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No intervalo de apenas uma semana, empresas de transporte marítimo da China e da Coreia do Sul enviaram navios mercantes de portos de seus países para a Europa, por uma rota pouco usual: a Rota Norte, pelo Oceano Glacial Ártico. A viabilidade comercial da rota está sendo efetivamente testada, à medida que o descongelamento das águas daquele oceano torna viável, pelo menos por alguns meses no ano, uma rota antes interditada à navegação comercial.
O que a abertura dessa nova rota representa é uma verdadeira transformação da geografia do comércio entre a Ásia e a Europa, com consequências geopolíticas muito importantes.
Destaca-se, em primeiro lugar, a vantagem geográfica do encurtamento das distâncias. O Dubai Tower, navio chinês que inaugura a rota, saiu do porto de Ningbo no último dia 15, com previsão de chegar ao porto britânico de Felixstowe em cerca de 20 dias. Isso reduz praticamente pela metade o tempo do percurso pela rota tradicional, aquela que passa pelo Mar do Sul da China – Estreito de Malaca – Oceano Índico – Estreito de Bab el-Mandeb – Canal de Suez – Mar Mediterrâneo – Estreito de Gibraltar – Oceano Atlântico.
Em segundo lugar, a Rota Norte – que está sendo incorporada, na China, ao conceito de “Rota da Seda Polar” – evita os vários estreitos da rota tradicional. Como os conflitos no Oriente Médio vêm demonstrando, evitar a passagem por esses pontos de estrangulamento pode poupar muita dor de cabeça às companhias de transporte marítimo e a seus clientes.
Os países do Ocidente veem com desconfiança a iniciativa chinesa. Eles temem que a exploração comercial da rota também sirva a propósitos militares, como o mapeamento do fundo do mar em benefício da operação de submarinos chineses na região.
Os temores ocidentais aumentam porque a Rússia, em razão de seus 24 mil quilômetros de costa, detém o controle geoestratégico da Rota Norte. Isso exigirá uma estreita cooperação entre russos e quaisquer outros, sejam eles chineses, sul-coreanos ou japoneses, que queiram explorar comercialmente os mares do norte, cujas águas, em razão do aquecimento global, estarão progressivamente mais disponíveis à navegação.
O limitado acesso aos chamados “mares quentes” sempre foi um problema grave para a Rússia, que dependia de suas saídas pelos mares Báltico e Negro, além do Pacífico. O recuo do gelo no Ártico ampliará as opções da Frota do Norte russa, o que aumentará seu peso estratégico naquela parte do mundo e, consequentemente, os pontos de atrito com os países do Ocidente, especialmente com os europeus. Não é por outra razão que o presidente Trump pressiona a Dinamarca e afirma repetidas vezes que a Groenlândia é um território fundamental para a segurança dos EUA.
O que está acontecendo no Ártico não é apenas o surgimento de uma nova rota mais curta entre a Ásia e a Europa, mas sim uma alteração significativa das condições físicas que ditaram os principais conceitos geopolíticos do século XX.
O Ártico, que sempre foi uma barreira praticamente intransponível a separar os grandes rivais da Guerra Fria, está se transformando progressivamente em um espaço de circulação, comércio e competição militar
Rússia e China, além de Coreia do Sul e Japão, perceberam rapidamente as oportunidades abertas por essa transformação. Os Estados Unidos e seus aliados ocidentais também. A pressão de Trump sobre a Groenlândia, o fortalecimento das capacidades militares russas no extremo norte e a inclusão da Rota Norte na estratégia chinesa da Rota da Seda Polar são manifestações distintas de uma mesma realidade.
O recuo do gelo do Ártico altera cálculos geopolíticos e acrescenta ao tabuleiro estratégico global um novo espaço de competição. A corrida pelo Ártico, ao que tudo indica, está apenas começando.

Paulo Filho é coronel de Cavalaria da reserva do Exército, Bacharel em Ciências Militares, Mestre em Operações Militares e em Estudos de Defesa e Estratégia e especialista em História Militar. Comandou Esquadrões de Carros de Combate e de Fuzileiros Blindados em Regimentos de Cavalaria e foi oficial de Inteligência da 5ª Brigada de Cavalaria Blindada. Hoje, se dedica aos estudos geopolíticos. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



