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A invasão russa da Ucrânia completa, no dia de hoje, 5 de outubro de 2026, 1.685 dias. Mesmo já se estendendo por mais tempo do que a Primeira Guerra Mundial, ainda não é possível antever um fim próximo para o conflito.
O custo humano e material da guerra para os ucranianos já é gigantesco. O país tem 20% do seu território internacionalmente reconhecido ocupado. Para um brasileiro compreender a dimensão dessa perda territorial, basta imaginar que um país invasor ocupasse uma faixa contínua que se estendesse do Rio Grande do Sul ao Espírito Santo, abrangendo também Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Goiás e o Distrito Federal. Essa área corresponde a aproximadamente 19% do território brasileiro.
A economia ucraniana foi muito impactada, estando sua produção econômica, nos dias de hoje, inferior ao que era em 2021. Os custos de reconstrução da infraestrutura do país estão estimados em quase US$ 600 bilhões. No campo humano, a ONU já confirmou mais de 17 mil civis mortos e mais de 53 mil feridos, números certamente inferiores à realidade. As perdas militares são ainda mais difíceis de determinar, mas estimativas independentes apontam para 125 mil a 150 mil soldados ucranianos mortos, além de centenas de milhares de feridos e desaparecidos. Milhões de ucranianos, por sua vez, continuam vivendo como refugiados no exterior ou deslocados dentro do próprio país.
Por outro lado, a Rússia também paga um preço altíssimo nesta guerra, especialmente em vidas de seus soldados. Estimativas independentes indicam cerca de 1,4 milhão de baixas, entre mortos, feridos e desaparecidos. As perdas materiais das forças armadas russas nesses quase 5 anos de guerra também impressionam: cerca de 4.450 carros de combate, além de milhares de outros blindados e sistemas de artilharia, quase 200 aeronaves e dezenas de navios.
Além disso, a Ucrânia conseguiu, especialmente a partir de 2026, desencadear uma campanha de ataques com drones contra refinarias, depósitos, oleodutos e terminais de exportação, reduzindo significativamente a capacidade de refino da Rússia e provocando escassez de combustíveis, o que obrigou Moscou a restringir exportações e levou a Rússia, um dos maiores produtores mundiais de petróleo, a importar gasolina e diesel.
Apesar disso, nos últimos meses, a Rússia tem aumentado significativamente os ataques à Ucrânia.
A análise dos alvos atingidos pela Rússia demonstra que o objetivo dos atacantes não está restrito a obter ganhos táticos
A seleção de escolas, hospitais, edifícios residenciais, centros de dados, instituições oficiais, escritórios, infraestrutura energética, ferrovias, depósitos e redes de comunicação demonstra que os russos pretendem afetar o próprio funcionamento das cidades e causar grandes transtornos à população, tentando enfraquecer a moral e a vontade de lutar dos ucranianos.
Moscou também passou a alertar diplomatas de países estrangeiros para que abandonem Kiev, para não colocarem suas vidas em risco, criando uma narrativa de que a capital ucraniana deixou de ser uma retaguarda segura.
Nesse sentido, a pressão russa não se limita ao território ucraniano. Os países europeus têm denunciado uma crescente guerra híbrida russa, com a intensificação das ações de espionagem, sabotagem, guerra cibernética, entre outras, atribuídas à Rússia. Ao mesmo tempo, o Kremlin volta a recorrer com frequência à ameaça nuclear, procurando deixar claro aos governos europeus que uma ampliação de seu envolvimento no conflito poderia produzir consequências imprevisíveis.
Assim, depois de 1.685 dias, a guerra já não pode ser compreendida apenas observando-se a linha de frente. Ela é travada nas trincheiras do Donbass, mas também nos céus de Kiev, contra as refinarias russas, nas redes clandestinas que operam em cidades europeias e também no terreno da coerção nuclear.
Depois de todo esse tempo de guerra, a Rússia continua acreditando que o tempo trabalha a seu favor, tentando não só quebrar a resistência ucraniana como a disposição europeia de sustentá-la.
Por outro lado, a Ucrânia procura demonstrar que consegue continuar a resistir e a impor custos crescentes à Rússia, inclusive em seu próprio território, enquanto os países europeus reiteram que não abandonarão a Ucrânia. Enquanto ambos os lados acreditarem que continuar lutando pode produzir uma situação melhor do que aquela que obteriam numa negociação, os enormes custos já pagos não serão suficientes, por si sós, para produzir a paz.

Paulo Filho é coronel de Cavalaria da reserva do Exército, Bacharel em Ciências Militares, Mestre em Operações Militares e em Estudos de Defesa e Estratégia e especialista em História Militar. Comandou Esquadrões de Carros de Combate e de Fuzileiros Blindados em Regimentos de Cavalaria e foi oficial de Inteligência da 5ª Brigada de Cavalaria Blindada. Hoje, se dedica aos estudos geopolíticos. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



