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Somos educados a exercermos sempre o espírito crítico e a desconfiarmos de tudo e todos neste mundo que seria sempre cruel.
Somos educados a exercermos sempre o espírito crítico e a desconfiarmos de tudo e todos neste mundo que seria sempre cruel.| Foto: Bigstock

A gente elogia pouco. Muito pouco. O que é compreensível. Afinal, somos educados a exercermos sempre o espírito crítico e a desconfiarmos de tudo e todos neste mundo que seria sempre cruel. Tão empenhados estamos em “melhorar o mundo”, porém, nos esquecemos de admirar e incentivar as infinitas pequenas coisas que dão certo, às vezes até muito certo.

Por “mundo”, me refiro não ao governo, às instituições, às celebridades – a essas coisas minúsculas que, por uma distorção do olhar, parecem gigantescas e importantíssimas. Penso, aqui, nas pessoas simples, quase todas anônimas, e suas boas intenções. E até nas tentativas que, muitas vezes, resultam em fracassos interessantíssimos que ensinam a todos.

Não estou falando do elogio que é bajulação. Muito menos do elogio-que-não-é-elogio, aquele feito com artimanha e planejamento para se traduzir em promoção no trabalho, em venda, em voto ou até em cama. Penso no elogio-elogio. Elogio com “e” maiúsculo e trabalhado. Aquela coisa simples e sincera, mas jamais suficientemente rotineira.

No elogio verdadeiro, há muito mais trabalho do que na crítica, por mais construtiva que ela seja ou pretenda ser. É preciso ser extraordinariamente generoso a fim de reconhecer: um ser humano que não eu ou você fez isso e aquilo bem, muito bem, melhor do que eu fiz hoje e possivelmente melhor do que eu jamais faria. E, por isso, é digno de um elogio.

E, se você parar para ver, vai notar a seu redor muitos seres humanos dignos de elogios os mais variados. O gari que está varrendo a rua às 6h da manhã, e sob um frio de quatro graus negativos, por exemplo. O motorista que, a despeito das buzinadas atrás dele, parou para deixar o pedestre passar. O vendedor que o atendeu bem, mesmo você tendo experimentado 50 pares de sapato e dando vários sinais de que não levaria nenhum para casa.

Em se elogiando, claro que há sempre a possibilidade de o outro se deixar envaidecer, tropeçando na banana da autocondescendência, quando não da displicência. Daí porque se ouve com alguma frequência o famoso “não se pode elogiar mesmo”. Mas esse arrependimento pelo elogio não faz sentido. O elogio geralmente tem um objeto definido e está restrito a um tempo muito específico. Ele não é, pois, garantia de infalibilidade alguma. E nem pretende ser.

Elogiar é, para evocar aqui a filosofia sartreana que fez minha cabeça no tempo em que ainda tinha cabelos, reconhecer o lugar do outro no mundo. É dar momentaneamente um sentido à existência abençoadamente pequena de todos nós. É perceber no outro uma centelha em meio a esse incêndio avassalador que é a vida.

Elogiemos sem medo, pois, tudo o que nos rodeia e nos encanta: os esforços próprios e alheios, as esperanças de sucesso que sempre ignoram a probabilidade maior do fracasso, aquelas ideias ou opiniões tão tolas, coitadas, mas que, ditas com entusiasmo, quase nos permitem ver a alma de quem diz. E também, claro, as realizações de fato bem-sucedidas, provas do quanto a Humanidade, mesmo parecendo vulgar, comum, repetitiva e trivial, consegue às vezes se mostrar divina.

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