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Paulo Filho

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A nova lógica do poder

O fim da ordem liberal – lições da Conferência de Munique

O Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, discursa durante a 62ª Conferência de Segurança de Munique (MSC) no hotel "Bayerischer Hof", em Munique, Alemanha, em 14 de fevereiro de 2026. (Foto: Ronald Wittek/EFE/EPA)

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A Conferência de Segurança de Munique de 2026 foi realizada na semana passada. Tratou-se de mais uma edição do tradicional fórum de discussão sobre segurança e defesa, que ocorre anualmente desde 1963 e que reúne importantes autoridades de todo o mundo.

Repercutindo o momento de grande instabilidade global, o relatório do evento, que tem por título “Sob destruição”, apresenta como principal conclusão a ideia de que a ordem internacional liberal, construída no pós-guerra, não está apenas em crise ou em adaptação, mas está, sim, passando por um processo de ativo desmonte, principalmente pela ação deliberada dos EUA, que abandonaram seu papel histórico de sustentação das regras, instituições e normas multilaterais.

O discurso de Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, no evento era bastante aguardado. Afinal, todos por lá se recordam do discurso do vice-presidente JD Vance, feito no ano passado, que desdenhou da Europa e causou enorme constrangimento aos presentes. Rubio causou alívio ao fazer um discurso muito mais diplomático, ressaltando os laços culturais comuns entre europeus e americanos.

No mérito, entretanto, as palavras do secretário de Estado dos EUA confirmaram as conclusões do relatório. Rubio faz isso explicitamente em vários momentos de sua fala, ao desqualificar a ideia de “assim chamada ordem internacional” como uma espécie de ilusão, ao afirmar que não se pode colocar a ordem global acima dos interesses vitais de cada país, ao relativizar o direito internacional como “abstrações que não podem servir de escudo” e ao legitimar ações unilaterais e o uso da força como solução quando as instituições falham.

Wang Yi, ministro das Relações Exteriores da China, também discursou no evento, e sua fala reiterou o diagnóstico do relatório. Ele sustentou que a ordem do pós-1945 está sob ataque ativo, sobretudo devido à erosão deliberada das normas, do multilateralismo e do primado das regras, em favor de ações unilaterais e lógicas de poder. Ele descreveu um mundo em que “a lei da selva e o unilateralismo correram soltos” e alertou que, sem a ONU e o multilateralismo, o sistema internacional regrediria ao domínio dos fortes sobre os fracos.

É interessante notar, entretanto, que Yi não defende um retorno ao status quo liberal tal como concebido no pós-guerra pelo Ocidente, mas uma reinterpretação “à chinesa”: “harmonia sem uniformidade”, rejeição a “imposições de vontade”, maior voz ao “Sul Global”.

O chanceler alemão Friedrich Merz, anfitrião do evento, reconheceu a deterioração das relações entre EUA e Europa, que ficaram explícitas na crise envolvendo a ambição americana sobre a Groenlândia, mas ofereceu uma saída ao propor uma resposta europeia que torne o continente menos dependente estrategicamente dos EUA, que possibilite à Europa discordar dos EUA, sem, entretanto, romper o vínculo transatlântico. Isso passa por maiores investimentos em defesa, estímulos à base industrial de defesa do continente e maior coordenação industrial e tecnológica entre os países europeus.

Assim, se Rubio confirma o relatório pela negação da ordem baseada em regras e Wang Yi confirma o relatório ao propor um multilateralismo que atenda aos interesses chineses, Merz confirma as conclusões do relatório pela aceitação do colapso parcial da ordem e pela tentativa de salvá-la com poder europeu.

A retórica política em Munique foi dura. Mas o sinal mais importante veio fora do palco: as Forças Armadas europeias já estão se reorganizando para uma era de risco real

VEJA TAMBÉM:

Em um artigo publicado simultaneamente, imediatamente após o encerramento da Conferência, nos jornais The Guardian e Die Welt, escrito pelos generais Richard Knighton e Carsten Breuer, os principais líderes militares do Reino Unido e da Alemanha descrevem iniciativas para acelerar uma maior autonomia europeia em segurança e defesa.

Os dois generais defendem que a Europa faça uma “mudança radical” nos rumos de sua defesa, para poder fazer face à ameaça russa, que eles percebem como crescente. Nesse sentido, afirmam que o Reino Unido e a Alemanha estão fazendo a sua parte para aumentar bastante suas capacidades de defesa, com um aumento sem precedentes nos investimentos e no aprofundamento da cooperação militar entre os dois países.

Todo esse esforço visa aumentar a dissuasão europeia, ou seja, criar capacidades militares suficientemente críveis para que eventuais adversários, no caso específico, a Rússia, concluam que os custos de uma ação militar contra a Europa seriam tão altos que inviabilizariam qualquer iniciativa de ataque.

Como se vê, há quase unanimidade entre os principais líderes mundiais de que a ordem internacional está “em destruição”. Isso evidentemente não afeta apenas europeus, americanos e chineses. Afinal, um mundo que destrói ou relativiza as regras em vigor é muito mais complexo para potências médias, com poucos excedentes de poder, como o Brasil.

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