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Paulo Filho

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EUA x Irã

A guerra que Trump não sabe como terminar

Guerra prolongada expõe estratégia falha dos EUA: sem objetivo claro, Trump arrisca escalar conflito que prometeu evitar. (Foto: EFE/EPA/YURI GRIPAS / POOL)

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No dia 1º de março, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou que a Operação “Fúria Épica”, iniciada de forma espetacular no dia 28 de fevereiro, com a eliminação do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, em um ataque israelense, duraria “quatro semanas ou menos”.

Pois bem, vive-se hoje a quinta semana da guerra e, apesar de norte-americanos e israelenses terem eliminado boa parte das lideranças iranianas, destruído mais de dez mil alvos no país e afundado cerca de 150 embarcações da marinha da Guarda Revolucionária Iraniana, o regime xiita segue firme no poder.

O Irã praticamente interrompeu o tráfego mercante no Estreito de Ormuz, causando enormes prejuízos à economia global, e continua lançando mísseis e drones contra alvos em toda a região, retaliando contra interesses israelenses e norte-americanos em todo o Golfo Pérsico.

A guerra cobra seu preço em vidas humanas. No Irã, o número de mortos já ultrapassa os três mil, e o número de deslocados supera 3,2 milhões. No Líbano, invadido por forças israelenses, as mortes já ultrapassaram 1,1 mil pessoas, com centenas de milhares de deslocados que fogem do sul do país em direção ao norte. Por outro lado, o Irã já lançou mísseis contra o território de 14 países, causando quase 60 mortes. Treze soldados norte-americanos já morreram no conflito, e cerca de 300 ficaram feridos.

Os custos humanos do conflito, que por si só evidenciam a sua enorme intensidade, não indicam, entretanto, que o desfecho das hostilidades esteja próximo. Isso porque, muito embora a atuação militar dos EUA e de Israel tenha causado enormes perdas à liderança e à infraestrutura militar iraniana — levando o presidente Trump a declarar, repetidas vezes, que os objetivos militares norte-americanos estão praticamente atingidos —, a estratégia de bombardeios aéreos não é capaz de obrigar os iranianos à rendição. Isso somente poderia ser obtido com o envio de tropas terrestres, em uma invasão como as que foram desencadeadas no passado contra o Iraque e o Afeganistão, algo que, hoje, está fora de questão. Trump sempre criticou as “guerras infinitas” e prometeu não envolver o país em novas aventuras militares desse tipo.

Por outro lado, proclamar vitória e retirar as forças, alegando ter dizimado o poder militar iraniano, enquanto o Estreito de Ormuz permanece bloqueado e o Irã continua atingindo alvos, inclusive norte-americanos, em todo o Golfo Pérsico, parece ser politicamente inviável.

É nesse dilema que se encontra o governo dos EUA. Diante dele, parece ter surgido uma terceira via: reunir fuzileiros navais e paraquedistas da 82ª Divisão Aerotransportada para, muito provavelmente, conquistar ilhas e posições no litoral iraniano que permitam oferecer garantias mínimas para o retorno da livre navegação no Estreito de Ormuz.

A partir daí, a ideia seria, uma vez assegurado o controle dessas posições, convidar outros países a formar uma espécie de coalizão para garantir o livre trânsito no Estreito. O problema é que o Irã transformou Ormuz em um campo de batalha assimétrico, povoado por minas, drones kamikazes e mísseis antinavio lançados a partir do litoral. Tomar ilhas ou pontos no litoral pode mitigar o problema imediato da navegação, mas transformará os fuzileiros e paraquedistas americanos em alvos permanentes. Isso converte uma campanha aérea de 30 dias em um compromisso terrestre de meses, ou mesmo anos — exatamente o que Trump jurou evitar.

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Como se vê, não se trata de uma estratégia livre de riscos, muito pelo contrário. Trata-se de um remendo em um planejamento estratégico falho, que nunca definiu com clareza quais eram os objetivos políticos da campanha militar

Isso se evidencia ao se constatar que a população americana, nas pesquisas mais recentes, em sua maioria, desaprova a ação no Irã, principalmente por não conseguir responder a uma pergunta simples, mas basilar: por que, afinal, fomos à guerra?

Para Clausewitz, a resposta a essa pergunta é simples: países vão à guerra “para compelir o inimigo a fazer a nossa vontade”. Por isso mesmo, para o general prussiano, a guerra carrega uma lógica de escalada que implica, necessariamente, perdas e riscos elevados.

Trump queria que os governantes do Irã fizessem sua vontade: encerrar o programa nuclear e o programa de mísseis, mas pretendia fazê-lo correndo riscos mínimos. Avaliou, equivocadamente, que poderia atingir esses objetivos com uma “guerra limpa”, baseada apenas em ataques à distância, sem perdas e sem tropas no terreno. Meteu-se, assim, em uma armadilha — e agora arrisca agravá-la com uma “escalada à meia-força”, empregando tropas apenas para objetivos limitados, como garantir o livre trânsito em Ormuz.

Arrisca-se, entretanto, a novamente não “compelir o inimigo a fazer a sua vontade” e, dentro de poucos meses, ver-se diante da necessidade de ampliar ainda mais o conflito. A pergunta que fica é simples e incômoda: Trump está disposto a pagar o preço total para compelir Teerã — ou repetirá o erro de quem inicia uma guerra sem definir como chegar ao fim?

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