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Paulo Filho

Paulo Filho

A nova rota

O degelo do Ártico está redesenhando a Geopolítica

O navio porta-contêineres PanStar Acro, com capacidade para 2.800 TEUs (unidades equivalentes a vinte pés), está ancorado em um porto na cidade de Busan, no sudeste da Coreia do Sul, em 22 de agosto de 2026, enquanto se prepara para uma viagem de teste até Rotterdam, na Holanda, pela rota do Ártico. (Coreia do Sul, Holanda) (Foto: Yonhap/EPA/EFE)

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No intervalo de apenas uma semana, empresas de transporte marítimo da China e da Coreia do Sul enviaram navios mercantes de portos de seus países para a Europa, por uma rota pouco usual: a Rota Norte, pelo Oceano Glacial Ártico. A viabilidade comercial da rota está sendo efetivamente testada, à medida que o descongelamento das águas daquele oceano torna viável, pelo menos por alguns meses no ano, uma rota antes interditada à navegação comercial.

O que a abertura dessa nova rota representa é uma verdadeira transformação da geografia do comércio entre a Ásia e a Europa, com consequências geopolíticas muito importantes.

Destaca-se, em primeiro lugar, a vantagem geográfica do encurtamento das distâncias. O Dubai Tower, navio chinês que inaugura a rota, saiu do porto de Ningbo no último dia 15, com previsão de chegar ao porto britânico de Felixstowe em cerca de 20 dias. Isso reduz praticamente pela metade o tempo do percurso pela rota tradicional, aquela que passa pelo Mar do Sul da China – Estreito de Malaca – Oceano Índico – Estreito de Bab el-Mandeb – Canal de Suez – Mar Mediterrâneo – Estreito de Gibraltar – Oceano Atlântico.

Em segundo lugar, a Rota Norte – que está sendo incorporada, na China, ao conceito de “Rota da Seda Polar” – evita os vários estreitos da rota tradicional. Como os conflitos no Oriente Médio vêm demonstrando, evitar a passagem por esses pontos de estrangulamento pode poupar muita dor de cabeça às companhias de transporte marítimo e a seus clientes.

Os países do Ocidente veem com desconfiança a iniciativa chinesa. Eles temem que a exploração comercial da rota também sirva a propósitos militares, como o mapeamento do fundo do mar em benefício da operação de submarinos chineses na região.

Os temores ocidentais aumentam porque a Rússia, em razão de seus 24 mil quilômetros de costa, detém o controle geoestratégico da Rota Norte. Isso exigirá uma estreita cooperação entre russos e quaisquer outros, sejam eles chineses, sul-coreanos ou japoneses, que queiram explorar comercialmente os mares do norte, cujas águas, em razão do aquecimento global, estarão progressivamente mais disponíveis à navegação.

O limitado acesso aos chamados “mares quentes” sempre foi um problema grave para a Rússia, que dependia de suas saídas pelos mares Báltico e Negro, além do Pacífico. O recuo do gelo no Ártico ampliará as opções da Frota do Norte russa, o que aumentará seu peso estratégico naquela parte do mundo e, consequentemente, os pontos de atrito com os países do Ocidente, especialmente com os europeus. Não é por outra razão que o presidente Trump pressiona a Dinamarca e afirma repetidas vezes que a Groenlândia é um território fundamental para a segurança dos EUA.

O que está acontecendo no Ártico não é apenas o surgimento de uma nova rota mais curta entre a Ásia e a Europa, mas sim uma alteração significativa das condições físicas que ditaram os principais conceitos geopolíticos do século XX.

O Ártico, que sempre foi uma barreira praticamente intransponível a separar os grandes rivais da Guerra Fria, está se transformando progressivamente em um espaço de circulação, comércio e competição militar

Rússia e China, além de Coreia do Sul e Japão, perceberam rapidamente as oportunidades abertas por essa transformação. Os Estados Unidos e seus aliados ocidentais também. A pressão de Trump sobre a Groenlândia, o fortalecimento das capacidades militares russas no extremo norte e a inclusão da Rota Norte na estratégia chinesa da Rota da Seda Polar são manifestações distintas de uma mesma realidade.

O recuo do gelo do Ártico altera cálculos geopolíticos e acrescenta ao tabuleiro estratégico global um novo espaço de competição. A corrida pelo Ártico, ao que tudo indica, está apenas começando.

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