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Paulo Filho

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Ambição territorial

Quando o aliado vira problema: Trump, a Groenlândia e a OTAN

Trump: pulso firme no combate à violência urbana nos Estados Unidos.
Donald Trump anuncia tarifas contra países que rejeitam a compra da Groenlândia e amplia a pressão diplomática sobre aliados europeus. (Foto: Nicole Combeau/EFE/EPA/POOL)

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No discurso de posse proferido por Donald Trump no dia 20 de janeiro do ano passado, uma frase chamou pouca atenção. Disse o presidente: “Os Estados Unidos voltarão a se considerar uma nação em crescimento — uma nação que aumenta sua riqueza, expande seu território, constrói suas cidades, eleva suas expectativas e leva sua bandeira a novos e belos horizontes.” Ninguém deu muita bola à parte da expansão territorial. Parecia um arroubo retórico, sem consequências na vida real. Afinal, não se poderia imaginar, na prática, como e por que os EUA expandiriam seu território, em pleno século XXI.

Os últimos acontecimentos, entretanto, mostram que Donald Trump não estava brincando. O presidente americano anunciou que, a partir do primeiro dia do mês que vem, os EUA imporão 10% de tarifas a todas as importações vindas de oito países europeus: Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia.

Foram exatamente esses países que atenderam ao convite da Dinamarca e resolveram participar de manobras militares na Groenlândia, ilha pertencente à Dinamarca, que Trump decidiu, a todo custo, incorporar ao território norte-americano. Entretanto, Trump foi além ao afirmar que, a partir de 1º de junho, a tarifa passará a ser de 25% e permanecerá em vigor até que um acordo seja firmado para a compra “completa e total” da Groenlândia.

A ideia dinamarquesa, ao convidar os países europeus para as manobras militares, foi dar os primeiros passos para a criação de uma missão rotineira que garantisse uma presença militar mais robusta na ilha gelada, possivelmente incluindo essas atividades no rol de tarefas permanentes da OTAN.

Copenhague tentava, dessa forma, responder às alegações de Trump de que a Groenlândia estaria vulnerável à presença militar cada vez maior da Rússia e da China na região. Ao mesmo tempo, de forma não declarada, os europeus demonstram a Trump que apoiam a Dinamarca contra as pretensões territoriais americanas.

Na mesma mensagem, publicada em sua rede social, na qual anunciou a imposição das tarifas, Trump mostrou que entendeu o desdobramento militar na Groenlândia como um recado e não gostou nada. O presidente escreveu que a Dinamarca defendia a Groenlândia com “dois trenós puxados por cães”, sendo que um terceiro teria sido “recentemente adicionado”, e que os sete países europeus que haviam se juntado à Dinamarca para as manobras militares teriam “viajado à Groenlândia com propósitos desconhecidos”.

Trump alega querer incorporar a Groenlândia aos EUA por razões securitárias, para proteger os Estados Unidos da presença cada vez maior de russos e chineses no Ártico. Do ponto de vista geoestratégico, a preocupação de Trump faz sentido. Basta observar o mapa do Ártico para se perceber a posição estratégica da Groenlândia, cujas costas controlam importantes vias marítimas, cada vez mais utilizadas em razão da maior navegabilidade causada pelo derretimento do Oceano Polar Ártico. Também é pelo espaço aéreo groenlandês que os novos mísseis hipersônicos russos poderiam passar em um eventual ataque ao território dos EUA.

Entretanto, é evidente que bastaria uma conversa entre Trump, europeus e canadenses, no âmbito da OTAN, para que todas as medidas de segurança consideradas necessárias pelos EUA fossem adotadas.

É justamente para isso que a aliança militar do Atlântico Norte foi criada, e os dinamarqueses, que sempre foram aliados leais dos Estados Unidos, nunca se recusariam a tomar as providências que estivessem em sua alçada ou a permitir aos EUA a instalação de quantas bases militares fossem necessárias na Groenlândia. Aliás, isso já acontece: os EUA operam uma base militar na Groenlândia (Pituffik/Thule) sob acordos com a Dinamarca.

O ponto, portanto, não é negar a importância estratégica da ilha, mas notar que anexá-la não é condição necessária para aumentar sua defesa

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Se a justificativa securitária, tal como apresentada, não se sustenta, qual seria a verdadeira motivação de Trump para querer incorporar a Groenlândia aos EUA? Talvez o atrativo seja econômico.

A ilha possui grande riqueza mineral, representada por reservas de lítio e de minerais de terras raras, além de petróleo, cuja extração é muito complexa em razão do gelo que recobre a maior parte do território, mas que tende a se tornar mais simples à medida que o derretimento da calota polar ártica se acelera.

Outra justificativa pode parecer simplória, mas, a cada dia, parece ser a que melhor explica a obsessão de Trump com o tema. Toda essa movimentação americana em torno da Groenlândia pode ser resultado apenas da vontade de Donald Trump de entrar para a história como o presidente que, no ano em que os Estados Unidos completam 250 anos de sua independência — o que ocorrerá no próximo dia 4 de julho —, acrescentou 2.166.000 km² ao território americano.

Isso faria dele o responsável pela maior incorporação territorial da história do país, superando a compra da Louisiana, em 1803, realizada por Thomas Jefferson, e a aquisição do Alasca, em 1867, durante o governo de Andrew Johnson.

Seja qual for a razão que verdadeiramente motive a obsessão de Trump com a Groenlândia, o fato é que a questão já causou um dano significativo à coesão da OTAN. Confiança é um atributo que não admite fissuras; quando ela se quebra, é difícil e demorado reconstruí-la.

Claramente, a confiança entre europeus e norte-americanos está abalada, e já não se pode ter certeza do cumprimento integral, por parte de todos, do fundamento básico da Aliança, aquele constante do artigo 5º do Tratado de Washington, que afirma que um ataque armado contra um dos membros será considerado um ataque contra todos os membros e, por isso, ensejará uma resposta coletiva dos aliados contra o agressor, nos termos do Tratado.

Chineses e russos, tenho certeza, não poderiam imaginar que o fim da OTAN pudesse estar mais próximo em razão de uma questão como essa do que em razão de qualquer iniciativa por eles mesmos adotada. Tristes, eles não devem estar.

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