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Paulo Filho

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Quatro anos de conflito e sem horizonte de paz

Quatro anos de Guerra na Ucrânia: um conflito que reconfigurou a ordem internacional

Quatro anos depois, a guerra expôs erros de cálculo, endureceu blocos rivais e tornou a Europa mais insegura — sem paz real à vista. (Foto: Esteban Biba/EFE)

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Amanhã, dia 24 de fevereiro, a guerra entre Rússia e Ucrânia completa quatro anos de duração. O marco temporal impressiona, pois ninguém poderia imaginar, naquele 24 de fevereiro de 2022, data da invasão russa, que o conflito pudesse se estender por tanto tempo. Afinal, a desproporção entre as forças em confronto era enorme, e a crença generalizada era a de que o exército de Putin encerraria, de forma exitosa, a sua “Operação Militar Especial” no prazo de dias, no máximo semanas.

Como se sabe, isso não aconteceu. Para fins analíticos, podemos dividir a guerra em fases. A primeira, entre fevereiro e abril de 2022, foi a invasão russa do território ucraniano, em quatro grandes direções de ataque: uma pelo Norte, de Belarus em direção a Kiev; outra vinda do Nordeste, em direção a Kharkiv; uma entrando na Ucrânia pelo Leste, na região do Donbas; e, finalmente, outra pelo Sul, vinda da Crimeia e dos mares de Azov e Negro.

Após um grande avanço inicial, em meados de março de 2022, o avanço russo foi estancado pelas defesas ucranianas. No mês seguinte, em abril, a Rússia retirou as forças que estavam às portas de Kiev, voltando sua atenção principalmente para a região do Donbas, especificamente para a cidade portuária de Mariupol, onde, após um cerco de quase três meses, as forças russas saíram vencedoras.

O fracasso na tentativa de ocupar Kiev e o alto custo cobrado pelos ucranianos aos russos pela conquista de Mariupol já mostravam, com clareza, que a “Operação Militar Especial” duraria muito mais do que Putin esperava.

A segunda fase foi a contraofensiva ucraniana do outono de 2022. A partir de agosto, a Ucrânia iniciou uma série de contra-ataques exitosos no nordeste do país, empurrando os russos de volta para o seu próprio território, na região de Kharkiv.

A partir de setembro, no Sul, a contraofensiva ucraniana seguiu na direção de Kherson. Em novembro, os ucranianos tinham conseguido recuperar boa parte do território, empurrando os russos para a margem sul do rio Dnieper.

A partir de novembro de 2022, a guerra entrou em um grande período de estagnação, no qual nenhum dos contendores conseguiu avanços ou vitórias decisivas. Nessa fase, a guerra de atrito se intensificou, e os avanços russos foram, lentamente, ampliando o controle sobre os territórios de Lugansk e Donetsk, no Donbas.

Com a chegada de Donald Trump ao poder nos EUA, a guerra entrou em uma quarta fase. O apoio norte-americano à Ucrânia, que vinha sendo fundamental para o seu esforço de guerra durante o governo Biden, praticamente foi reduzido a zero, com os ucranianos passando a ser apoiados quase exclusivamente pelos países europeus.

Mesmo as armas e munições de origem norte-americana, muitas das quais antes enviadas à Ucrânia a título de ajuda militar, somente continuaram a ser exportadas mediante pagamento europeu.

A pressão do governo dos EUA por uma paz a qualquer custo, apesar de muito forte e claramente inclinada a beneficiar os interesses russos em desfavor dos ucranianos, ainda não foi capaz de levar a um acordo.

O que impede um acordo de paz são as posições irreconciliáveis dos dois países. A Ucrânia, apoiada pelos europeus, exige garantias claras de segurança, na forma da presença, em seu território, de tropas europeias que assegurem os termos de um eventual cessar-fogo. Os russos não aceitam essa imposição.

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É bom lembrar que uma das razões elencadas pela Rússia para a invasão da Ucrânia foi a “expansão da OTAN para o Leste”. Seria muito difícil para Putin explicar aos russos que, após tantos anos de guerra, ao seu término, tropas de países europeus membros da OTAN estivessem dentro da Ucrânia, ou seja, ainda mais próximas das fronteiras russas.

Outro ponto em que há completa divergência é a exigência russa de controlar integralmente as províncias de Lugansk e Donetsk, inclusive aquelas ainda controladas pelos ucranianos, ou seja, não conquistadas pela Rússia na guerra. Este é um ponto, até aqui, inegociável para os ucranianos, que não aceitam entregar gratuitamente um território muito importante, tanto do ponto de vista econômico quanto geoestratégico, aos russos.

Se a guerra prossegue, infelizmente, sem um acordo de paz visível no horizonte, seus efeitos na política internacional e nos campos da estratégia e da geopolítica já se fazem sentir de forma muito palpável, especialmente no palco do conflito: a Europa.

A “ameaça russa” já fez os investimentos em defesa dos países europeus dispararem. Diversas autoridades militares alertam, com frequência, sobre a possibilidade de os europeus serem obrigados a enfrentar militarmente a Rússia após o fim da guerra na Ucrânia.

Em novembro do ano passado, o general francês Fabien Mandon, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas da França, ou seja, o mais graduado militar do país, declarou que “temos que aceitar a possibilidade de perder nossos filhos”. Em suas palavras, ele alertava que a Rússia se prepara para um conflito até 2030 e que a França (e a Europa) seriam vulneráveis sem uma preparação total da sociedade, não apenas do Exército.

Em dezembro do ano passado, líderes militares de oito países da UE fronteiriços com a Rússia (Polônia, Estônia, Letônia, Lituânia, Finlândia, Suécia, Romênia e Bulgária) declararam que “a Rússia é a ameaça mais significativa, direta e de longo prazo à nossa segurança e à paz na região euro-atlântica”. Eles pediram priorização “imediata e urgente” das defesas no flanco leste, citando a guerra na Ucrânia e ataques híbrbridos russos como fatores irreversíveis.

Essas declarações, e muitas outras, refletem um consenso crescente entre militares europeus: a Rússia não é apenas uma ameaça à Ucrânia, mas um risco existencial para toda a Europa

Por outro lado, a guerra acelerou a aproximação da Rússia com a Coreia do Norte, que fornece armas, munições e soldados aos russos; com o Irã, que fornece armas, especialmente drones; e com a China, que, além de fornecer componentes industriais de uso dual, garante a retaguarda financeira para uma Rússia quase completamente isolada comercialmente da Europa.

O resultado é uma reconfiguração do sistema internacional, com blocos rivais ganhando contornos mais nítidos e riscos de escalada em outros teatros — do Indo-Pacífico ao Oriente Médio — tornando-se mais concretos.

A guerra na Ucrânia, para além das centenas de milhares de mortes que já causou, do enorme sofrimento infligido às populações envolvidas e dos incalculáveis prejuízos materiais e financeiros, afetou profundamente o sistema internacional. Ela será lembrada no futuro como um marco, um momento definidor que alterou profundamente as relações internacionais nesta segunda década do século XXI.

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