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Paulo Filho

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Oriente Médio

O Irã aposta em uma guerra longa

Soldados iranianos fazem guarda enquanto apoiadores do regime se reúnem na Praça Enqelab para demonstrar apoio ao recém-nomeado Líder Supremo, aiatolá Mojtaba Khamenei, em Teerã. (Foto: EFE/EPA/ABEDIN TAHERKENAREH)

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Mesmo após dez dias de ataques incessantes dos exércitos israelense e norte-americano, que já destruíram grande parte da infraestrutura do país e eliminaram importantes lideranças iranianas, incluindo o líder supremo Ali Khamenei, o Irã continua lutando. O país segue lançando mísseis e drones contra alvos em toda a região e, na prática, conseguiu interromper o fluxo de navios mercantes no Estreito de Ormuz, provocando a disparada dos preços do petróleo e gerando graves consequências para a economia global.

Essa surpreendente resiliência iraniana foi explicada em uma postagem de Seyed Abbas Araghchi, ministro das Relações Exteriores do Irã, em sua rede social, no dia 1º de março: “Tivemos duas décadas para estudar as derrotas das forças armadas dos EUA a leste e a oeste de nós. Incorporamos as lições aprendidas. Os bombardeios em nossa capital não afetam nossa capacidade de conduzir uma guerra. A Defesa Mosaico Descentralizada nos permite decidir quando — e como — a guerra terminará.”

Araghchi se refere a uma estratégia defensiva que privilegia as ações descentralizadas, chamada “defesa em mosaico”. O objetivo dessa abordagem estratégica é garantir que a reação militar prossiga, mesmo no caso de interrupção da cadeia de comando e controle em razão da morte dos comandantes ou da obliteração dos meios de comunicação do exército iraniano.

A estratégia tem uma lógica simples: os 31 corpos da Guarda Revolucionária iraniana espalhados pelo país têm autonomia para agir, atuando de forma praticamente independente, conforme planos preestabelecidos e listas de alvos pré-aprovadas. A “intenção do comandante”, ou seja, o efeito que se pretende alcançar em cada operação militar, é repassado aos subordinados, de modo que eles possam, se necessário, improvisar outras formas ou objetivos de ataque que alcancem o mesmo resultado. Para que isso funcione, a logística deve ser o mais descentralizada possível: depósitos de munições e lançadores de mísseis foram espalhados por todo o território, obrigando os atacantes a multiplicarem a quantidade de alvos, o que demanda tempo e esforços adicionais.

O objetivo é claro: sobreviver ao choque inicial e resistir, travando uma guerra o mais exaustiva possível para o adversário.

A ideia de conceder o máximo de autonomia e iniciativa aos comandantes subordinados não é nova. Os alemães, na blitzkrieg da Segunda Guerra Mundial, fizeram isso, o que permitiu a surpreendente velocidade do avanço sobre a França no início da guerra. Era a chamada “Auftragstaktik”. Na doutrina militar norte-americana, um conceito semelhante é o “mission command” e, na doutrina brasileira, pode ser chamada de “missão pela finalidade”.

A essa altura, o leitor pode estar se perguntando: ok, mas isso será suficiente para derrotar o exército norte-americano, ainda mais secundado pelo muito competente exército israelense? A resposta depende do que os iranianos considerem “vitória”. Para o regime dos aiatolás, simplesmente permanecer no poder ao término das hostilidades já será uma vitória, mesmo que o país saia devastado do conflito. A presença do Talibã no governo do vizinho Afeganistão mostra que isso não é impossível.

Ao lutar contra o exército mais poderoso da história, todas as chances estão contra os iranianos. Mas o mais importante pensador militar do Ocidente, o prussiano Clausewitz, escreveu em sua magistral obra Da Guerra que “nenhuma outra atividade humana é tão continuamente e universalmente influenciada pelo acaso. E, por intermédio do acaso, o acidental e a sorte desempenham um papel de maior importância na guerra”.

Pois bem, quanto mais tempo se passa, maior é a chance de o acaso atuar em favor dos iranianos, e maior é a possibilidade de se conseguir atingir um alvo relevante: um navio americano, uma base militar, uma concentração de tropas. Isso tornaria a luta mais cara — e impopular — para a sociedade americana, que desde o início das hostilidades é majoritariamente contrária ao engajamento dos EUA em mais uma guerra no Oriente Médio.

Diante dessa estratégia de desgaste, o antídoto, do lado americano, seria uma definição clara do objetivo político que se pretende alcançar com o uso do instrumento militar contra o Irã. O lógico seria a troca do regime. Isso daria fim à ditadura teocrática dos aiatolás e abriria espaço para um governo alinhado aos interesses norte-americanos na região, retirando, por tabela, um importante país da esfera de influência chinesa. Mas isso exigiria o envio de tropas ao Irã — algo que o presidente Trump sempre disse que não faria, uma verdadeira “linha vermelha” que ele definiu ainda na campanha eleitoral e reiterou diversas vezes.

Mais uma vez recorro a Clausewitz: “a política é a matriz na qual a guerra se desenvolve”. Não basta aos americanos terem o mais poderoso e competente exército do mundo, capaz de levar a cabo operações militares que nenhum outro país é capaz de realizar. Para vencer guerras, como eles deveriam ter aprendido no Vietnã, no Iraque e no Afeganistão, é preciso que os políticos saibam exatamente onde querem chegar. Pelo jeito, essa lição ficará para a próxima guerra, muito provavelmente contra o próprio Irã, daqui a alguns anos.

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