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Paulo Filho

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Oriente Médio

Conflito com o Irã: Trump declara vitória, mas chama os fuzileiros

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A guerra no Oriente Médio expõe limites do poder aéreo, eleva o petróleo, pressiona a inflação global e ainda fortalece a Rússia. (Foto: AARON SCHWARTZ/EFE/EPA/POOL)

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A guerra no Oriente Médio já está em sua terceira semana de duração e ainda não há perspectivas de um acordo de paz — ou ao menos de uma solução que leve à cessação das hostilidades no curto prazo. Mesmo assim, o que se viu até aqui já permite extrair algumas conclusões importantes nos campos militar, geopolítico e econômico.

No campo de batalha, os acontecimentos apontam para as limitações do poder aéreo. Israelenses e norte-americanos já atacaram, com mísseis, drones e bombas lançadas por aeronaves, cerca de 7 mil alvos espalhados por todo o Irã, levando o presidente Trump a anunciar, em sua rede social, que o país estava “completamente derrotado e dizimado”.

Entretanto, o Irã continua a reagir, mantendo ataques contra praticamente todos os países da região, o que nos leva a uma conclusão no campo militar: é impossível chegar à vitória utilizando-se exclusivamente o poder aéreo. Um indício de que os EUA podem optar, pelo menos de forma limitada, por ações terrestres é o anúncio de que já está a caminho do Oriente Médio um Grupo de Assalto Anfíbio, com uma unidade expedicionária de fuzileiros navais.

O efetivo, de cerca de 2,5 mil fuzileiros, chegará à região no final desta semana e poderá ser utilizado para ações pontuais na costa iraniana ou em ilhas nas proximidades do Estreito de Ormuz, para garantir a passagem de navios mercantes pelo estreito, hoje quase totalmente bloqueado ao tráfego mercante.

O envio dos fuzileiros demonstra que, apesar dos milhares de ataques israelenses e norte-americanos ao Irã, a estratégia do país de dispersar suas forças e descentralizar as operações provavelmente exigirá dos norte-americanos uma ação terrestre limitada para se alcançar objetivos também limitados, no caso, a abertura do Estreito de Ormuz.

Para se alcançar um objetivo maximalista, como a troca de regime, seria necessária uma invasão em grande escala, o que está fora de questão no governo Trump, pelo menos por enquanto.

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As repercussões econômicas do conflito se fazem sentir por todo o mundo, pois o preço do barril de petróleo, que já ultrapassou a marca dos 100 dólares, afeta indistintamente as economias de todos os países, quer estejam diretamente envolvidos no conflito, quer não. Assim, nós, brasileiros, a dez mil quilômetros de distância do Teatro de Operações, já testemunhamos os preços das bombas de combustíveis refletirem o fechamento do Estreito de Ormuz pelos iranianos.

Ainda no campo econômico, a guerra já tem um grande vencedor: a Rússia. Tentando segurar a escalada dos preços do petróleo, o presidente Trump anunciou a revogação parcial dos embargos dos EUA à venda de petróleo russo.

Calcula-se que, somente com essa medida, a Rússia receba mais de 150 milhões de dólares por dia com suas vendas petrolíferas. Além disso, o país se beneficia diretamente do aumento dos preços, por ser um grande exportador, e por assumir os mercados dos países do Golfo, diretamente prejudicados pelo fechamento do Estreito de Ormuz.

Mas a Rússia também tem ganhos geopolíticos. O país se beneficia da mudança do foco de atenção global para o Oriente Médio. A guerra na Ucrânia passa naturalmente para um segundo plano, e o enorme esforço de guerra que os EUA estão fazendo certamente se refletirá em uma menor disponibilidade de recursos, armas e munições para os ucranianos.

Guerras são coisas das quais se sabe como começam, mas, a partir daí, ganham uma dinâmica própria, impossível de ser prevista. A guerra que está sendo travada no Oriente Médio, neste momento, mais uma vez comprova isso. Algumas conclusões, entretanto, já podem ser colhidas. A primeira é que o poder aéreo, exclusivamente, não garante a vitória. Ele degrada as capacidades terrestres, mas não é suficiente para quebrar a disposição do inimigo em resistir.

Outra conclusão é que as consequências de segunda e terceira ordem do conflito, especialmente as econômicas, podem levar a perdas ainda maiores do que os ganhos que se esperava alcançar com o uso do poder militar.

O envio de fuzileiros para reabrir o Estreito e a suspensão parcial das sanções ao petróleo russo ilustram bem: o que começou como campanha aérea “decisiva” fortalece a Rússia, um rival estratégico, e cobra um preço alto em todo o mundo, inclusive no Brasil, onde a inflação causada pelo aumento do preço dos combustíveis já bate à porta.

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