
Ouça este conteúdo
Esta semana, finalmente, ocorrerão as eleições parlamentares de meio de mandato nos Estados Unidos. Os norte-americanos vão mais uma vez às urnas para escolher a nova composição da Câmara dos Representantes, que se renova completamente, e de aproximadamente um terço do Senado, além de eleger governadores de 36 estados e três territórios e ocupantes de diversos outros cargos estaduais e locais. Muito está em jogo na maior potência do planeta, com a definição das forças políticas que dominarão cada uma das casas do Congresso nos dois últimos anos de mandato do presidente Trump.
As eleições se converteram em uma espécie de referendo do trumpismo. O presidente dos EUA chega às eleições com a popularidade bastante baixa, com aprovação inferior a 40% e desaprovação próxima de 60%, segundo os agregadores de pesquisas, o que, em larga medida, prejudica os candidatos do seu Partido Republicano. Entretanto, a impopularidade de Trump não redunda automaticamente em aprovação do oposicionista Partido Democrata, que também registra maior rejeição do que aprovação nas pesquisas. Isso sugere que a insatisfação dos eleitores americanos ultrapassa a avaliação do governo e alcança os dois principais partidos do país.
Hoje, dia 3, é o chamado “Election Day”, último dia para a votação. Entretanto, muitos eleitores já votaram antecipadamente, presencialmente ou pelo correio. Alguns estados também aceitam receber depois do dia 3 as cédulas enviadas dentro do prazo: na Califórnia, por exemplo, votos com carimbo postal até 3 de novembro poderão chegar até o dia 10, para posterior conclusão da apuração. Assim, a definição de algumas disputas — e, dependendo delas, do controle do Congresso — poderá se estender por mais alguns dias.
Um eventual enfraquecimento de Trump no Congresso não significará, necessariamente, menor disposição para agir no cenário internacional
O mundo todo aguarda o dia seguinte às eleições dos EUA para entender qual será a reação do presidente Trump. Há especulações de que ele poderá, passado o pleito e reduzida a pressão eleitoral imediata, determinar a retomada das operações ofensivas contra o Irã. Essas especulações foram reforçadas pelas notícias de que o grupo de ataque do porta-aviões USS Theodore Roosevelt estaria a caminho do Oriente Médio, assim como o grupo anfíbio que transporta a 13ª Unidade Expedicionária de Fuzileiros Navais, para reforçar a presença militar norte-americana na região. Uma das principais frustrações do presidente Trump é a persistência dos preços elevados do petróleo, razão pela qual o preço dos combustíveis permanece alto nos EUA, o que contribui para sua baixa popularidade. Uma ação mais contundente contra o Irã, que continua atacando petroleiros no Estreito de Ormuz e contribuindo para a manutenção do preço do petróleo nas alturas, poderia ser apresentada como uma tentativa de restabelecer a segurança da navegação. Entretanto, uma nova escalada militar que acarretasse mais baixas entre os militares dos EUA poderia aumentar ainda mais a impopularidade de Trump, sem falar que também poderia agravar as interrupções no fornecimento e elevar ainda mais os preços, ao menos no curto prazo.
Há que se considerar também que a passagem das eleições significará, para o presidente Trump, a entrada na reta final de seu último mandato como presidente. Aos 80 anos de idade, a preocupação com a forma como será visto pela história poderá pesar em suas decisões. Se as pesquisas estiverem certas e seu partido perder o controle de uma ou das duas casas do Congresso, isso acentuará seu enfraquecimento político. Entretanto, embora a perda de apoio parlamentar dificulte a condução da agenda doméstica, a liberdade de atuação do presidente dos EUA em assuntos de política externa permanece bastante alta mesmo em casos em que ele não possui a maioria parlamentar, ainda que sujeita a limites legais, orçamentários e políticos. Isso pode levar o presidente Trump a buscar na política externa a construção de seu legado. A mudança de regime e o fim da ameaça nuclear representada pelo Irã, ou a mudança do regime em Cuba, uma maior pressão sobre a Ucrânia para que aceite os termos russos para o fim da guerra, ou uma ainda maior assertividade no Hemisfério Ocidental poderiam ser caminhos para que Trump encontrasse razões para ser lembrado no futuro.
Assim, o resultado das urnas terá consequências que ultrapassarão as fronteiras norte-americanas. Um eventual enfraquecimento de Trump no Congresso não significará, necessariamente, menor disposição para agir no cenário internacional. A questão será saber se a busca por um legado favorecerá a negociação ou o emprego da força. Para um mundo já marcado por tantas guerras e incertezas, essa não é uma diferença pequena.

Paulo Filho é coronel de Cavalaria da reserva do Exército, Bacharel em Ciências Militares, Mestre em Operações Militares e em Estudos de Defesa e Estratégia e especialista em História Militar. Comandou Esquadrões de Carros de Combate e de Fuzileiros Blindados em Regimentos de Cavalaria e foi oficial de Inteligência da 5ª Brigada de Cavalaria Blindada. Hoje, se dedica aos estudos geopolíticos. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



