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Paulo Filho

Paulo Filho

Tensões internacionais

Um mundo em crise e o desafio estratégico do Brasil

Crises globais se multiplicam, potências testam limites e a corrida armamentista avança. O Brasil precisa debater estratégia com urgência. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

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O ano mal começou, e a quantidade de crises na política internacional já é impressionante. Aqui na América do Sul, um de nossos vizinhos do norte, a Venezuela, teve seu ditador retirado do poder por uma inédita e espetacular ação militar norte-americana. O regime chavista, entretanto, continua no controle do país, e a democracia segue parecendo um sonho distante para os venezuelanos.

Após a ação na Venezuela, os Estados Unidos voltaram sua atenção para a Groenlândia, a maior ilha do mundo. Trata-se de um território que goza de ampla autonomia, mas que permanece sob soberania dinamarquesa. O presidente Donald Trump afirmou reiteradas vezes que os EUA possuirão a Groenlândia, “por bem ou por mal”, declaração que deixou dinamarqueses e europeus perplexos.

A primeira-ministra da Dinamarca chegou a afirmar que uma eventual ação militar americana contra a ilha significaria, na prática, o fim da OTAN, a maior aliança militar da história. A razão é clara: baseada no princípio da defesa coletiva — segundo o qual um ataque a um é um ataque a todos —, a Aliança passa a enfrentar uma situação impensável e sem precedentes: a possibilidade de um de seus membros atacar outro.

Na Europa Oriental, a guerra na Ucrânia, iniciada com a invasão russa em fevereiro de 2022, está prestes a completar quatro anos. Nos últimos dias, os russos lançaram um míssil balístico contra a cidade de Lviv, localizada a apenas 70 quilômetros da fronteira com a Polônia.

Embora, nesse caso, o míssil estivesse equipado com cargas explosivas convencionais, trata-se de um vetor com capacidade para transportar ogivas nucleares, o que acionou todos os alarmes possíveis nos países europeus membros da OTAN.

No Oriente Médio, o cenário não é melhor. No Irã, o governo dos aiatolás bloqueou completamente o acesso à internet, enquanto a população vai às ruas em protestos cada vez maiores, enfrentando as forças repressivas do regime.

Estima-se que a repressão já tenha causado centenas de mortes, o que levou o presidente Trump a declarar que os Estados Unidos atacariam o governo iraniano caso houvesse novas mortes de civis. Ao mesmo tempo, Israel intensificou seus ataques contra o Hezbollah no Líbano, elevando significativamente o risco de uma nova escalada regional.

Na África, mais precisamente no Atlântico Sul, as marinhas da China, da Rússia e do Irã uniram-se à da África do Sul para a realização dos exercícios navais “Will for Peace 2026”.

As manobras serão interpretadas em Washington como mais uma sinalização do aprofundamento da cooperação militar entre os países dos BRICS, em um contexto de crescente militarização das disputas marítimas globais. Elas também podem ser lidas como resposta a episódios recentes, como o apresamento, pelos Estados Unidos, de um petroleiro de bandeira russa no Mar do Norte, ocorrido na semana passada.

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No Leste Asiático, a instabilidade não é menor. As tensões entre China e Japão se intensificaram após Pequim proibir a exportação para os japoneses de bens de “uso dual” — produtos, tecnologias ou equipamentos com aplicações civis e militares —, além de ameaçar interromper o fornecimento de ímãs de terras raras em retaliação a declarações da primeira-ministra japonesa sobre Taiwan.

Paralelamente, a Coreia do Norte voltou a lançar mísseis hipersônicos em direção ao Mar do Japão, reiterando suas capacidades nucleares em meio à crescente instabilidade regional. O resultado desse ambiente de profunda instabilidade global é o aumento praticamente automático dos investimentos em Defesa.

O presidente Trump anunciou recentemente que os Estados Unidos investirão US$ 1,5 trilhão em seu orçamento militar em 2027, um aumento de 66,6% em relação aos US$ 901 bilhões previstos para 2026.

Caso esse objetivo seja efetivamente implementado, a já enorme distância entre as capacidades militares norte-americanas e as dos demais países tende a se ampliar ainda mais. Isso, evidentemente, estimulará um crescimento generalizado dos investimentos em defesa em todo o mundo e, muito provavelmente, impulsionará uma nova corrida nuclear.

A arma atômica permanece como o único instrumento capaz de oferecer algum grau de dissuasão frente a uma força militar como a dos Estados Unidos

Navegar em meio a essa enorme instabilidade é o desafio que se impõe a todos os países, inclusive ao Brasil. A pergunta que se coloca é simples, mas decisiva: como reagir a tantos e tão complexos desafios?

A primeira resposta passa por colocar esse tema, com urgência, no centro do debate nacional. Como tenho afirmado reiteradas vezes neste espaço, é indispensável que o Brasil volte a discutir sua Estratégia, entendida como a teoria que orienta o emprego do poder militar com vistas à vitória em um eventual conflito armado. Essa é uma tarefa primordialmente atribuída aos militares e ao Ministério da Defesa.

Mas isso, por si só, é insuficiente. Tão ou mais importante é a definição de uma Grande Estratégia nacional: uma teoria capaz de coordenar, de forma integrada e permanente, todos os instrumentos de poder à disposição do país — políticos, econômicos, científico-tecnológicos, psicossociais e militares — em torno dos grandes objetivos nacionais e da segurança dos brasileiros. Trata-se de uma responsabilidade do governo como um todo, que exige também a participação ativa e a cobrança permanente da sociedade brasileira.

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