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Paulo Filho

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Poder geopolítico

Ormuz hoje, Taiwan amanhã: os gargalos da economia global

Navio atingido por projéteis no estreito de Ormuz. (Foto: EFE/Armada Real de Tailandia)

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A crise econômica global deflagrada pela interrupção, pelo Irã, do tráfego normal de navios mercantes — especialmente petroleiros — no Estreito de Ormuz relembra ao mundo a centralidade de algumas matérias-primas essenciais para a vida moderna, bem como a importância fundamental do estudo da Geopolítica para a compreensão das relações de poder entre os Estados.

Uma definição simples, mas, na minha opinião, bastante adequada de Geopolítica é a que a define como sendo “o estudo da aplicação do poder do Estado aos espaços geográficos”. O que o Irã está fazendo é justamente aplicar o seu poder militar ao Estreito de Ormuz, controlando o fluxo de petróleo de forma a elevar substancialmente o seu preço no mercado mundial e, consequentemente, pressionar os Estados Unidos e Israel a encerrarem sua campanha militar contra o país.

Além do Estreito de Ormuz, há outros pontos fundamentais para o fluxo mercante internacional, como Bab el-Mandeb (onde os Houthis, aliados dos iranianos, podem, a qualquer momento, voltar a atacar navios mercantes, como fizeram até o ano passado), o Canal de Suez, o Canal do Panamá e o Estreito de Malaca.

Por esses pontos transita uma parcela significativa do comércio marítimo global, incluindo grande parte do petróleo comercializado internacionalmente.

A interrupção do fluxo de navios por qualquer um deles causaria um efeito semelhante ou até mais grave do que o que estamos assistindo agora em Ormuz

A pressão feita pelos Estados Unidos sobre o Panamá para afastar a companhia chinesa que administrava dois portos no canal que liga os oceanos Atlântico e Pacífico, na América Central, e que é de fundamental importância para os EUA mostra que as grandes potências estão muito atentas a essa realidade.

Ao mesmo tempo em que o controle desses pontos de estrangulamento é de fundamental importância geopolítica, a concentração da produção de determinadas matérias-primas e de bens essenciais à economia moderna em poucos países também é uma questão crítica e que poderá ensejar conflitos e guerras no futuro. Os minerais críticos, as terras raras e os semicondutores são bons exemplos.

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No ano passado, em meio à guerra tarifária com os EUA, a China interrompeu as vendas de ímãs de terras raras aos norte-americanos. Tratando-se de uma matéria-prima fundamental para a produção de automóveis, sistemas de armas e eletrônicos, essa decisão contribuiu para pressionar os EUA a buscarem um acordo com os chineses.

Em relação às terras raras, a China atualmente é responsável por cerca de 60% da mineração global, 91% do refino e 94% da produção de ímãs — uma concentração que lhe confere uma enorme vantagem sobre os EUA e que foi fruto de uma estratégia de longo prazo.

Em 1992, em uma visita a uma das maiores minas de terras raras da China, Deng Xiaoping declarou que “o Oriente Médio tem petróleo; a China tem terras raras”. Vista pela perspectiva de quem assiste à disrupção econômica causada pela interrupção do livre fluxo de petróleo do Oriente Médio, a frase de Deng Xiaoping parece hoje assustadoramente premonitória.

Do ponto de vista geopolítico, Taiwan desempenha um papel semelhante em relação à produção de semicondutores. A ilha produz mais de 90% dos chips mais avançados do mundo — aqueles utilizados em inteligência artificial, GPUs de alto desempenho e processadores de ponta, como os da Apple, Nvidia e AMD. Imagine-se, por um momento, o efeito econômico que um bloqueio naval à ilha pela Marinha chinesa causaria à economia global.

O presidente Trump cometeu um erro de avaliação ao imaginar que a ação militar no Irã seria rápida e praticamente indolor. Ele subestimou a capacidade do Irã de bloquear Ormuz, mesmo a geografia da região indicando que essa seria uma opção perfeitamente viável para os iranianos.

Para o petróleo, entretanto, o mundo ainda dispõe de alternativas fora do Oriente Médio. No caso das terras raras e dos semicondutores, essas alternativas são extremamente limitadas.

É justamente nesse ponto que a geopolítica revela toda a sua força: o controle de espaços geográficos estratégicos e de recursos críticos transforma-se em instrumento direto de poder. E, ao longo da História, quando grandes potências militares percebem que suas alternativas políticas e econômicas se esgotam, a guerra passa a ser a principal escolha.

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