
Ouça este conteúdo
O Oriente Médio está novamente à beira da guerra. Os Estados Unidos, mais uma vez, concentraram um enorme poder militar nas proximidades do Irã, centrado na Força-Tarefa Aeronaval liderada pelo porta-aviões Abraham Lincoln e composta por dezenas de navios de guerra, centenas de aeronaves e algumas dezenas de milhares de soldados e marinheiros.
O ânimo em Washington parece ser crescentemente o de atuar militarmente para provocar uma mudança na liderança iraniana, na esperança de que um novo governo pudesse ser mais maleável aos interesses norte-americanos e israelenses, em uma situação que ecoa a estratégia — até aqui bastante exitosa do ponto de vista norte-americano — adotada recentemente na Venezuela.
Ainda assim, o Irã não é a Venezuela, e querer replicar estratégias em contextos históricos e geopolíticos distintos é um erro recorrente na história das guerras. Os militares americanos evidentemente sabem disso e certamente já alertaram as lideranças políticas de seu país sobre as dificuldades de se tentar uma solução à la Caracas em Teerã.
Mas vamos retornar alguns passos para entender como a crise atual se desenhou. O Irã foi sacudido por protestos populares, que se iniciaram em 28 de dezembro do ano passado, quando comerciantes do Grande Bazar de Teerã saíram às ruas para protestar contra a inflação galopante e as cada vez piores condições econômicas enfrentadas pela população.
As manifestações rapidamente se espalharam pelo país, até serem violentamente reprimidas pelo governo iraniano. A repressão brutal, que fez uso inclusive do bloqueio total da internet no país, levou a milhares de mortes e prisões.
No dia 13 de janeiro, o presidente Trump escreveu em suas redes sociais: “Patriotas iranianos, continuem protestando — ocupem suas instituições!!!... a ajuda está a caminho”.
O post teve efeito imediato no cenário político interno iraniano, gerando expectativas entre manifestantes, mas a ajuda não chegou até hoje e serviu, ao contrário, para justificar um endurecimento do regime. Autoridades iranianas, incluindo o embaixador na ONU, Amir Saeid Iravani, e o Ministério das Relações Exteriores, acusaram explicitamente a declaração de Trump de “incitar violência” e “encorajar desestabilização política”, o que justificaria uma resposta mais dura do regime para “manter a ordem”.
Assim, Trump se colocou, por suas próprias declarações, em uma posição de fragilidade. Ao prometer ajuda aos manifestantes iranianos e não a entregar, acabou corroendo sensivelmente sua própria credibilidade. Não enviou apoio a tempo para evitar as mortes daqueles que tentaram “ocupar suas instituições”, o que torna ainda mais difícil sustentar a retórica adotada.
Certamente, essa circunstância aumenta bastante a probabilidade de que ele determine uma ação militar contra o Irã assim que os militares lhe informarem que estão com o dispositivo pronto para a ação. Além disso, uma vitória significativa contra o Irã seria um marco importantíssimo de seu governo e, se isso acontecesse antes das eleições de meio de mandato para o Congresso, que ocorrem em novembro, serviria como importante trunfo para impulsionar seus candidatos.
Entretanto, retorno ao mote desta coluna: o Irã não é a Venezuela. A ação cirúrgica que capturou Nicolás Maduro e sua esposa em Caracas, sem nenhuma perda norte-americana e com cerca de uma centena de baixas cubanas/venezuelanas, é impossível de se repetir em Teerã por algumas razões.
Em primeiro lugar, pela geografia. Enquanto Caracas fica a apenas 15 km do litoral em linha reta, Teerã, protegida por montanhas, está a quase 1.000 km de distância do Golfo Pérsico. É evidente que isso impede a replicação, em Teerã, da operação aeronaval feita em Caracas.
Some-se a isso o fato de as forças armadas iranianas serem incomparavelmente mais preparadas que as forças venezuelanas. A chance de a antiaérea conseguir abater alguma aeronave atacante, de um míssil atingir algum navio americano ou de um contra-ataque com mísseis atingir alguma das cerca de 19 bases militares dos EUA na região do Oriente Médio, causando baixas, não é desprezível. Em síntese, trata-se de um cenário de risco real, e não de uma operação de custo zero.
É neste ponto que Trump parece hesitar. Ele é avesso ao risco e já mostrou isso. Suas ações militares são rápidas, para que ele possa anunciar prontamente um resultado espetacular e encerrar o assunto
VEJA TAMBÉM:
O precedente de junho de 2025 ilustra perfeitamente essa preferência: após o ataque cirúrgico às instalações nucleares iranianas, Trump anunciou em poucas horas que a missão estava cumprida e as instalações “completamente obliteradas”, declarando imediatamente que “agora era hora da paz”. A resposta iraniana — um ataque à Base de Al Udeid, no Catar — foi calibrada, com aviso prévio e sem baixas americanas, permitindo um cessar-fogo rápido, em menos de 48 horas, e evitando qualquer escalada prolongada.
No entanto, agora as coisas são diferentes. As manifestações populares, a declaração de Trump incitando os iranianos a “ocupar suas instituições” e prometendo ajuda, e o “precedente Venezuela” mostram aos integrantes do regime iraniano que eles podem estar prestes a lutar por sua permanência no poder e — em último caso — por suas próprias vidas. Assim, o próximo ataque a Al Udeid ou contra outros alvos americanos pode não ser coreografado, como da última vez.
O que Trump teme é que, caso uma ação militar americana redunde em um contra-ataque iraniano que cause vítimas entre os soldados americanos, ele seja obrigado a escalar a ação e acabe se envolvendo em um conflito militar de mais longa duração, algo que ele sempre criticou e sempre disse aos seus eleitores que não faria.
Esse é o dilema do presidente americano: se não atacar o Irã, depois de prometer socorro e concentrar enorme poder militar no Oriente Médio, poderá passar por fraco e ver sua credibilidade corroída, inclusive perante adversários e mesmo perante aliados.
Se atacar, poderá envolver os Estados Unidos em um conflito de maior duração, nos moldes do Iraque ou do Afeganistão, algo que ele sempre criticou e que sempre afirmou que não faria.
As próximas semanas serão, portanto, decisivas não apenas para Trump e para o Irã, mas para o equilíbrio estratégico de todo o Oriente Médio e, possivelmente, para a própria forma como os Estados Unidos empregarão seu poder militar daqui em diante.




