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Nos próximos 4 anos, o Brasil enfrentará enormes e complexos desafios estratégicos, geopolíticos e de política internacional.
É evidente que não tenho bola de cristal, e a futurologia é uma atividade arriscadíssima. Mas vou me atrever, pois há alguns sinais que indicam, com razoável grau de confiança, os rumos e as tendências do que está por vir. Já posso adiantar uma conclusão: o cenário aponta grandes dificuldades.
Vamos começar pelos Estados Unidos. No próximo dia 3 de novembro, serão realizadas as eleições parlamentares de meio de mandato. As pesquisas indicam um cenário desfavorável para o Partido Republicano, do presidente Trump, que atualmente goza de baixíssimos níveis de popularidade. Essa perspectiva traz ao presidente dos EUA as péssimas memórias das dificuldades que ele enfrentou na segunda metade de seu primeiro mandato, quando o Partido Democrata infernizou sua vida no Congresso, inclusive com dois impeachments aprovados pela Câmara dos Representantes.
Uma eventual derrota republicana poderá levar Trump a intensificar a busca por resultados no campo das relações internacionais, no qual dispõe de maior liberdade de ação. Nesse contexto, duas frentes merecem atenção especial: a guerra na Ucrânia e o conflito com o Irã. No primeiro caso, o presidente Zelensky poderá enfrentar pressões ainda maiores para aceitar um acordo que envolva concessões à Rússia. No segundo, a pressão para reduzir os preços do petróleo e seus derivados, que pesam sobre os combustíveis e a inflação nos EUA, poderá estimular novas iniciativas militares.
Em relação ao Irã, considero possível que, após as eleições, Trump desencadeie uma nova ofensiva, com o foco em punir o regime iraniano e tentando restabelecer a segurança da navegação no Estreito de Ormuz. Para ter êxito neste segundo objetivo, não descarto o emprego de tropas terrestres em objetivos limitados, no litoral iraniano e nas ilhas do Golfo que dominam o estreito. O controle dessas posições, entretanto, não garantiria, por si só, a segurança da navegação. A reação iraniana poderá novamente envolver outros países do Golfo Pérsico. Uma intensificação do conflito levaria o preço do petróleo a níveis ainda mais altos, com reflexos para a economia global e, evidentemente, para o Brasil, especialmente nos preços dos combustíveis, dos fretes e dos fertilizantes.
Em relação à América Central e à América do Sul, a atuação do governo Trump tenderá a ser ainda mais intensa. Em linha com o que prevê o “Corolário Trump à Doutrina Monroe”, descrito na Estratégia Nacional de Segurança dos EUA, Trump tenderá a aumentar a aposta em soluções militares para o combate ao narcotráfico e a intensificar o combate à imigração ilegal no seu país. Em relação à atuação da China no Hemisfério Ocidental, Trump tenderá a ampliar as pressões sobre os países da América do Sul e Central para restringir a presença chinesa em setores estratégicos. Essas exigências nem sempre serão coincidentes com os interesses brasileiros (o agronegócio, que tem na China seu maior cliente, que o diga).
Em relação aos vizinhos sul-americanos, o desafio será equilibrar os nossos interesses, como maior potência econômica da região, com os interesses dos nossos vizinhos, dos EUA e dos demais atores internacionais. Alinhamentos ou desalinhamentos automáticos em razão de ideologias já provaram ser contraproducentes para os interesses do Brasil. Até porque governos mudam, enquanto muitos dos interesses fundamentais dos países permanecem.
A Europa, continente que nas últimas décadas foi fundamental para a construção da estabilidade global, consolidando, por meio da integração, a paz entre países que estiveram no centro das duas guerras mundiais do século XX, enfrenta crescentes dificuldades para desempenhar este papel. Para muitos autores, os europeus já vivem uma guerra híbrida contra a Rússia, ao mesmo tempo em que enfrentam uma combinação de graves desafios políticos, econômicos e sociais. Para o Brasil, as dificuldades de um parceiro importante no comércio, nos investimentos e na cooperação tecnológica também representam um desafio que exigirá atenção.
Na China, o ano que vem marca o centenário do Exército de Libertação Popular. Para essa data, Xi Jinping estabeleceu metas de modernização e de ampliação da capacidade de combate, como etapa de um processo que se estenderá pelas próximas décadas. Vários documentos militares americanos avaliam que o cumprimento dessas metas poderá proporcionar a Pequim opções militares mais críveis para uma ação contra Taiwan. Isso não significa que exista uma decisão de atacar a ilha em 2027, mas é um risco que não pode ser ignorado. Para o Brasil, uma crise nessa região teria consequências importantes, tanto pela dimensão de nosso comércio com a China quanto pelos impactos sobre as cadeias globais de suprimentos, especialmente de semicondutores.
Como se vê, a situação internacional não permitirá ao Brasil — e a nenhum país do mundo — navegar em águas tranquilas nos próximos anos. Isso exigirá do governo brasileiro uma estratégia internacional clara, liderada com competência e profissionalismo. Não há espaço para amadorismos ou para decisões que privilegiem interesses outros que não os interesses nacionais. Escolher com sabedoria o caminho de uma política externa pragmática já seria um excelente começo.

Paulo Filho é coronel de Cavalaria da reserva do Exército, Bacharel em Ciências Militares, Mestre em Operações Militares e em Estudos de Defesa e Estratégia e especialista em História Militar. Comandou Esquadrões de Carros de Combate e de Fuzileiros Blindados em Regimentos de Cavalaria e foi oficial de Inteligência da 5ª Brigada de Cavalaria Blindada. Hoje, se dedica aos estudos geopolíticos. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



