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Como matemática não é meu forte, tive que recorrer à calculadora para comprovar o que intuitivamente me pareceu um milagre. Um carro a 90km/h percorre 750 metros em 30 segundos. Trinta segundos. Setecentos e cinquenta metros. Essa era a distância entre mim e o acidente. Uma carreta carregada de frango tombou numa curva da BR-277. Atingiu a mureta de concreto que separa as pistas. Matou o motorista. Por trinta segundos, não fui atingido pelo monstrengo de aço que aparentemente perdeu os freios.
Eu que voltava de uma temporada curtíssima de descanso na praia e que agora estava ali, preso no engarrafamento, reclamando da espera. Reclamando. Sem nada para comer. Afinal, quem poderia imaginar? Trinta segundos a 90km/h. Quatro horas parado. Tédio e ansiedade. E o corpo do caminhoneiro lá, coberto por uma lona preta. Morreu na hora. Poucas curvas antes do tombamento, um caminhão me retardou em... trinta segundos. Teve também aquela paradinha muito rápida num dos refúgios da Alexandra-Matinhos. Trinta segundos.
Vai longe
Chega o IML. A curiosidade me grita e saio do carro. Cruzo os setecentos e cinquenta metros que me separam do acidente. No caminho, admiro o vale. Sigo sem saber direito o que espero ver adiante. A poucos metros do acidente, as pessoas conversam. Não tem marca de freada. Virou carne moída. Droga, isso vai até a noite. Pior são os vagabundos saqueando a carga. Quando vai chegar a equipe RPC? Ao ouvir a pergunta, me apresento como jornalista e digo que o público não se interessa por esse tipo de tragédia. Não mais. A não ser que envolva política. Em quem foi que o caminhoneiro votou? Olha lá. Vão tirar o corpo agora.
Nunca tinha visto algo parecido. Só na televisão. Não filma! Respeita a família! – grita uma voz feminina para algum sem-noção desalmado. Não quero ver. Fico na ponta dos pés. Não vejo nada, infelizmente e graças a Deus. Mas ouço o silêncio e não é um silêncio normal. Não é. Junte-se ao silêncio a neblina. Uau. Quero puxar uma Ave Maria. Convém? Rezo mentalmente. Em meio ao frango e aos destroços do caminhão e da mureta de concreto, o corpo é colocado num treco metálico. Seis homens fazem força para carregá-lo. Um corpo. Uma coisa. Um peso. Trinta segundos. Setecentos e cinquenta metros. Podia ser eu.
De cabeça baixa, as pessoas voltam para seus carros. Para a espera. Tem que ter paciência. Será que vamos perder o jogo do Coxa? Pipoca!, água!, refri! Liberou? Não liberou? Pelo menos estamos vivos. Vai longe isso aí.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



