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A guerra de alta intensidade está de volta ao Oriente Médio, e seus efeitos não se restringem ao território iraniano, atacado desde as primeiras horas do último sábado, dia 28 de fevereiro, pelas forças armadas dos EUA e de Israel.
O Irã, em uma retaliação até aqui inédita pela extensão, atacou com mísseis e drones o território israelense. Também atingiu alvos militares norte-americanos em praticamente todos os Estados do Golfo Pérsico — Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Catar, Kuwait e Arábia Saudita —, além da Jordânia.
A ação militar foi amplamente prevista, uma vez que os EUA passaram os últimos 40 dias concentrando um enorme poder de combate no entorno do Irã, somente comparável, nos últimos vinte e cinco anos, ao que foi reunido para a invasão do Iraque, em 2003.
Mais uma vez, a enorme eficiência e eficácia das máquinas de guerra dos EUA e de Israel ficaram demonstradas. Já no primeiro dia de conflito, centenas de alvos em todo o Irã foram atacados, resultando na destruição de muito equipamento militar iraniano, mas também — e principalmente — na eliminação de diversas lideranças iranianas, inclusive seu líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei.
A eliminação de Khamenei, bem como a do ministro da Defesa, do comandante da Guarda Revolucionária e de outros líderes pelas forças americanas e israelenses, visou a criar um vácuo de poder
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A aposta era que, aproveitando o momento de profunda insatisfação popular existente no Irã, evidenciado nas manifestações violentamente reprimidas pelo regime ditatorial no mês de janeiro, fosse possível provocar uma mudança de governo. A intenção seria levar ao poder um grupo político alinhado aos interesses dos Estados Unidos e de Israel.
A troca de regime para um mais alinhado aos interesses norte-americanos, entretanto, não parece estar próxima. Imediatamente após reconhecer oficialmente a morte de Khamenei, o governo do Irã empossou uma junta composta por três pessoas: o presidente da República, Masoud Pezeshkian; o presidente do Judiciário, Gholam-Hossein Mohseni-Ejei; e o aiatolá Alireza Arafi, membro do Conselho dos Guardiães, que, na prática, passa a ser o líder supremo até a escolha do próximo. Com esse movimento, o governo procurou rapidamente preencher o lugar deixado pela morte de Khamenei, evitando abrir espaço para opositores.
Além disso, não parece haver, neste momento, dentro do Irã, nomes oposicionistas capazes de liderar um movimento apto a assumir o governo.
Fora do país, o filho homônimo do xá Reza Pahlavi, deposto pela revolução islâmica que levou os aiatolás ao poder em 1979, embora tenha muito espaço na mídia ocidental e tente se cacifar como um nome para assumir um governo pró-Ocidente no Irã, não parece contar com apoio suficiente da população iraniana para se colocar como uma alternativa real.
De qualquer forma, uma efetiva mudança de governo no Irã, para ser exitosa, necessitaria do apoio de uma força militar no terreno que estabilizasse a situação no pós-conflito. Em outras palavras, Trump teria que mandar soldados ao Irã, coisa que ele repetidas vezes disse que não faria, inclusive na campanha eleitoral, ao afirmar que não envolveria os EUA em “guerras intermináveis”, referindo-se às campanhas americanas no Iraque e no Afeganistão.
Assim, o que parece mais provável é que o presidente Trump vá se contentar com objetivos mais modestos para essa campanha, que podem ser apresentados como uma significativa redução das capacidades militares iranianas, especialmente das capacidades missilísticas; o fim do programa nuclear; ou a eliminação de potenciais ameaças contra o povo americano ou contra seus interesses.
Entretanto, simplesmente anunciar vitória, finalizar os ataques e chamar os porta-aviões de volta para casa não resolverá a questão, assim como a Guerra dos 12 Dias do ano passado, entre Israel e Irã, e os ataques americanos às instalações nucleares iranianas do último mês de junho não resolveram. Servirá apenas para postergar o problema e estimular o Irã a se preparar ainda mais, reunindo capacidades militares ainda mais poderosas para o dia em que ocorrer um novo conflito.
A questão central, portanto, não é a capacidade militar empregada, mas o propósito político que se pretende alcançar. Para Clausewitz, o grande pensador militar ocidental, a guerra é “um ato para compelir o nosso inimigo a fazer a nossa vontade”.
A “nossa vontade”, nesse caso, é o propósito político que levou o Estado a escolher empregar a força militar. Se o propósito político não está claro, ou se não são dadas as condições para que ele seja atingido, o fim das hostilidades não é sinônimo de vitória: é apenas um cessar-fogo até que a luta recomece.








