Trump se dirigiu ao púlpito para discursar. A cadeira já não parecia ser apenas uma cadeira. Parecia mais um trono

A imagem, aliás, não é minha. A ouvi dita com precisão pelo general português Arnault Moreira no podcast O Domínio da Guerra, da Rádio Observador, ao chamar a atenção para a carga simbólica daquele assento vazio, maior e distinto dos demais.

O sistema internacional contemporâneo, com todas as suas falhas, parte da ideia de que Estados soberanos convivem em um ambiente anárquico, no qual nenhuma potência — por maior que seja — pode se arrogar o papel de árbitro supremo da ordem global. O sistema tributário chinês, por sua vez, era explicitamente hierárquico, sustentado por uma cosmologia própria e por rituais que reconheciam a centralidade do imperador, destinado a governar tudo o que havia sob o céu.

O que se viu na cerimônia de lançamento do Conselho da Paz não foi nem uma coisa nem outra. Não havia ali regras compartilhadas, nem instituições reconhecidas, nem uma visão coerente de ordem internacional. Havia apenas a encenação de uma hierarquia pessoal, organizada em torno da figura de um homem que se coloca acima dos demais, não por mandato institucional ou desígnio divino, mas por vontade própria.

A imagem da cadeira branca, maior e vazia, aguardando não o presidente dos Estados Unidos, mas a “pessoa física” Donald Trump, sintetiza essa tentativa inquietante da construção de uma ordem internacional personalista.

Em um mundo que já convive com guerras, crises humanitárias e o enfraquecimento das instituições multilaterais, o que menos se precisa é da transformação da política internacional em um teatro de vaidades. A paz, afinal, não se constrói a partir de tronos — muito menos de tronos improvisados.

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