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Na madrugada do último sábado, 27, eu estava em plena conexão no Aeroporto Internacional de Doha, no Catar, quando soube que, a cerca de 500 quilômetros dali, os Estados Unidos e o Irã tinham reiniciado as hostilidades na região do Estreito de Ormuz. O clima era de absoluta tranquilidade, mas havia certa inquietação com a possibilidade de os voos serem afetados por um eventual fechamento do espaço aéreo. Felizmente, tudo correu normalmente, e todas as aeronaves seguiram para os seus destinos.
A notícia era de que os iranianos haviam lançado mísseis e drones contra instalações militares americanas localizadas no Kuwait e no Bahrein, enquanto os norte-americanos haviam atacado instalações militares do Irã no litoral do Golfo Pérsico e na ilha de Qeshm.
O retorno das hostilidades mostra com clareza a fragilidade do processo de construção do acordo de paz, iniciado com a assinatura formal de um memorando de entendimento de 14 pontos pelos presidentes dos dois países no último dia 17 de junho.
A nova escalada se iniciou depois que a Guarda Revolucionária Iraniana atacou, em dois episódios sucessivos, dois navios mercantes que tentavam atravessar o Estreito de Ormuz pelo lado omaniano da via marítima.
Ao realizar os ataques, mesmo em plena vigência do memorando de entendimento, os iranianos mostram que querem efetivamente controlar o estreito, o que poderia redundar na futura cobrança de taxas sobre a passagem de navios mercantes, contrariando o direito à livre navegação e abrindo um precedente muito perigoso para o comércio internacional: e se outros países que controlam geograficamente passagens marítimas importantes decidissem fazer o mesmo? As consequências econômicas seriam certamente muito graves.
Neste conflito, os persas conquistaram um enorme trunfo: a capacidade de, bloqueando o Estreito de Ormuz, causar um enorme prejuízo à economia global
A retórica das lideranças também se elevou. O presidente Trump postou em sua rede social que "era bem possível que os iranianos nunca aprendessem" e que, nesse caso, os EUA seriam obrigados a "deixar de ser razoáveis" e a "concluir militarmente o trabalho". Nesse caso, escreveu Trump, "a República Islâmica do Irã deixará de existir".
À primeira vista, pode parecer estranho que os iranianos tenham recorrido novamente à força militar justamente quando o acordo começava a ser implementado. Entretanto, há uma lógica clara por trás da estratégia iraniana. Neste conflito, os persas conquistaram um enorme trunfo, que os coloca em vantagem nas negociações: a capacidade de, bloqueando o Estreito de Ormuz, causar um enorme prejuízo à economia global, pressionando, dessa forma, os EUA, Israel e os países do Golfo Pérsico a atender às reivindicações iranianas.
Essa vantagem iraniana foi posta em xeque nos últimos dias, quando Omã, o país que controla a outra margem do estreito, e a Organização Marítima Internacional estabeleceram corredores temporários de navegação por águas territoriais omanianas, desbordando o controle iraniano.
A efetivação dessa alternativa de navegação retiraria do Irã seu principal instrumento de pressão, conquistado a duras penas durante o conflito. Destaque-se que essa vantagem iraniana foi reforçada por uma redação contraditória do memorando assinado em junho: o quinto ponto do documento estabelece que o Irã deverá empregar seus "melhores esforços" para garantir, em 60 dias, a passagem segura e gratuita dos navios mercantes, deixando para negociações posteriores a definição sobre a futura administração do estreito. Essa redação, na interpretação dos iranianos, reconheceria para Teerã um papel dominante na administração da via marítima, o que incluiria o direito à cobrança por serviços prestados.
Os EUA, porém, não podem aceitar essa interpretação, que transformaria o Irã em porteiro de uma rota marítima fundamental para a economia global. Essa é uma das incompatibilidades que torna tão frágil o arranjo encontrado para pôr fim às hostilidades.
A tranquilidade que encontrei no aeroporto de Doha talvez seja a melhor imagem desta interminável guerra. A vida prossegue, os aviões decolam e os mercados tentam acreditar na paz. Mas, a poucas centenas de quilômetros dali, EUA e Irã continuam disputando quem terá o poder de abrir ou fechar uma das portas da economia mundial.








