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Os presidentes Trump, dos Estados Unidos, e Xi Jinping, da China, se reuniram em Washington na semana passada, e a reunião foi objeto da atenção de todos os que se dedicam a tentar compreender os rumos do sistema internacional neste momento tão conturbado. Afinal, os encontros e desencontros entre chineses e norte-americanos não afetam apenas os dois países, mas também toda a comunidade internacional.
A importância do encontro pode ser demonstrada pela excepcionalidade da recepção preparada por Trump. O presidente dos EUA foi pessoalmente receber Xi Jinping na Base Andrews, uma atitude bastante rara em eventos desse tipo, com direito a tapete vermelho, execução dos hinos, guarda de honra e sobrevoo de bombardeiros B-1. No dia seguinte, na Casa Branca, houve nova cerimônia militar, agora com sobrevoos de bombardeiros B-2 e caças F-22. Essa preocupação de Trump em fazer uma recepção pomposa demonstra com clareza a importância que o presidente norte-americano atribui à sua relação pessoal com Xi.
No encontro, da mesma forma que havia feito na última reunião entre os dois presidentes, em Pequim, em maio, o presidente chinês voltou a citar a Armadilha de Tucídides. A insistência de Xi Jinping em relembrar a dinâmica formulada pelo cientista político Graham Allison no livro “A caminho da guerra – os EUA e a China conseguirão escapar da Armadilha de Tucídides?” (Ed. Intrínseca, 2020), de que já tratei neste espaço na Gazeta do Povo, mostra como o líder chinês já assume como dada a condição de seu país de potência emergente desafiante da potência hegemônica, capaz, por conseguinte, de disputar com os Estados Unidos a definição das regras de funcionamento da ordem internacional. Xi o faz, entretanto, propondo mecanismos de controle das tensões e de mitigação de crises, afirmando que China e EUA deveriam ampliar a comunicação, manter diálogo regular entre seus militares e aperfeiçoar mecanismos de prevenção de crises. Nessas condições, afirmou o presidente chinês, a Armadilha de Tucídides poderia ser superada.
Os principais temas em discussão foram aqueles que mais afetam a relação bilateral: questões comerciais, inteligência artificial, Taiwan, minerais críticos e terras raras e as guerras no Oriente Médio e na Ucrânia.
Houve alguns entendimentos, modestos, mas que demonstram que tanto Xi quanto Trump desejam colocar limites na competição entre os dois países e estabelecer “guard rails” que impeçam justamente que eles caiam na Armadilha de Tucídides. Assim, foram anunciadas recomendações para um tratamento tarifário mais favorável a US$ 30 bilhões em produtos não sensíveis de cada país, além da extensão da trégua tarifária por mais dois meses. Também se avançou na implementação de mecanismos bilaterais destinados a administrar as relações comerciais e os investimentos. Ficou resolvido ainda que os dois países estabelecerão um canal de comunicação para incidentes relacionados à inteligência artificial.
No que se refere ao Irã, ambos os países afirmaram concordar que o país deve honrar seu compromisso de não desenvolver armas nucleares e que nenhum país ou instituição pode ser autorizado a impor taxas em vias navegáveis internacionais, um claro recado acerca da pretensão iraniana no Estreito de Ormuz. Divulgou-se que questões acerca da guerra na Ucrânia e da Coreia do Norte também foram discutidas, embora nenhuma declaração sobre esses temas tenha sido divulgada.
Nos temas mais sensíveis e relevantes, entretanto, não houve avanço notável. Xi gostaria que os EUA fizessem uma declaração na qual afirmassem claramente que se opõem à independência de Taiwan, e essa declaração não veio. Por outro lado, Trump mantém suspenso, há meses, um pacote de cerca de US$ 14 bilhões em vendas de armas para a ilha, pré-aprovado pelo Congresso, mas ainda dependente de autorização formal da Casa Branca, uma decisão que, ao menos momentaneamente, atende aos anseios de Pequim.
Em relação ao tema das terras raras, muito sensível para os norte-americanos, que dependem perigosamente das exportações chinesas desses insumos fundamentais para sua indústria de defesa, houve poucos avanços. Trata-se de uma dependência que oferece à China um importante instrumento de pressão na disputa comercial e tecnológica entre as duas potências. Antes da reunião, havia insatisfação em Washington porque, apesar dos entendimentos anteriores, os fluxos de terras raras chinesas para os EUA continuavam abaixo do esperado. Em agosto, por exemplo, as exportações chinesas de terras raras para os Estados Unidos haviam caído cerca de 20% em relação a julho. Após o encontro, Washington divulgou que os dois países continuariam trabalhando para normalizar os fluxos de exportação chineses para os Estados Unidos.
Como se vê, apesar dos resultados modestos da reunião, talvez o principal êxito tenha sido evitar uma ruptura, administrando uma competição estratégica que continuará intensa.
Ambos os líderes parecem reconhecer a importância do estabelecimento de um diálogo que mantenha as relações nos trilhos, apesar dos muitos pontos de atrito
Xi fala explicitamente em escapar da Armadilha de Tucídides; Trump oferece ao rival chinês uma recepção excepcional; os dois criam canais de diálogo e mecanismos para administrar comércio, investimentos e IA; e já preveem novos encontros durante as futuras reuniões do G20 e da APEC.
Xi Jinping anunciou ainda outra iniciativa. Os pandas Ping Ping e Fu Shuang, “embaixadores da amizade”, segundo o presidente chinês, serão enviados ao zoológico de Atlanta. A lembrança é inescapável: em 1972, no contexto da aproximação entre Richard Nixon e Mao Tse-tung, a China enviou os pandas Ling-Ling e Hsing-Hsing aos Estados Unidos.
Se naquela época os pandas simbolizaram a aproximação entre dois países que, durante mais de duas décadas, haviam estado em campos ideológicos opostos, em 2026 os pandas talvez simbolizem algo diferente: o esforço para impedir que duas potências que já são competidoras estratégicas se transformem em inimigas, evitando que escalem mais um perigoso degrau na Armadilha de Tucídides.

Paulo Filho é coronel de Cavalaria da reserva do Exército, Bacharel em Ciências Militares, Mestre em Operações Militares e em Estudos de Defesa e Estratégia e especialista em História Militar. Comandou Esquadrões de Carros de Combate e de Fuzileiros Blindados em Regimentos de Cavalaria e foi oficial de Inteligência da 5ª Brigada de Cavalaria Blindada. Hoje, se dedica aos estudos geopolíticos. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



