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Polzonoff

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Transformando em crônica heroica o noticiário de cada dia.

Amizades

Deixa disso, Adriano!

ADRIANO
Não tive dúvidas: puxei o sujeito para perto e o abracei apertado. (Foto: Gemini)

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Desci do Imperial, virei à esquerda, cinco ou seis passos e dei de cara com o Adriano. Paramos um diante do outro. Alguns segundos para ter certeza e não passar a vergonha que passei outro dia, ao abrir os braços e ir todo efusivo em direção ao Thiago – mas não era o Thiago. Sei lá quem era. Alguém muito parecido. Mas o Adriano era mesmo o Adriano com aquele seu passinho curto e meio manqueta. Não tive dúvidas: puxei o sujeito para perto e o abracei apertado. Como se não fizesse mais de duas décadas. Vinte anos. Tempo demais.

Ele ficou paralisado. Não devolveu o abraço. Percebi, claro. De idiota só tenho a cara. E, sinceramente, que se dane. Adriano! Caramba! Quanto tempo! Como é que você tá? O que tá fazendo por aqui? Só não convidei para um almoço porque tinha acabado de almoçar. Senão. E ele lá, um sorriso de surpresa no rosto. Monossilábico, ainda que polissilábico. Quanto tempo mesmo. Estou bem. De repente, vislumbro uma nesga da amizade há muito desfeita, sei lá por quê (sei, sim): você ainda está lá na Gazeta?, pergunta ele. Sim! Tô indo pra lá agora! Faço um gesto mostrando a fantasia de homem sério que uso no trabalho. Depois faço uma piada com minha calvície. Ele não ri.

Bom te ver!

Bom te ver!, digo e estou sendo sincero. É sempre muito bom ver os amigos, mesmo que eles tenham se tornado ex-amigos e, no caso do Adriano, até um pouco inimigos. Já morei na casa dele. Conversávamos e conversávamos, meu Deus, quantas horas não passamos resolvendo todos os problemas do mundo?! Aí teve uma moça no meio da amizade, no meio da amizade teve uma moça. Preciso forçar a memória para me lembrar do nome dela e ainda assim levo um tempo. A mágoa é sempre mais eterna do que o afeto. Para piorar: nunca houve nada além de desejo. Faria sentido explicar isso ali, no meio da rua – e depois de tanto tempo?

Ele não responde que é bom me ver porque não é. Está na cara e tudo bem. Fiz muita coisa errada na vida mesmo. Achava que as amizades eram eternas, apesar de tudo. Apesar da moça. De repente, lembro que fiquei sabendo que o Adriano perdeu a mãe há pouco tempo. Falo ou não falo? Não falo. Digo que tenho que ir, que estou atrasado. É mentira. Que bom te ver, repito. Não é mentira, mas é um pouco. É bom saber que o amigo está vivo, ainda que evidentemente magoado comigo. Será que me odeia? Por um átimo, imagino nós dois sentados num café, brincando de trocar nostalgias. Até o nome da moça vir à tona e... Um brinde a ela, qualquer que seja seu nome. Nos despedimos. Olho para trás. Ele não.

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